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Após uma operação da Polícia Federal (PF) mirar gestores do Rioprevidência na última semana, o clima em Itaguaí, na Baixada Fluminense, é de compasso de espera: Carlos Eduardo Cruz Ferreira Gonçalves, presidente do Itaprevi, fundo que paga aposentadorias e pensões de 1,6 mil servidores, afirma ter certeza de que uma investigação nos moldes da realizada no fundo estadual deve atingir o município.
“Depois do Rioprevidência, não tenho dúvidas de que a PF vai chegar aqui”, afirmou.
O Itaprevi é uma das 18 entidades que investiram em Letras Financeiras (LFs) do Banco Master, mas se destaca por ter a maior fatia do patrimônio (20%) comprometida com papéis sem garantia do banco liquidado.
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Enquanto diz desenhar caminhos para amenizar o prejuízo aos cofres do fundo e evitar riscos aos pagamentos dos beneficiários — possibilidade que descarta —, Gonçalves responsabiliza a antiga gestão pelos aportes no Master, e se prepara para “possíveis visitas” de agentes da PF no instituto.
Documentos apresentados por Gonçalves apontam que o fundo investiu R$ 29,6 milhões no Master em 28 de junho de 2024, e outros R$ 30 milhões no dia 03 de julho do mesmo ano. Antes, o patrimônio estava alocado apenas em grandes bancos tradicionais.
Os aportes aconteceram poucos dias após a advogada Fernanda Pereira da Silva Machado assumir a presidência do fundo, em 12 de junho daquele ano. Antes, ela atuava como gerente de controle interno do Rioprevidência, fundo estadual do Rio, que investiu R$ 970 milhões em LFs do Master, 10% do patrimônio.
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Procurada, Fernanda afirmou em nota que os investimentos do Itaprevi no Master “não decorreram de qualquer decisão pessoal, discricionária ou direcionada” ao banco, e que, em duas ocasiões distintas, o Master “apresentou a melhor proposta” de rentabilidade e de pagamento de juros.
O atual presidente do Itaprevi afirma que, antes das aplicações, a gestão de Fernanda alterou a política de investimentos do fundo em 2024, elevando a permissão de aportes em LFs de 2% do patrimônio para 20%. Segundo Gonçalves, as aplicações foram feitas apesar de ponderações da empresa de consultoria de investimentos ao Itaprevi.
“A consultoria foi ouvida e opinou que títulos públicos eram mais seguros, e que se fossem usar LFs, que fossem de no máximo três anos, mas escolheram LFs de 10 anos”, diz Gonçalves.
A advogada, porém, nega que sua gestão tenha mudado a diretriz do fundo. Segundo ela, a política de investimentos “já previa expressamente” a possibilidade de alocação mínima de 2% e máxima de 20% em LFs, o que estaria de acordo com a legislação. Fernanda chamou de inverídica a afirmação de que relatórios da Mais Valia seriam contrários ao investimento em LFs.
“O credenciamento do Master ocorreu antes da minha posse, por gestão anterior. (…) É útil esclarecer que a escolha em lugar dos “grandes bancos tradicionais” nada significa além de ter recaído sobre uma instituição menos tradicional, mas que oferecia, como ofereceu, melhores condições para o investidor, tendência que vem se afirmando no mercado financeiro com o crescimento vertiginoso das startups” ponderou a advogada, que cita ainda o rating elevado.
O Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ) abriu inquérito para apurar eventual risco de prejuízo e possível responsabilização dos agentes envolvidos nas aplicações do Itaprevi.
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Servidores preocupados
Fernanda deixou o cargo em 1º de janeiro de 2025, um mês após o então presidente da Câmara de Vereadores, Haroldo Neto, o Haroldinho (PDT), assumir a prefeitura interinamente no lugar de Rubem Vieira, o Dr. Rubão (Podemos), que teve a eleição suspensa pelo Tribunal Regional Eleitoral.
Enquanto a antiga e a atual gestão têm versões distintas sobre o que motivou a aplicação, quem depende da administração do fundo teme pelo futuro. Professora de História na rede municipal, Maria Lúcia Britto, de 57 anos, reclama de falta de transparência e de comunicação clara sobre o caso, e conta que muitos colegas desconhecem o comprometimento de 20% do fundo com um banco agora liquidado.
“É uma parcela muito grande. Como vai ser quando a gente tiver que aposentar? Será que vão ter recursos para pagar a gente?”, questiona.
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Depois de 35 anos lecionando Educação Física, a professora Enílcia de Aguiar Cabral, de 62 anos, se aposentou em julho. Quando as primeiras notícias citando os investimentos do Itaprevi saíram, em 2025, se assustou:
“A gente não sabe qual a saúde do instituto, e nos questionamos como vai ser daqui para frente e se o pagamento vai atrasar. Se algo assim acontecer, vou ter que me reinventar, encontrar algo para ter renda.”
Segundo o presidente do instituto, o prejuízo com as aplicações no Master não põe em risco os pagamentos aos aposentados. Ele afirmou que não prevê a possibilidade de aumento da alíquota de contribuição dos cerca de 7 mil servidores ativos para compensar as perdas.
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“Posso afirmar que o instituto tem saúde financeira para pagar a folha por no mínimo 10 anos. Temos em caixa aproximadamente R$ 300 milhões”, pontua Gonçalves.
Ainda assim, o caso amplia o déficit atuarial (quando o valor projetado das obrigações futuras de um fundo supera a soma de seus ativos atuais e contribuições futuras) do Itaprevi, hoje em cerca de R$ 1 bilhão. Segundo Gonçalves, o município paga ao Itaprevi R$ 6 milhões por mês para compensar a diferença, que ainda não inclui o prejuízo com o Master. Cálculos estão sendo feitos para atualizar o montante.
O município pediu a habilitação de crédito dos investimentos feitos ao liquidante do Master, e tenta antecipar o recebimento de precatórios (dívidas judiciais) para compensar as perdas.
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“O prejuízo recai sobre a Prefeitura de Itaguaí. Se o município tiver precatórios a receber e conseguirmos antecipá-los, consigo reduzir esse débito atuarial”, explicou o presidente do Itaprevi.