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O que está em jogo nas eleições da Itália e por que ela pode ter grande impacto no mercado

Muitas pessoas estão ignorando a eleição do próximo domingo, mas a decisão pode mudar o rumo do mercado na Europa

Bandeira da Itália
(Bloomberg)

SÃO PAULO - As pessoas não estão comentando e o próprio mercado não parece muito preocupado, mas a eleição na Itália não é um evento para se desprezar. Por ter cidadania italiana eu costumo acompanhar este tipo de acontecimento para participar da votação, e tenho visto alguns alertas de analistas de que os investidores estão correndo um bom risco ao deixar de olhar para isso.

O pleito ocorre no próximo domingo (4) e são quatro partidos considerados os principais na disputa. Para os brasileiros como eu, que podem votar nesta eleição, o foco é em escolher membros brasileiros que farão parte do Parlamento, mas o que o mercado realmente precisa ficar atento é a qual governo será formado.

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Até este momento começa a ficar claro de que ninguém irá conseguir formar um governo com a maioria, ou seja, será preciso fazer uma coalização. E neste cenário, aumenta o perigo de um grupo anti-euro passar a governar, levando a um evento como o Brexit, com a convocação de um referendo no país.

Particularmente, não acredito que este evento terá um resultado que possa mudar o rumo dos mercados. Por outro lado, o mundo ainda está traumatizado por não ter se preparado de verdade para o Brexit e para a eleição de Donald Trump, então é sempre importante saber o que está acontecendo.

Nesta segunda-feira (26), a XP Investimentos divulgou um relatório bastante esclarecedor sobre o que esperar das eleições italianas. Confira os principais trechos:

Resumo
No dia 04 de março será realizada a eleição para o Parlamento Italiano. O país é a terceira maior economia da zona do euro, atrás de Alemanha e França, com isso o resultado desse evento tem consequências grandes no futuro da região.

Um dos maiores temores, que um partido vencedor convocasse um referendo similar ao Brexit, pedindo a saída da Itália da zona do euro, por enquanto está adormecido. Partidos que tinham essa bandeira já se colocam avessos à medida no atual momento. No entanto, a Itália convive com um grande problema em seus bancos.

Partidos
Há 4 partidos que concentram a disputa atualmente, nos últimos cinco anos a Itália teve três primeiros-ministros de centro-esquerda, Enrico Letta, Matteo Renzi, Paolo Gentiloni. Após o dia 04 de março provavelmente os partidos ainda terão que negociar entre si para montar uma maioria governável.

Partido Democrata
Tem na figura do antigo primeiro-ministro Matteo Renzi o seu principal nome. O partido fazia um governo elogiável aos olhos de investidores, com reformas importantes como a trabalhista. No entanto, um Referendo convocado no final de 2016 teve um resultado negativo que desencadeou na renúncia de Renzi. Atualmente o partido comanda a Itália, mas busca resultados melhores na eleição para reconduzir Renzi com mais força ao poder. O partido fez coligação com o União dos Democratas pela Europa, e formam o grupo de centro-esquerda. Suas propostas vão desde corte de impostos, salário mínimo mais elevado, combate à evasão fiscal, planos para saúde, educação, migração e mais investimento em cultura e trabalho.

Movimento Cinco Estrelas
Um partido que surgiu após a crise de 2008, se conecta com a população que rejeita a classe política tradicional. Durante boa parte de sua existência o partido defendeu que a Itália se retirasse da zona do euro. No entanto, com o bom desempenho nas pesquisas, Luigi Di Maio, seu principal líder e postulante ao posto de primeiro-ministro, modificou o discurso do partido. Di Maio afirma atualmente que não é o melhor momento para a realização de um referendo com esse propósito. Segue com ideias contrárias a uma maior integração, além de defender medidas mais rígidas para controle de imigrantes. Ademais, o partido também defende a digitalização das burocracias, com altos investimentos em inovação e tecnologia, redução de despesas públicas, redução de impostos, subsídio universal para cidadãos, economia isenta de carbono até 2050, e reformas judiciais e educacionais.

