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A matemática da política

Enxergamos que a base aliada tem maior chance de ganhar as eleições de 2018 dado que estão melhor colocados com relação às principais variáveis da equação política: tempo de TV, alianças políticas e máquina pública. Quanto mais Lula partir para o confronto e radicalização, provavelmente menor será sua chance de vitória nas eleições. A maior parte dos Brasileiros não apoia radicalismo.

Lula
(Filipe Araújo)

É inegável o protagonismo da política na vida e no bolso dos brasileiros. Diante desta realidade, é fundamental que profissionais da área de investimentos tenham bem fundamentada sua visão sobre o assunto. Afinal de contas, uma mudança política para um lado ou para o outro é muito mais importante na precificação de ativos do que os próprios números econômicos em si. Basta olhar a performance dos principais ativos da economia brasileira do início de 2016 até hoje, quando houve uma guinada política de cento e oitenta graus, ao mesmo tempo em que a crise econômica se deteriorou.

Apesar de não ser cientista político de formação nem especialista no assunto, tive a oportunidade de conhecer e aprender com profissionais que possuem profundo conhecimento das entranhas e idiossincrasias da política nacional. De curioso a estudioso, inicialmente por necessidade, mas depois por prazer, sigo na busca de entender este complexo jogo de xadrez. Compartilho com o leitor, neste artigo, algumas das minhas considerações sobre o assunto.  

Como engenheiro de formação procuro sempre mensurar e quantificar todo problema que encontro pela frente. Com política não foi diferente. Aprendi que a equação da eleição é composta por diversas variáveis dentre as quais se destacam: tempo de TV, alianças políticas e máquina pública.

Por mais contraditório que pareça, tempo de TV ainda tem uma enorme importância nas eleições, mesmo na época da banda larga e das mídias sociais. O prefeito de São Paulo, João Dória, em outubro de 2016, ganhou a eleição municipal no primeiro turno com 53,3% dos votos válidos, tendo iniciado sua campanha em meados de julho de 2016 com míseros 6% das intenções de voto. O discurso de “não sou político, sou gestor, sou empresário” ganhou tração na campanha, mas ficou nítido que seu maior tempo de TV com relação aos demais candidatos foi crucial para sua avassaladora vitória. Tomando por base a configuração política atual, estima-se que a base aliada teria tempo de TV de três a quatro vezes maior que o da oposição.

As alianças políticas também são fundamentais. Palanque, presença regional, orçamento de campanha e contribuição em tempo de TV são todos elementos importantes. A forma de obtê-los é através das alianças políticas. As eleições municipais de 2016 alteraram drasticamente o equilíbrio das forças políticas. O PT foi o maior derrotado na eleição, passando de 630 prefeituras para 256. Ao mesmo tempo que o PSDB foi o maior vitorioso. Sem contar o aumento no número de prefeituras dos demais partidos da base aliada.   

Conhecemos bem a força da máquina pública e como ela impacta eleições. Apesar de que o avanço da “Lava Jato” será um fator inibidor dos excessos do passado, o que é louvável, é inegável que ter o orçamento e a máquina pública na mão são diferenciais importantes em qualquer eleição. A máquina pública Federal aliada ao maior número de Estados e Municípios nas mãos da base aliada serão fatores decisivos nas eleições de 2018.

E quanto ao fator “Lula” para essas eleições? Resultados de pesquisa recente do Datafolha mostram o ex-presidente com 30% das intenções de voto. Antes de se tirar uma conclusão precipitada, é importante observar alguns pontos.

