Enel pede arquivamento de processo de fim de contrato e diz ter cumprido obrigações

Empresa alega desempenho compatível com magnitude de apagão que atingiu 4,4 milhões de imóveis, enquanto diretoria da agência inicia votação sobre fim do contrato

Estadão Conteúdo

Ativos mencionados na matéria

Logo da Enel em uma subestação em São Paulo, Brasil
26 de março de 2025
REUTERS/Amanda Perobelli
Logo da Enel em uma subestação em São Paulo, Brasil 26 de março de 2025 REUTERS/Amanda Perobelli

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A concessionária de energia elétrica Enel afirmou ter cumprido todas as suas obrigações durante o apagão que deixou 4,4 milhões de imóveis da Grande São Paulo – terceiro grande blecaute na região desde 2023.

A empresa rebateu o relatório técnico da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que concluiu que a atuação da companhia na crise foi “insatisfatória”.

“As únicas medidas que a distribuidora podia adotar naquele momento foram exatamente as que praticou, obtendo desempenho compatível com a magnitude do evento. Nenhuma outra conduta era exigível”, afirmou a Enel.

A defesa da Enel foi apresentada nesta quinta-feira, 26, no processo da Aneel que vai definir se recomenda ou não o fim do contrato (caducidade) da empresa. Após o apagão de dezembro, o Ministério de Minas e Energia, o governo paulista e a Prefeitura da capital se uniram para pedir a rescisão. A Enel pediu o arquivamento do processo.

Apesar de o serviço ser prestado no âmbito local, só o governo federal, responsável pelo contrato, pode rescindir a concessão. Para isso, no entanto, é necessária recomendação da agência reguladora.

Votação

A resposta da Enel ocorre dois dias após o diretor-geral da autarquia, Sandoval de Araujo Feitosa Neto, votar pela recomendação do rompimento. Ele foi o primeiro integrante da diretoria a se manifestar. Os outros quatro diretores ainda precisam apresentar seus votos, o que deve ocorrer na reunião de 24 de março.

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A concessionária voltou a argumentar que, em dezembro, os ventos atingiram quase 100 km/h, derrubando centenas de árvores, e que a ventania persistiu por mais de 12 horas.

“Mesmo diante de um evento climático inédito, de longa duração, com alto impacto e elevada quantidade de clientes afetados, a Enel conseguiu promover um restabelecimento significativamente mais rápido (que nos apagões de 2023 e 2024).”

Apesar da fala, o relatório técnico da Aneel destaca que a energia só voltou para todos os imóveis afetados pelo vendaval de 10 de dezembro às 10h47 do dia 16 – cerca de seis dias após o início da crise.

A Enel, no entanto, defendeu que mais de 80% dos imóveis afetados haviam recuperado o fornecimento elétrico em até 24 horas (3,37 milhões de clientes).

Linha do tempo da Enel

Em 21 de outubro de 2024, a Aneel intimou a Enel, iniciando formalmente o processo administrativo que avalia a extinção da concessão – procedimento chamado de Termo de Intimação. Ao fim da análise, a agência pode recomendar ao Ministério romper ou não o contrato.

Ao intimar a companhia, a Aneel argumentou “prestação inadequada do serviço de restabelecimento de energia após interrupções”.

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Um relatório técnico feito à época embasou o processo, indicando:

A Aneel concluiu que as mesmas falhas identificadas no apagão de 2023 se repetiram em 2024. A análise foi feita pela Superintendência de Fiscalização Técnica dos Serviços de Energia Elétrica da reguladora.

O processo contra a Enel foi sorteado entre os cinco diretores da autarquia, determinando quem seria o responsável (o relator) pelo caso. A tarefa coube à diretora Agnes Costa.

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A intimação obrigou a Enel a apresentar sua defesa, assim como um plano de recuperação para regularizar as falhas identificadas.

Em 5 de novembro de 2024, a Enel enviou sua manifestação e, em 21 de novembro, seu plano de ação. Em 4 de dezembro, Agnes Costa solicitou análise técnica para verificar se a proposta era suficiente. A avaliação, apresentada em 19 de dezembro, concluiu haver “aderência” na sugestão, mas apontou ser fundamental acompanhamento contínuo.

A Aneel decidiu monitorar a implementação das medidas. Um novo relatório foi divulgado em 15 de setembro de 2025, dez meses após a apresentação do plano da Enel. O órgão analisou os dados durante o período chuvoso de novembro de 2024 a janeiro de 2025. A conclusão foi que as ações foram satisfatórias, mas ainda faltavam melhorias estruturais.

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Em nota, a Enel afirmou que o plano continha “iniciativas concretas e mensuráveis”, que foram integralmente atendidas. Cita a redução do tempo de atendimento a ocorrências emergenciais, a redução de interrupções de longa duração e a mobilização rápida de equipes em contingências de nível extremo. “As melhorias foram comprovadas pelos relatórios de fiscalização da Aneel e consideradas satisfatórias pelo regulador.”

A Superintendência de Fiscalização Técnica orientou estender o prazo de acompanhamento do plano de recuperação até março de 2026, para monitorar a atuação da companhia durante o próximo período de chuvas.

Em 4 de novembro de 2025, a diretoria da Aneel discutiu o caso durante reunião colegiada. Agnes Costa votou para estender o acompanhamento até 31 de março, antes de decidir sobre a caducidade, para “verificar a robustez das ações implementadas”.

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O diretor Gentil Nogueira apresentou pedido de vista – o adiamento da votação sobre estender ou não o prazo.

Mas antes que ele apresentasse seu voto, ocorreu o apagão de 4,4 milhões de imóveis na Grande São Paulo em 10 de dezembro.

Veja linha cronológica:

A distribuidora defende um investimento recorde de recursos para expandir e modernizar a rede. Desde que assumiu a concessão, em 2018, até 2024, a companhia diz ter investido mais de R$ 10 bilhões no Estado. Também anunciou um aporte de R$ 10,4 bilhões de 2025 a 2027.

“A Enel reforça a importância de se realizar uma avaliação ampla para enfrentar de forma estrutural os desafios de fornecimento de energia em uma cidade densamente populosa como São Paulo, cada vez mais exposta a eventos meteorológicos extremos”, afirmou.