Força Itália
Partido do ex-primeiro ministro, Silvio Berlusconi, voltou a ganhar destaque como uma opção ‘razoável’ aos olhos de investidores com a possível vitória do Movimento Cinco Estrellas. Berlusconi repudia a ideia da Itália se retirar da zona do euro, mas levanta bandeiras populistas no campo tributário. Uma aproximação com a Liga Norte seria um governo possível em uma coalização de direita. A coalisão de centro-direita defende o aumento da pensão mínima, uma diminuição da taxa de imposto de renda fixa para 23%, não às medidas de austeridade da EU, o impedimento de imigrantes nas costas italianas, a criação de um “Plano Marshall” para a África reduzir sua chegada pelo mar, além de reformas judiciais e trabalhistas.

Liga Norte
Partido historicamente com bandeiras extremistas, são defensores fervorosos de medidas duras contra refugiados. Em alguns momentos defenderam a retirada da Itália da zona do euro, mas recentemente suavizaram sua postura. Uma aliança com a Forza Italia seria um governo provável, fazendo parte da coalizão centro-direita.

O que mostram as pesquisas?
Individualmente o Movimento Cinco Estrellas é o partido que apresenta o melhor desempenho nas pesquisas de intenção de voto, mas ainda não parece conseguir votos suficientes para atingir os 40% mínimos para ter uma maioria governável. Isso já provoca uma mudança na postura do Cinco Estrellas, que antes se dizia contrário a qualquer tipo de acordo com outros partidos e hoje já admite a possibilidade.

Quando olhadas as coalizões, a direita liderada por Berlusconi e o Forza Itália (junto com a Liga Norte e os Irmãos da Itália) ocupam a dianteira e surgem como a provável vencedora. Com o cenário embaralhado, é possível que nenhuma coalizão consiga formar um governo sozinho, possibilitando que o presidente, Sergio Mattarella, escolha um candidato compromissado após rodadas de negociações entre os partidos. O atual primeiro ministro, Paolo Gentiloni, pode inclusive ressurgir como nome mais apropriado para costurar um novo governo.

Explicações e riscos
Entre os principais pontos que levaram a esta situação estão a grave crise econômica pela qual passa o país junto com a situação problemática dos bancos locais. Nos últimos dois anos a Itália se viu em meio a resgates de quatro bancos locais, resgate do Monte dei Paschi, a liquidação de dois bancos regionais e o resgate via mercado do grupo Carige. Passado tudo isso, a Itália ainda tem no setor bancário aproximadamente 180 bilhões de euros de non-performing loans (empréstimos duvidosos com baixa probabilidade de serem pagos).

A questão que se faz no país é se a recuperação econômica recente deve ser utilizada para auxiliar esses bancos na questão dos empréstimos duvidosos. Possivelmente limpando balanços e agrupando esses empréstimos duvidosos, vendendo-os à desconto. Uma outra possibilidade conta com ajuda externa, da zona do euro.

A experiência recentemente observada na zona do euro aponta para duas saídas, à primeira vista na Espanha, mostrou um fundo levantado pela instituição que socorreu bancos locais. A outra, e atualmente defendida por membros da zona do euro, é a do Chipre. Neste caso vimos a pressão pela participação no socorro dos bancos por seus grandes acionistas. Assim, um candidato vencedor que siga com a ideia de austeridade fiscal e reformas teria uma inclinação mais favorável da zona do euro para uma ajuda mesclada entre os dois casos. Enquanto um candidato populista provavelmente sofrerá pressão para um socorro aos bancos nos moldes do Chipre.

Conclusão
Ao que tudo indica, a situação italiana ainda demorará para ser resolvida. Tanto na questão política, quanto na questão do problema de seus bancos. Assim, a eleição do próximo dia 04 de março deve trazer poucas respostas imediatas para essas questões. Muito provavelmente a formação de um novo governo deve extrapolar essa data. No entanto, acreditamos que o cenário mais provável é o de uma coalizão que não discuta a questão de um Referendo pela saída do zona do euro. Algo que será celebrado pelos mercados e não desencadeará em uma volatilidade excessiva, colaborando para o bom momento da economia global.

 

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