Primeiro, mais relevante do que a intenção de voto em si é acompanhar o índice de rejeição do candidato. Não adianta superar o primeiro turno e ficar limitado a um teto no segundo porque a rejeição é muito alta. Lula tem um nível de rejeição muito alto quando comparado com outros candidatos. Segundo, estamos há um ano e meio das eleições presidenciais. Tirar uma conclusão sobre o resultado da eleição com base numa pesquisa tão adiantada é similar a querer acertar o campeão do Campeonato Brasileiro nas primeiras rodadas. Fernando Henrique Cardoso recentemente disse em evento em São Paulo: “Primeiro precisamos ver se é isso mesmo. Pesquisa fora de época não é pesquisa, é projeção no vazio”. Terceiro, não sabemos se o ex-presidente Lula disputará as eleições ou será impedido pela Justiça. Quarto, mesmo que Lula não seja impedido de disputar as eleições, a Lava Jato avança a passos largos e cada vez mais fecha o cerco em torno do ex-presidente. Provas e evidências dos processos certamente servirão de munição para seus adversários políticos. Quinto, a hegemonia de Lula no Nordeste está sendo seriamente testada com o sucesso de Antônio Carlos Magalhães Neto, do partido Democratas, à frente da prefeitura de Salvador. Além da reeleição no primeiro turno, ele goza de índices de aprovação altíssimos. Seu alinhamento com a base do governo terá impacto nos eleitores da Bahia, que comanda 30% dos votos do Nordeste. Sexto, a maioria dos políticos pesos pesados do PT e aliados foi alvejada pela "Lava Jato". Uma campanha eleitoral para presidente em um país continental como o Brasil exige, além de muita sola de sapato, aliados fortes e com reputação para subir no palanque junto com o candidato. Sétimo, com o avanço da reforma trabalhista, os sindicatos, que são base importante de apoio da oposição, perderão recursos fruto do fim da obrigatoriedade de contribuição. Oitavo, à medida que Lula sobe o tom, candidatos em potencial como Bolsonaro e Dória, que até agora não são acusados em nenhuma investigação, rebatem à altura, ganhando fama e audiência com isso. Quanto mais alto o discurso de confronto e radicalização, maior a intensidade e audiência da resposta. 

Por fim, gostaria de colocar que o impacto político de uma potencial recuperação econômica em 2018 seria um ativo valiosíssimo para a base aliada. Estamos a tanto tempo em recessão que já nos esquecemos de como se parece uma recuperação econômica. Números econômicos recentes mostram o início de uma melhora. A combinação de alguns fatores como os juros baixos, aumento na concessão de crédito, aumento de investimentos e até efeitos positivos na geração de empregos frutos da reforma trabalhista podem ser catalisadores que acendam uma recuperação econômica no segundo semestre de 2017 e primeiro semestre de 2018.

Em resumo, juntando as peças desse quebra-cabeça político, enxergamos que a base aliada tem maior chance de ganhar as eleições de 2018 dado que estão melhor colocados com relação às principais variáveis da equação política: tempo de TV, alianças políticas e máquina pública. Ao passo que a oposição se agarra na tábua da salvação do Lula, que cada vez mais é desacreditado não só pelas crescentes acusações que sofre, mas por sua própria reação de confronto e radicalização. Quanto mais Lula partir para o confronto e radicalização, provavelmente menor será sua chance de vitória nas eleições. A maior parte dos Brasileiros não apoia radicalismo. Não esqueçamos que Lula e o PT venceram as eleições de 2002 quando deram uma guinada ao centro. Quem não lembra do “Lula paz e amor”? E da “Carta ao Povo Brasileiro”? Hoje sabemos que esta carta foi escrita pela Odebrecht...  

Como consequência, temos confiança nas perspectivas econômicas e institucionais de médio e longo prazo para o Brasil. Faz sentido estar alocado em ativos que se beneficiam desse cenário, como bolsa (ações e fundos de ações), além dos fundos multimercados.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

 

perfil do autor

Cid Oliveira

Cid Maciel Monteiro de Oliveira CEO e sócio-fundador da startup invest.pro, Cid tem 18 anos de experiência, tendo atuado em instituições financeiras e gestoras no Brasil e no exterior. Graduou-se em Engenharia Civil pela UFRJ e concluiu mestrado em Finanças pela Manchester University na Inglaterra

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