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Michele Campos tem vontade de chorar quando as temperaturas no Rio de Janeiro ultrapassam os 40°C, aquecendo o cimento que se espalha por todos os cantos do Chapéu Mangueira, a favela onde ela mora, e tornando ainda mais quente seu quarto sem janelas.
‘Para dormir que é pior’, disse Michele, de 39 anos. “Nós da comunidade vivemos o calor diferente das pessoas que têm condições financeiras de ter um ar-condicionado’.
Pesquisadores estão buscando entender como o calor extremo pode afetar moradores dos morros da Babilônia e Chapéu Mangueira, no bairro do Leme, e as 1,3 milhão de pessoas em geral que, assim como Michele, vivem nas favelas do Rio.
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A pesquisa é uma parceria entre a Universidade de Utrecht, na Holanda, a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Unilasalle e a ONG Revolusolar, criada há dez anos na Babilônia.
“As construções na favela são feitas nas condições dos pobres. A gente não tem arquiteto, a gente não tem engenheiro, a gente faz por uma questão de necessidade’, disse Valdinei Medina, presidente da Cooperativa de Energia Renovável Percília e Lúcio, a primeira de energia solar do Brasil baseada em favelas e parte da Revolusolar.
‘Chega no momento do calor, a gente sofre muito com isso’.
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O estudo instalou termômetros em casas do Chapéu Mangueira e Babilônia para medir a temperatura no ambiente interno. Além disso, moradores farão ‘diários de calor’ para documentar como as altas temperaturas afetam o corpo e a rotina.
O objetivo é mostrar como as mudanças climáticas impactam os cariocas de forma distinta em uma cidade cuja desigualdade é visível, com as favelas se misturando aos bairros ricos.
Os dados coletados podem basear políticas públicas que levem em conta não apenas os níveis de calor nas ruas, mas também as condições dentro das residências, disse Francesca Pilò, coordenadora do projeto e professora de planejamento urbano da Universidade de Utrecht.
O estudo, acrescentou, é o ‘ponto de partida para entender como a mudança climática, que a gente enxerga como um evento ambiental, mas que vira político, vem amplificando as desigualdades urbanas que já estavam aí’.
