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Bolsonaro precisa do Legislativo

O ano parece ser promissor, mas uma análise mais aprofundada se faz necessária para não cairmos no erro de demasiado otimismo com o governo Bolsonaro

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Bolsonaro e Onyx Lorenzoni
(Valter Campanato/Agência Brasil)

A primeira semana de 2019 veio com tudo. Ibovespa renovando suas máximas históricas, declarações positivas para estatais e muita movimentação para as Presidências do Senado e da Câmara compensaram o fim de dezembro bastante monótono para os investidores. O ano parece ser promissor, mas uma análise mais aprofundada se faz necessária para não cairmos no erro de demasiado otimismo com o governo Bolsonaro.

Vamos tentar entender então quais são as nuances deste governo que se inicia e como ele se sustentará: as estratégias de Bolsonaro para além da lua de mel.

Para tanto, bebi da fonte de Fernando Abrucio, cientista político e meu professor na FGV, que deu no mês de dezembro alguns insights sobre os caminhos que se desenham para o próximo presidente.  

Para Abrucio, o contexto das eleições de 2018 carrega uma série de peculiaridades que resultaram na eleição do candidato do PSL. O fato representa um realinhamento das forças políticas brasileiras após um longo período de estabilidade. Esse período de estabilidade foi marcado pelo impeachment de Collor no fim de 1992 e durou até 2013, ano em que a crise política se iniciou.

No fim das contas, a eleição de 2018 se mostrou polarizada e trouxe à tona pouco debate entre os candidatos. O grande vencedor, Jair Bolsonaro, fez a leitura acertada do que o eleitor ansiava e se apresentou como o candidato antissistema. Essa revolta com o sistema político veio de modo parcial com as manifestações de 2013 e se acentuou com a crise econômica, destruindo paulatinamente o alinhamento político firmado desde 1993 – e encabeçado pelo PT e o PSDB.

Nesse reajuste de vários aspectos da política (composição do Congresso, presidente assumidamente de direita, mudança no modo de fazer política), começamos o ano de 2019 com incertezas de peso no radar. O próprio Bolsonaro, por enquanto, figura um presidente de características muito difusas e está rodeado por diferentes grupos de interesse. A lua de mel presidencial é uma carta na manga que dá conforto ao líder do governo, mas tem prazo de validade não muito longo, podendo facilmente expirar já neste ano.

Um dos elementos mais importantes para o sucesso do governo em um médio-longo prazo é a governabilidade nas duas casas legislativas. Recentemente, o partido do presidente Bolsonaro, PSL, declarou apoio ao deputado candidato à reeleição Rodrigo Maia (DEM-RJ), em importante passo para garantir uma eventual maioria na Câmara.

Curioso é que o nome de Maia era até preterido por alguns integrantes próximos de Bolsonaro, mas a tradicional política venceu: o risco da oposição apoiar o candidato e, em troca, Maia atrapalhar os planos do governo era muito alto.

No Senado, o governo tem uma missão muito clara. A ordem é evitar a todo custo a volta de Renan Calheiros (MDB-AL) à Presidência da casa. O nome é considerado hostil ao novo governo e já tem algum apoio consolidado da oposição. Para isso, o PSL lançou Major Olímpio (PSL-SP) para comando do Senado – admitindo, porém, que pode apoiar outro candidato para evitar a eleição de Renan.

Independentemente do desfecho das eleições para Câmara e Senado, a governabilidade se conquistará evitando briga com os futuros vencedores. Na Câmara, a estratégia deve ser mais fácil, até porque a casa é, em um primeiro momento, favorável à agenda econômica do novo presidente. Já no Senado, é estimado que o presidente eleito terá mais independência e, portanto, exigirá um líder de governo à altura para articular e negociar com mais assertividade.

Outro aspecto importante para o sucesso de médio-longo prazo, acredito eu, é o foco no que é prioritário para o país. E o que é prioritário neste momento é, sem dúvidas, a economia. Dessa forma, não deve ser proveitoso para Bolsonaro explorar muito a sua agenda política e de valores, pelo menos no curto prazo. Isso significa que quanto menos temas como aborto, porte de armas, etc. nos primeiros 6 meses, maiores chances de sucesso para Bolsonaro e sua equipe.

Em resumo, o mês de janeiro girará em torno das eleições para líder do legislativo, além da construção da proposta do Executivo liderado por Bolsonaro sobre a reforma da Previdência Social. O mercado certamente ficará atento às duas pautas, assim como a coluna. Esperamos alguma dose de volatilidade.

Um feliz 2019 a todos e até semana que vem.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

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Glenda Ferreira

Nascida em Cassilândia (MS), é economista formada na Facamp-SP. Gosta de comer em bons restaurantes e viajar para conhecer outras culturas.

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Felipe Berenguer

Responsável pela análise política, estuda administração pública na FGV. Acredita nas instituições e na democracia, e seu amor é o Santos FC.

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