Depoimentos à PF evidenciam suspeitas de negócios entre Master e BRB; veja trechos

Vídeos dos depoimentos, realizados em dezembro de 2025, mostram versões sobre empreitada

Agência O Globo

(Foto: Reprodução)
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Os depoimentos do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e do diretor de fiscalização do Banco Central (BC), Ailton Aquino, deixam claros indícios de fraudes e suspeitas sobre a negociação que levou o banco estatal do Distrito Federal a comprar carteiras de crédito inexistentes da instituição financeira de Vorcaro.

Os vídeos dos depoimentos, realizados em dezembro de 2025 por determinação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), foram tornados públicos na noite de quinta-feira por decisão do ministro.

À PF, Ailton Aquino disse que o Banco Master emitiu créditos inexistentes e comparou a irregularidade ao caso do Cruzeiro do Sul, que foi liquidado em 2012, e ao Econômico, extinto em 1995. Em ambos os casos, o BC afirmou que houve fraude.

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Aquino disse que o BC constatou “claramente a inexistência dos créditos” do Master. O diretor do BC mencionou a Tirreno, criada no fim de 2024 e que, segundo os investigadores, seria uma “empresa de prateleira” para viabilizar a operação de socorro ao banco de Vorcaro.

“Tem uma questão central. Dona Maria recebeu o crédito, tem um Pix ou TED? Nós perguntamos várias vezes, não tem elementos. Quantos TEDs, quantos Pix a Tirreno fez na sua gestão? Não tem um TED ou um Pix feito pela Tirreno”

— Ailton Aquino – diretor do BC

O diretor também disse à polícia que o BRB deveria ter de provisionar mais de R$ 5 bilhões por conta da aquisição de ativos inexistentes do Master. Questionado sobre a governança do Banco de Brasília, Aquino disse que a instituição financeira deveria ter percebido a fraude.

“Eu tenho certeza de que a governança do BRB deveria ter identificado (as fraudes). Não tenho dúvidas disso. É possível a identificação da existência ou não dos créditos. (É uma) falha na governança do BRB, tanto que o time da supervisão inquiriu muito o BRB em vários ofícios de auditoria acerca da aquisição dos créditos”

— Ailton Aquino – diretor do BC

Vorcaro e a ‘ajuda’ de amigos

O banqueiro Daniel Vorcaro, por sua vez, afirmou à Polícia Federal que, se tivesse recebido “ajuda de políticos” não “estaria ali de tornozeleira eletrônica”. Ele havia sido questionado pela delegada da PF Janaina Pallazzo, que conduz o inquérito, se alguns dos seus amigos políticos procurou viabilizar a venda do Master ao BRB, que acabou não sendo concretizada.

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“Eu queria só dizer o seguinte, se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo”

— Daniel Vorcaro – dono do Banco Master

O banqueiro, no entanto, confirmou que teve encontros com o governador de Brasília, Ibaneis Rocha (MDB), porque o político era um “controlador indireto”.

De acordo com o banqueiro, no fim, o prejuízo ficou para todo o sistema financeiro nacional.

“Aí fica a frustração minha, porque não era para a gente estar aqui nessa sala e com essa exposição toda para o país, porque o prejuízo, no final, não foi só meu, foi do sistema financeiro”

— Daniel Vorcaro – dono do Banco Master

Em manifestações anteriores, Ibaneis já confirmou que se encontrou com Vorcaro, mas diz nunca ter tratado de assuntos relacionados ao Master. Em novembro de 2025, o Banco Master foi liquidado por decisão do BC em função de “grave crise de liquidez” e violações às normas do sistema financeiro. Na ocasião, Vorcaro chegou a ser preso preventivamente, mas a medida foi revogada em seguida. Ele usa tornozeleira eletrônica e cumpre medidas restritivas.

Durante a acareação realizada no STF, a defesa do dono do Banco Master negou levantar o sigilo do aparelho celular do banqueiro após pedido da Polícia Federal. A negativa foi feita pelo advogado Roberto Podval à delegada Janaína Palazzo, responsável pela investigação. Seu argumento foi que havia “coisas pessoais” no aparelho e que ele temia vazamentos.

“A senhora me pediu se eu poderia abrir o sigilo do celular do Vorcaro e eu disse que não abriria pois eu tinha receio dos vazamentos”, disse o defensor.

Cobranças a Vorcaro

O fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa apresentaram versões divergentes durante acareação realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a origem das carteiras de crédito consideradas problemáticas adquiridas pelo banco público a partir de 2025.

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Ao ser questionado sobre o tema pela delegada Janaina Pallazzo, Vorcaro disse que o BRB tinha conhecimento de que parte dos créditos não havia sido originada pelo Master, mas por uma empresa chamada Tirreno. Segundo ele, o modelo de negócios previa a compra de carteiras estruturadas por outros agentes.

“A gente anunciou que faria vendas de originadores terceiros, nem eu sabia do nome Tirreno naquela ocasião, mas a gente chegou a conversar algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização, que seria de terceiros, carteiras originadas por terceiros e não mais originação própria especificamente”

— Daniel Vorcaro – dono do Banco Master

Após ser questionado pela PF, Costa negou essa versão e afirmou que sempre entendeu que os ativos tinham origem no próprio Master e que, só mais tarde, surgiram dúvidas sobre a procedência das carteiras.

Ainda durante a acareação, a delegada pergunta a Costa se Vorcaro foi perguntado “explicitamente” pelo BRB sobre quem seriam as originadoras e afirma que havia um conflito de versões entre o dono do Master e o ex-presidente do banco. Nesse momento, o ex-presidente do BRB afirma:

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“”Na nossa visão eram créditos originados pelo Master que estavam sendo recomprados. Mas em abril, ao analisar alguns contratos, identificamos que tinha um padrão documental diferente e passamos a questionar quem eram os originadores específicos. E, em maio, recebemos a informação de que eram créditos originados pela Tirreno. Não significa que a Tirreno produziu o crédito.”

— Paulo Henrique Costa – ex-presidente do Banco de Brasília (BRB)

Em depoimento, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou que fez cobranças diretas a Daniel Vorcaro para que identificasse problemas nas carteiras de crédito adquiridas pela instituição. Segundo ele, as cobranças começaram quando o Master deixou de manter interlocução regular com os setores técnicos do BRB responsáveis pela análise e acompanhamento das operações.

Paulo Henrique Costa afirmou que há uma interação praticamente diária entre as áreas técnicas do banco e as empresas que compram e vendem carteiras de crédito ao BRB. Segundo ele, quando essa comunicação deixou de funcionar adequadamente e surgiram dificuldades no acesso a informações, coube a ele presidência escalar o problema e cobrar diretamente’ executivos em níveis mais altos’.

“No caso concreto, quando a gerência de sessão, quando a superintendência de sessão, quando a diretoria financeira começam a ter dificuldade, a minha cobrança é direta no presidente do outro banco”

— Paulo Henrique Costa – ex-presidente do Banco de Brasília (BRB)

Questionado se esse presidente era Daniel Vorcaro, o ex-dirigente assentiu. Em seguida, acrescentou que as mensagens e contatos devem aparecer na perícia do aparelho celular.

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“A perícia no meu celular vai mostrar esses registros. E essas cobranças nem sempre foram feitas de uma maneira muito delicada, no recebimento e na busca desses documentos”, afirmou.