A vez de Michel Temer?

Essa primeira semana de agosto trouxe algumas novidades na crise política brasileira. Além da extensão da investigação da Lava Jato para o núcleo político do esquema de corrupção com a prisão de José Dirceu, uma nova rodada de pesquisa de aprovação do governo pelo Datafolha foi divulgada e, finalmente, as lideranças da oposição e de parte do PMDB fizeram alguns encontros que levantam dúvidas sobre a fidelidade destes últimos à presidenta Dilma.
Blog por #épolítica  

Essa primeira semana de agosto trouxe algumas novidades na crise política brasileira. Além da extensão da investigação da Lava Jato para o núcleo político do esquema de corrupção com a prisão de José Dirceu, uma nova rodada de pesquisa de aprovação do governo pelo Datafolha foi divulgada e, finalmente, as lideranças da oposição e de parte do PMDB fizeram alguns encontros que levantam dúvidas sobre a fidelidade destes últimos à presidenta Dilma.

 

Prisão

A prisão de José Dirceu já era algo esperado. Mesmo pelo próprio líder petista. A novidade foi apenas a divulgação daquilo que já parecia patente. Os desvios na Petrobrás e em outras grandes estatais não foram apenas de recursos direcionados aos partidos da base aliada. Foram também mecanismos de enriquecimento pessoal dos envolvidos na trama de corrupção. Embora do ponto de vista legal tal diferenciação não seja muito importante, é muito do ponto de vista simbólica.

Ao ter participado de um esquema de corrupção para o próprio engrandecimento pessoal, a cúpula envolvida na Lava Jato tornou-se exatamente aquilo contra o que o partido do governo havia lutado durante sua longa história política. E pior, assumindo as palavras dos investigadores, em um esquema de corrupção muito mais sistematizado e em grande escala.

 

Datafolha

A nova pesquisa do Datafolha indicou que a aprovação da Presidenta Dilma continua caindo. Sua aprovação caiu a menos 8% e sua taxa de rejeição subiu para inacreditáveis 71%. Inclusive 66% dos brasileiros, segundo a pesquisa, acreditam que a Presidenta deveria ser afastada pelo Congresso Nacional.

Essa pesquisa foi brindada com mais uma nova leva de protestos e panelaços em todas as regiões do país, mesmo nos Estados onde o governo ainda era eleitoralmente viável, durante a transmissão da propaganda política na Televisão do próprio Partido dos Trabalhadores. Realmente, o cenário político torna-se cada vez mais tenebroso para o governo.

 

Michel Temer

Contudo, além destas duas novidades – que já eram razoavelmente esperadas – um terceiro evento trouxe maior complexidade ao xadrez político. O comportamento de Michel Temer nos últimos meses tem sido bastante distinto daquele que teve durante todo o 1º mandato de Dilma.

Temer é hoje um vice-presidente com grande atuação e talvez o único líder político brasileiro com desenvoltura suficiente para negociar com o governo e com a oposição ao mesmo tempo.

O seu apelo para uma reunião de forças políticas para debelar as crises econômica e políticas, clamando por uma liderança capaz de construir estas novas pontes, pode ser entendido de duas formas.

De um lado, seria uma forma de rearticular das bases do governo, recuperando parte do poder político perdido pelo governo Dilma, o que é, por enquanto, menos esperado. Caso consiga, ele terá os louros de ser aquele que trouxe racionalidade política a um governo pautado por uma relação bastante nociva com sua própria base aliada.

Do outro lado, Temer pode querer com essa declaração iniciar um processo no qual ele seria indicado como o nome possível para reorganizar a política nacional brasileira, num momento no qual as pressões em favor do impeachment ou mesmo da renúncia da presidenta se avolumam. Tornando-se ainda mais graves com o fato que as tensões políticas alimentam a crise econômica e dificultam a adoção das medidas que são necessárias para a superação dos grandes desafios estruturais pelos quais o país passa.

Com qual Temer estamos falando?

Ainda não é possível saber, mas os próximos meses deixarão claro quais são os interesses que movem o gabinete da vice-presidência.

 

Ivan Fernandes escreve toda sexta-feira no #épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com