Mais de dez milhões de desempregados sinalizam forte queda do PIB no primeiro trimestre

A economia brasileira vai dando sinais de que o primeiro trimestre do ano será de forte contração
Blog por Pedro Paulo Silveira  

A semana  estará congestionada com as reuniões de política monetária do FED (EUA, BCE (Zona do Euro) e BC (Brasil), que deverão manter suas taxas básicas. Os dois primeiros para combater a deflação que vem corroendo a confiança dos agentes e o último, ao contrário, para tentar debelar a inflação deverá manter os juros em 13,25%, um dos maiores do planeta. Adicionado a esse ambiente externo conturbado, o esforço político do provável novo presidente em formar seu governo, colocou os mercados em alerta, fazendo com que os preços das ações caiam fortemente.

O BC brasileiro, em particular, está observando a queda simultânea dos índices de preços efetivos, e das expectativas em relação ao fechamento de 2016. Após encerrarmos 2015 com 10,5%, o IPCA deve ficar abaixo de 6,70%, com a reversão dos grandes choques ocorridos no ano passado: os preços de alimentos e da energia elétrica, decorrentes da seca, e da forte desvalorização cambial. Tanto energia elétrica como o dólar estão caindo e os alimentos estão subindo em velocidade mais contida. Hoje a FGV divulgou o IPC-S, índice semanal, de 0,38% e os outros índices devem acompanhar.

Pesa sobre a comportamento da inflação a forte depressão que atua sobre nossa economia e que derrubou o PIB de 2015 em quase 4% e que deve fazer um estrago maior nesse ano. Os indicadores que estamos recebendo acerca da situação econômica no primeiro trimestre são muito ruins. Tudo indica que tivemos um primeiro trimestre de contração, com os gastos das famílias, investimentos privados e públicos, o que deve empurrar o PIB para baixo.

Os indicadores mais dramáticos da crise, e que reafirmam o que foi dito acima, são os relativos ao mercado de trabalho. Os brasileiros estão perdendo seus empregos de forma acelerada e isso impacta diretamente a renda, seja por diminuis a renda total, seja por diminuir a possibilidade de ganhos salariais por parte dos trabalhadores do setor privado. Veja o gráfico do CAGED, divulgado pelo Ministério do Trabalho:

 

Com os ajustes sazonais feito pela Nova Futura, o gráfico demonstra que a ciração mensal de vagas com carteira de trabalho está negativa desde a metade do ano retrasado e que vem caindo desde 2011. A deterioração das condições do trabalho formal prejudica não apenas a demanda agregada, de forma direta, mas corrói as condições financeiras da Previdência (por reduzir drasticamente as contribuições e aumenta os gastos com seguro desemprego), do Fundo de Garantia (reduz as contribuições e aumenta os saques), piorando de forma direta o déficit primário do governo central. A quantidade total de pessoas desempregadas, levantada pela Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (PNAD) explodiu:

  

 

Mais de três milhões de pessoas se juntaram aos desempregados nos últimos trimestres, e o total de pessoal procurando emprego bateu 10,38 milhões de pessoas no trimestre dez-jan-fev. Tudo indica que março vai piorar. O comportamento da renda das famílias é o do gráfico abaixo:

  

 

Do topo da série, atingido há um ano atrás, os rendimentos das famílias caíram 4%, seja por conta da ação da forte inflação, seja pela queda da capacidade dos trabalhadores conseguirem aumentos salariais. Piora a situação o fato de estarem incluídos no rendimento médio, os salários dos funcionários do setor público que foram agraciados sem o menor pudor ao longo dos últimos meses.

Com esse cenário é de se esperar resultados ruins das empresas no primeiro trimestre. Os fatos que poderão compensar estão ligados à queda do câmbio (que alivia a pressão da enormes dívidas dolarizadas). Porém, do ponto de vista estritamente operacional, o primeiro trimestre do ano, foi farto em péssimas notícias.

Em um ambiente desse, convencer a sociedade de que temos um a perspectiva positiva para o "novo ciclo político", com um novo governo, uma nova equipe econômica e um "novo" bloco partidário de sustentação, parece pouco crível. Ao menos o mercado acionário vem sinalizando isso.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com