Calor extremo escancara desigualdade nas favelas do Rio, mostram pesquisadores

Estudo mede temperatura dentro das casas e registra “diários de calor” para mostrar como mudanças climáticas agravam o sofrimento de moradores sem infraestrutura e podem orientar políticas públicas

Reuters

Favela Chapéu Mangueira no bairro do Leme, no Rio de Janeiro
16/01/2016
REUTERS/Sergio Queiroz
Favela Chapéu Mangueira no bairro do Leme, no Rio de Janeiro 16/01/2016 REUTERS/Sergio Queiroz

Publicidade

Michele Campos tem ⁠vontade de chorar quando as temperaturas no Rio de ‍Janeiro ultrapassam os 40°C, aquecendo o cimento que se espalha por todos os cantos do Chapéu Mangueira, a favela onde ‌ela mora, e tornando ainda mais quente seu quarto sem janelas.

‘Para dormir que é pior’, disse Michele, de 39 anos. “Nós da comunidade vivemos o calor diferente das pessoas que têm condições financeiras de ter um ar-condicionado’.

Pesquisadores estão buscando entender como o ‌calor extremo pode afetar moradores dos morros da Babilônia ‌e Chapéu Mangueira, no bairro do Leme, e as 1,3 milhão de pessoas em geral que, assim como Michele, vivem nas favelas do Rio.

Feito para você!

A pesquisa é uma parceria entre a Universidade de Utrecht, na Holanda, a Universidade Federal ‌Fluminense (UFF), a Unilasalle e a ONG Revolusolar, criada há dez anos na Babilônia.

“As construções na favela são feitas ​nas condições dos pobres. A gente não tem arquiteto, a gente não tem engenheiro, a gente faz por uma questão de necessidade’, disse Valdinei Medina, presidente da Cooperativa de Energia Renovável Percília e Lúcio, a primeira de energia solar do Brasil baseada em favelas e parte da Revolusolar.

‘Chega no momento do calor, a gente sofre muito com isso’.

Continua depois da publicidade

O estudo instalou termômetros em casas do Chapéu Mangueira e Babilônia para medir ​a temperatura no ⁠ambiente interno. Além ⁠disso, moradores farão ‘diários de calor’ para documentar como as altas temperaturas afetam o corpo ‌e a rotina.

O objetivo é mostrar como as mudanças climáticas impactam os cariocas de forma distinta em uma cidade cuja desigualdade é visível, com as favelas se misturando ‍aos bairros ricos.

Os dados coletados podem basear políticas públicas que levem em conta não apenas os níveis ​de calor nas ‌ruas, mas também as condições dentro das residências, disse Francesca Pilò, coordenadora do ‍projeto e professora de planejamento urbano da Universidade de Utrecht.

O estudo, acrescentou, é o ‘ponto de partida para entender como a mudança climática, que a gente enxerga como um evento ambiental, mas que vira político, vem amplificando as desigualdades urbanas que já estavam aí’.