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Os 50 minutos de blecaute que levaram ao "quase apagão" na Bovespa na 2ª

No dia 19 de janeiro, um blecaute de 50 minutos provocou a corrida para venda de ações na Bovespa - e que ilustrou a preocupação dos investidores

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(Bloomberg) - Às 15h30 de 19 de janeiro, em São Paulo, o serviço de mensagens instantâneas do trader Pedro Paulo Afonso lotou de perguntas de gestores de ativos.

Um telefone na mesa de operações tocou, depois outro e outro, e logo todos os 15 traders da TOV Corretora, uma das maiores corretoras do Brasil, estavam ouvindo a mesma coisa: uma queda de energia havia se espalhado pela metade do país. Venda as ações das concessionárias de serviços públicos.

Até o fim das negociações, pouco mais de uma hora mais tarde, todos os 68 integrantes do Ibovespa estavam em baixa, menos dois, com o setor de serviços públicos liderando a queda. A CPFL Energia SA (CPFE3), segunda maior empresa de eletricidade do Brasil em receitas, teve uma queda de 7,3 por cento, em seu maior declínio dentro de um mesmo dia desde outubro de 2008.

O alarde causado pelo blecaute de 50 minutos ilustra a preocupação dos investidores de que uma redução na produção hidrelétrica por causa da seca poderá provocar racionamento de energia neste ano, conduzindo a maior economia da América Latina para uma recessão. Em 2001, o racionamento de energia recortou 1 ponto porcentual do crescimento do produto interno bruto, estima o Banco Central.

“As pessoas lembram muito bem do que aconteceu da última vez”, disse Afonso, que é o diretor de investimento da corretora, em entrevista por telefone no dia 20 de janeiro, de São Paulo. “Com todos os problemas que já temos no Brasil, a sensação foi: ‘Ah não, outro racionamento é tudo que precisamos’”.

Impostos maiores
O risco maior de racionamento surge em um momento em que impostos mais altos, cortes no orçamento e elevações das taxas de juros já pesam sobre a perspectiva de crescimento. Em pesquisa do BC publicada no dia 19 de janeiro, os economistas reduziram sua projeção de crescimento para 2015 pela terceira semana seguida, para 0,4 por cento. Acima de tudo isso, um escândalo de corrupção está impedindo o acesso a créditos pela Petrobras, que é controlada pelo Estado, e pelas maiores construtoras do país.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico, conhecido como ONS, disse em um comunicado em seu site ter pedido que algumas distribuidoras de eletricidade desligassem suas linhas por cerca de 50 minutos no dia 19 de janeiro a partir das 15 horas, aproximadamente, depois que o uso de energia registrou um pico e que foram reportados problemas de transmissão. Naquele dia, as temperaturas atingiram 36 graus Celsius em São Paulo e no Rio de Janeiro, aumentando a demanda por eletricidade para os aparelhos de ar-condicionado. O ONS disse que o blecaute não foi causado pela falta de fornecimento de energia.

Isso não reduziu o medo de um apagão. A pior seca das últimas oito décadas deixou os principais reservatórios hidrelétricos em baixas recordes, reduzindo a produção nas usinas que fornecem cerca de 70 por cento da energia do Brasil. Os níveis dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil caíram para 17,6 por cento no dia 20 de janeiro, no meio daquela que tradicionalmente é a estação chuvosa do Brasil, contra 31,4 por cento em janeiro de 2001.

O fato de a energia ter sido restaurada cerca de uma hora depois do blecaute mostra a “robustez” do sistema integrado de energia, disse André Pepitone da Nóbrega, diretor da reguladora de energia Aneel. Embora o sistema do Brasil continue dependente da geração de eletricidade por hidrelétricas, as geradoras expandiram o leque, usando fontes como gás natural, energia nuclear e carvão.

Grandes usuários
“Este é, sem dúvida, um ano que exige atenção”, disse Pepitone em entrevista em Brasília no dia 20 de janeiro. “Nós precisamos ter esperanças de que vai chover”.

Grandes usuários de energia como a petroquímica Braskem SA (BRKM5), a produtora de autopeças Iochpe-Maxion SA (MYPK3) e a Paranapanema SA (PMAM3), que fabrica produtos de liga de cobre, provavelmente serão os mais atingidos, disse Bruno Piagentini, analista de investimentos da corretora Coinvalores. As ações da Braskem caíram 7,7 por cento no dia do blecaute, maior declínio do Ibovespa.

A assessoria de imprensa da Braskem preferiu não comentar como a empresa seria afetada por um eventual racionamento de energia no Brasil, assim como o escritório de relações com investidores da Iochpe-Maxion. As assessorias de imprensa da Paranapanema e da CPFL não responderam aos e-mails em busca de comentário.

 

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