Ciclone-bomba é mais imprevisível e tem potencial de impacto maior que outros

Segundo Micael Cecchini, professor do Instituto Astronômico e Geofísico da USP, fenômeno que deve atingir o Brasil nesta quinta é desafio para a ciência e para autoridades

Reprodução/Metsul
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O ciclone-bomba, fenômeno climático que deve provocar vento e tempestades no Brasil a partir desta quinta, é mais imprevisível e tem um potencial de estrago maior do que outras categorias desse tipo de formação meteorológica, afirma o cientista Micael Cecchini.

Professor do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo (IAG-USP) apoiado pelo Instituto Serrapilheira, Cecchini analisou os dados disponíveis sobre o sistema que está se formando agora na costa do Brasil e vê nele um motivo razoável para preocupação.

Em entrevista ao Globo, ele explica por que essa categoria de ciclone representa uma ameaça a mais.

O Instituto Nacional de Meteorologia Inmet emitiu um alerta sobre o ciclone na terça.

Quanto de certeza temos de que o ciclone-bomba efetivamente vai se formar?

É difícil precisar o quanto de certeza que a gente tem. No alerta que o Inmet fez, eles mostraram a previsão do modelo deles. Ele mostrou que estava formando uma região de baixa pressão, inicialmente centrada ali no norte da Argentina, Uruguai, sul do Brasil, e depois se deslocando para o Oceano Atlântico.

De modo geral a previsibilidade desse tipo de modelo para a ocorrência de ciclone é alta, então provavelmente vai acontecer mesmo um ciclone. Agora, antecipar qual vai ser a intensidade envolve um pouco mais de incerteza.

A previsão inicial é de que ele se formaria nesta quinta-feira, então é preciso acompanhar dia a dia. De todo modo, é muito provável que aconteça mesmo um ciclone intenso, independentemente de ele poder ser classificado como ciclone-bomba.

A diferença entre um ciclone-bomba e um ciclone convencional é que o primeiro se forma com muito mais rapidez?

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Sim. Esse ciclone, ele tem essa região de baixa pressão, e parte nordeste dela no mapa é onde a gente tem a transição entre a massa de ar frio e a massa de ar quente. É uma zona de transição com um contraste de temperatura muito intenso e um contraste de pressão também intenso. E um ciclone-bomba ocorre justamente quando existe esse contraste mais acentuado.

Existe ali uma massa de ar frio que é muito mais fria em relação à massa de ar quente que está o nordeste. Quando esse contraste é muito grande, ele fortalece a zona de baixa pressão e a pressão decai mais rapidamente. Quando ocorre uma queda de 24 milibares de pressãoem 24 horas, já é possível classifica o fenômeno como um ciclone-bomba. Foi estabelecido um limiar para falar se essa zona de baixa pressão se intensificou nesse ritmo, a gente pode chamar um ciclone de ciclone-bomba. Se for menos do que esse ritmo, é um ciclone comum, digamos.

Uma vez formado o ciclone, porém, o impacto que ele têm é o mesmo que um ciclone normal? A diferença é só a formação mais rápida?

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Não é bem assim, porque quando a pressão decai muito rápido, ela cai por um motivo. Nesse caso, o motivo está nesses contrastes de temperatura e pressão maiores. O contraste de pressão gera ventos mais rápidos. Já o contraste de temperatura funciona com o ar frio avançando por baixo do ar quente, levantando-o. Se esse ar frio está mais frio, ele também está mais denso, e vai impulsionar mais ar quente. Por causa disso, a tendência é ter tempestades mais intensas. Por isso o alerta emitido agora fala de potencial para granizo, raios e outros problemas.

Uma outra consequência é que, depois que passar essa linha de tempestades, vem uma massa de ar mais frio. Nesse aspecto, um ciclone bomba se comporta de modo muito similar a um ciclone normal: primeiro vêm as tempestades, depois esfria. Só que ele é mais intenso. Então pode ter mais vento, mais tempestade e uma queda mais brusca de temperatura.

Então, além de o ciclone-bomba mais imprevisível, porque se forma mais rápido, ele tende a ter também um impacto maior?

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Eu diria que sim, porque ele é justamente um ciclone particularmente intenso. E como tal, ele é menos frequente, e considerado um caso mais extremo.

Existem diversos ciclones extratropicais passando ao longo do ano. Alguns deles são particularmente intensos, e são aqueles que os modelos têm mais dificuldade de antecipar. Modelos em geral têm dificuldade para prever coisas extremas, e maior facilidade de prever coisas comuns.* Então, a previsibilidade do ciclone-bomba, falando de modo geral, tende a ser mais baixa mesmo.

Já se sabe se a mudança climática está aumentando a frequância dos ciclones-bomba?

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Eu não lembro de ter visto na literatura científica um artigo que responda essa questão exatamente sobre ciclones-bomba. É possível que exista. Eu se que foi feita uma análise da frequência da passagem de frentes frias e da intensidade das frentes frias com as mudanças climáticas, e isso tem relação com essa questão.

Pensando na escala anual, contando quantos ciclones passam por ano e medindo a intensidade deles, sabemos que isso está sendo alterado pelas mudanças climáticas. Um dos motivos é que, se a gente está aquecendo a atmosfera, principalmente próximo do equador, talvez isso intensifique esse contraste de temperatura, podendo intensificar os ciclones também. Existem indícios de que as mudanças climáticas alteram a intensidade e frequência das frentes frias e dos ciclones de um modo geral, sim.

O aumento de passagem de frentes frias mais frias é um dado um pouco contraintuitivo quando se pensa em aquecimento global. Como isso funciona aqui?

Nós definimos o aquecimento global quando medimos a temperatura em todos os pontos do planeta e tiramos uma média. Na média, o planeta está esquentando, mas isso não quer dizer que ele vai esquentar igual em todas as regiões.

A temperatura aumenta mais, por exemplo, perto do Equador, que é onde bate mais sol. Mas entre as regiões que também estão esquentando rápido são as regiões polares. Nos polos, quando o ar se aquece um pouco, isso diminui a cobertura de gelo. E o gelo, sendo branco, reflete a radiação solar e tende a resfriar o planeta. Se você tem menos gelo, você resfria menos, portanto acaba esquentando mais.

Então, diferentes regiões vão esquentar mais ou menos, pode ter até regiões que vão esfriar ao longo do tempo, mas se você considerar tudo, o planeta está esquentando.