A alta do varejo em fevereiro foi ponto fora da curva

A Pesquisa Mensal do Comércio mostrou uma melhora em fevereiro, com alta de 1,2%. Quase todos os segmentos tiveram alta, mas o acumulado no ano ainda está negativo. Pela trajetória de queda e pela situação do emprego e da renda, com a super-crise que esmaga as famílias, esse dado de fevereiro não deve representar uma recuperação.
Blog por Pedro Paulo Silveira  

Hoje o IBGE anuncio o comportamento das vendas do comércio varejista de fevereiro e o dado surpreendeu para cima. As vendas subiram 1,2% no mês, com recuperação em quase todos os setores. A tabela abaixo mostra o comportamento pelos grandes setores pesquisados:

 

  

Note que mesmo os automóveis e materiais de construção tiveram uma recuperação. Caíram apenas “tecidos, vestuário e calçados”, “livros, jornais, revistas e papelaria” e “equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação”.

A pergunta que fica, no entanto, é se essa alta pode ser vista como uma recuperação de uma tendência de queda, dada pela enorme recessão, pelo desemprego e pela contração da oferta de crédito. No ano a queda do comércio varejista ainda tem variação negativa e o acumulado em doze meses é de queda de 7,20%. Veja oi gráfico com o comportamento do comércio:

 

Após a longa trajetória de alta, o comércio vem caindo consistentemente desde o final de 2014. Como o comércio é um bom indicador do item “Consumo das Famílias”, que representa mais de 60% do PIB, ele dá uma boa mostra de como a recessão atual é influenciada pelo enorme sacrifício ao qual as famílias brasileiras estão submetidas. O que mais chama a atenção é a queda das vendas de supermercados e hipermercados. Como esse segmento representa a aquisição dos bens mais essenciais às pessoas (que têm a menor sensibilidade à queda da renda), a sua queda dá uma ideia precisa de como a recessão está profunda: as famílias estão cortando o que é mais essencial para sua sobrevivência. Veja o gráfico das vendas supermercados:

 

  

Se o comércio como um todo caiu cerca de 9,5% desde seu pico, as vendas de supermercado caíram 7%. Essa pode ser uma medida da queda real do consumo, desde que essa super-crise engoliu o país.

Para tirar a “prova dos nove” acerca desse evento, considere os resultados da maior rede de supermercados do país, o Pão de Açúcar. Veja o gráfico:

  

A empresa apresentou seu primeiro prejuízo desde 2001, depois de ter um lucro de R$ 1,7 bilhões em 2014. A queda dos lucros impulsionou uma enorme venda de suas ações, que passaram a perder valor, veja o gráfico:

 

De um patamar de preços da ordem de R$ 100, as ações caíram 55%, chegando aos atuais R$ 47. Essa oscilação marcou a evaporação de cerca de R$ 42 bilhões do valor de mercado da empresa.

Esse comportamento da ação é revelador dos mecanismos da crise: o desemprego leva as famílias a consumirem menos; as receitas e os lucros das empresas caem; o valor de mercado das empresas cai; com o valor das empresas caindo, os investimentos em novos negócios recuam; com a queda dos investimentos o desemprego aumenta e o ciclo recomeça.

 

Ainda que o mercado acionário possa fica um pouco mais otimista em relação às perspectivas, não há como considerar esse dado das vendas de fevereiro como um PONTO FORA DA CURVA.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

Economista pela FEA-USP, CNPI, atua no mercado financeiro desde 1983 e hoje exerce funções de análise econômica e de valores mobiliários. pepa2906@gmail.com