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O impacto das "fake news" nas eleições

Este artigo apresenta as experiências internacionais no monitoramento das fake news e discute como o Brasil pode lidar com o fenômeno na campanha eleitoral do próximo ano. Este é um processo complexo e dinâmico que envolve diversas estratégias e engajamento de diversos grupos sociais. Evitar as distorções geradas pela difusão de conteúdo falso será um importante passo para o fortalecimento da democracia.

Quem não se lembra dos boatos que circularam nos grupos de wattsapps e mídias sociais durante as eleições de 2014? Boatos sempre circularam durante eleições, mas o papel das notícias falsas e seu impacto eleitoral ganhou evidência com a recente divulgação de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Agência Brasileira de Inteligência e a Polícia Federal pretendem criar uma força tarefa para propor ações e monitorar os ataques cibernéticos e difusão de informações falsas nas eleições de 2018.

Desde as eleições presidenciais nos Estados Unidos e na França ampliou-se o debate sobre a circulação de notícias falsas e os seus efeitos na opinião pública. Muitos artigos apontam para os perigos que as “fake news” geram durante a campanha eleitoral, distorcendo informações que prejudicam o debate de ideias e propostas entre os candidatos.

Como as notícias falsas afetam os resultados eleitorais?  

Os pesquisadores Hunt Allcott e Matthew Gentzkow analisaram os efeitos das “fakes news” nas eleições norte-americanas de 2016 e concluíram que as informações que circulam na internet têm impactos diferentes, dependendo do canal e da forma de divulgação. Por exemplo, artigos são mais efetivos do que comerciais. Os resultados, porém, não permitem afirmar que as notícias falsas alteraram os resultados da eleição presidencial nos Estados Unidos. A divulgação de uma notícia em que o Papa apoiava Donald Trump teve grande circulação, mas, de acordo com os pesquisadores, seria difícil medir o seu impacto entre os eleitores. Por outro lado, eles alertam que houve um aumento no número de informações falsas e que os eleitores tendem a acreditar na veracidade das informações, especialmente, quando são artigos que se parecem com o modelo publicados por jornais impressos.

Outro fator importante para entender a difusão das notícias falsas é o uso de robôs nas campanhas eleitorais. O uso de contas em redes sociais controladas softwares que geram conteúdo e interagem com usuários tem sido parte das estratégias das campanhas eleitorais. No caso brasileiro, estudo da FGV indicou que, em 2014, 11% das discussões durante o processo eleitoral foram geradas por robôs ou perfis falsos. Entre os perfis de apoio ao senador Aécio Neves 19% das interações foram geradas por robôs e entre os apoiadores da ex-presidente Dilma Roussef representaram 17% das interações. Nas eleições na cidade de São Paulo em 2016 as diferenças foram pequenas entre os perfis de apoio aos candidatos, representando 11,2% entre os apoiadores do atual prefeito João Doria e 11,5% entre os apoiadores do ex-prefeito Fernando Haddad.

As interações geradas por estes perfis criam a sensação de apoio ou rejeição a determinada proposta ou candidatura, influenciando a posição dos eleitores que tendem a confiar as informações divulgadas nas redes sociais. Não apenas o processo eleitoral é comprometido com as interações de robôs, como qualquer debate sobre a agenda pública. Por isso, os governos buscam formas de controlar estas estratégias, sem que afete o direito à livre expressão de opiniões e ideias.

O difícil controle da difusão das notícias falsas

Para conter a utilização dos robôs as autoridades e partidos franceses, por exemplo, pressionaram as redes sociais, como Facebook. Tanto o Facebook, quanto o Twitter se comprometeram não apenas monitorar sites suspeitos, como deletar contas.

A partir de uma cooperação entre órgãos de inteligência, uma legislação dura contra difamação e veiculação de informações falsas e órgãos independentes de checagem de dados, os alemães buscaram diminuir o impacto dos robôs e fake news. No entanto, a experiência alemã indica a dificuldade em lidar com o monitoramento e controle das notícias falsas.

Sob forte pressão internacional, o Facebook anunciou que cancelou milhares de contas e cooperou com as autoridades alemãs na identificação e remoção de perfis falsos ou que propagava discursos de ódio. A Alemanha adotou uma legislação rigorosa, com multa para as empresas que não removessem o conteúdo falso ou difamatório.

Seguindo a experiência alemã, no texto aprovado da reforma política este ano foi incluído um artigo a exigência para que servidores e redes sociais removessem publicações denunciadas como falsas, mas após acusação de censura o artigo foi vetado pelo Presidente Michel Temer.  O controle das notícias falsas versus o direito à livre expressão tem marcado debate sobre as estratégias para evitar os efeitos negativos e distorções para o debate público.

A criação de uma força tarefa é um passo importante para a ampliação do debate no Brasil, mas ela não pode cair na simplificação e nos estereótipos sobre o papel da internet na eleição brasileira. As experiências internacionais mostram que não é apenas uma questão de proibir a circulação das informações, mas envolve um engajamento de diversos grupos sociais para contrapor os conteúdos que distorcem a realidade. No mundo da pós-verdade, o que precisamos não é limitar o acesso à informação e sim de informação com maior qualidade.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

 

perfil do autor

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Ivan Ervolino

Doutor em Ciência Política pela UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

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Danilo Amaral de Oliveira

Bacharel em Engenharia de Computação pela UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

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Eduardo Galvão

Mestre em Direito pelo UniCEUB – Centro Universitário de Brasília

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Denilde Oliveira Holzhacker

Doutora em Ciência Política pela USP - Universidade de São Paulo

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Bruno Alves

Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB - Universidade de Brasília

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