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O fio que liga os EUA à nossa Bolsa

Quero mostrar para você como o risco-país e a taxa de juros futuros dos Estados Unidos impactam o valor justo das empresas na Bolsa

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

bolsa EUA ações
(Reuters)

Resolvi trazer nesta semana um tema um pouco técnico. Vou falar sobre o custo de capital próprio.

Quero mostrar para você como o risco-país e a taxa de juros futuros dos Estados Unidos impactam o valor justo das empresas na Bolsa de Valores brasileira.

Isso mesmo que você pensou: uma decisão lá nos States pode afetar o preço de uma ação de uma empresa na Bovespa.

O custo de capital próprio é a taxa de retorno requerida pelos acionistas para compensar o risco incorrido ao se investir na empresa.

Como diz o refrão da música do Lulu Santos ‘Todo mundo espera alguma coisa de sábado à noite’, ou seja, o investidor que adquire uma participação acionária na empresa espera um retorno pelo seu investimento.

O custo de capital próprio é a taxa de desconto utilizada para calcular o valor presente do fluxo de caixa para o acionista.

Mas como calcular o custo de capital próprio?

Existe um modelo de precificação de ativos de capital (da sigla em inglês CAPM) muito utilizado para calcular o custo de capital próprio.

A fórmula do custo do equity Ke (capital próprio) é a seguinte:

Ke = Rf + beta x (Rm – Rf + risco-país) x (inflação BRA – inflação EUA)

Rf é a taxa de retorno de ativos livres de risco e o beta é a correlação da ação com o índice de referência (Ibovespa). A diferença entre o retorno de mercado (Rm) e a taxa de retorno livre de risco (Rf) é conhecida como prêmio por investir em ações (do inglês equity risk premium ERP). Afinal, investir em ações é arriscado e os acionistas requerem um retorno mais alto para compensar o risco.

(Para saber mais sobre risco-país, é só ler o artigo aqui - https://levanteideias.com.br/domingo-de-valor/risco-brasil/).

Existem duas maneiras de se calcular a taxa livre de risco em reais: i) taxa de juros futura (DI) de 10 anos ou; ii) partir da taxa de juros americana e depois considerar dois componentes: diferença de inflação entre os dois países e o risco-país.

Eu irei utilizar a taxa de juros futuras de 10 anos dos Estados Unidos (Treasuries), que teve uma alta recente para 3,25% ao ano, aumento de 50 pontos-base em relação à taxa de 2,75% de 12 meses atrás.

Cálculo do custo de capital próprio do Itaú

Eu utilizei as seguintes premissas e informações reais de mercado: i) taxa livre de risco é a taxa de juros futuras de 10 anos dos EUA de 3,25% ao ano; 2) beta da ação do Itaú de 1,2 x; 3) prêmio de risco de mercado de 5,5% (esse valor é meio histórico e muda pouco); 4) Inflação de longo prazo do Brasil de 4,5% ao ano e de 2,5% ao ano nos Estados Unidos e; 5) risco-país é o Embi+Brasil divulgada pelo Ipeadata de 270 pontos-base.

O custo de capital próprio nominal (em reais) do Itaú é de 15,4% ao ano. Essa é a taxa de desconto que eu utilizo para descontar o fluxo de caixa e calcular o valor justo das ações do banco Itaú.

Nesse caso, existem duas variáveis de mercado que mudam bastante conforme o nível de aversão ao risco (internacional e local): taxa livre de risco e risco-país.

Risco-país e taxa livre de risco em alta: o que acontece com o custo de capital próprio?

O risco-país (Embi+Brasil) saiu de 220 pontos no início de 2018, chegou a bater em 350 pontos em junho de 2018 e está atualmente em 270 pontos, um aumento de 50 pontos-base.

A taxa de juros futura de 10 anos dos EUA (Treasuries) apresentou trajetória de alta: subiu de 2,45% ao ano no final de 2017 para 3,25% atualmente, um aumento de 80 pontos-base.

Mudando das premissas de risco-país e taxa livre de risco, o custo de capital próprio do Itaú subiu de 13,9% ao ano no início de 2018 para 15,4% ao ano atualmente, um aumento expressivo de 1,5%.

O aumento no custo do capital próprio do Itaú de 1,5% eleva a taxa de desconto do fluxo de caixa para os acionistas. Minha estimativa é que esse aumento da taxa de desconto diminui o valor presente justo das ações do Itaú em 18%.

Ressalto que esse movimento no valor presente justo das empresas não é linear conforme ocorrem mudanças bruscas na taxa livre de risco e no risco-país, com impactos muito grandes no preço justo das ações na bolsa de valores.

Se após as eleições o risco diminuir na mesma magnitude e o custo de capital próprio do Itaú voltar novamente 1,5% para 13,9% ao ano, o aumento no preço justo das ações é estimado em 26%.

Uma das principais funções de um especialista em ações é projetar o fluxo de caixa futuro de uma empresa, descontar o valor presente nesse fluxo utilizando o custo de capital próprio e calcular o valor justo de uma empresa ou ação.

É exatamente o que faço no meu dia a dia aqui na Levante, ao avaliar os ativos que recomenda na série de investimento As Melhores Ações.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

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