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Mario Vitor Rodrigues

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Hora de acordar: esse governo é uma várzea

Embora a capacidade de Paulo Guedes e sua equipe seja indiscutível, o governo ainda precisará capinar um bocado no campo político. E aí só mesmo estando absolutamente engolfado pelo fanatismo ou pendurado em interesses alheios aos do país para negar a já comprovada incapacidade da nova administração em assumir tal papel

Onyx Lorenzoni, e Gustavo Bebianno
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Às vésperas da apresentação de uma proposta para a reforma da Previdência, percebo um inabalável otimismo entre os economistas com os quais converso habitualmente. Respeito a opinião de todos, mas, lamento dizer, não faz o menor sentido nutrir sentimentos alvissareiros a respeito desse governo. Sim, mesmo tão cedo, melhor dizendo, principalmente por esse motivo.

A razão para a minha descrença é simples: embora a capacidade de Paulo Guedes e sua equipe seja indiscutível, o governo ainda precisará capinar um bocado no campo político. E aí só mesmo estando absolutamente engolfado pelo fanatismo ou pendurado em interesses alheios aos do país para negar a já comprovada incapacidade da nova administração em assumir tal papel.

É incrível, mas é verdade. Fomos às urnas e decidimos entregar o poder para uma gente que não faz a menor ideia de onde o galo cantou. Pessoas simplesmente incapazes de liderar ou de serem seguidas. Sejamos justos, uma turma cuja trajetória nunca ofereceu indícios que estimulassem a esperança em uma realidade distinta desta que começa a se descortinar agora, com menos de dois meses da chamada “nova era” no comando.

Dia desses, um recente mas já grande amigo, bem mais sabido do que eu, veio com uma opinião certeira sobre o grande mal que de certa forma assola boa parte dos economistas: “sofrem de uma cegueira essencial, o viés da racionalidade”.

Pois é justo o que acontece agora. Insisto, não se trata aqui de pôr reparo nas habilidades da equipe econômica. Não por acaso o time às ordens de Guedes é reconhecido como pilar fundamental do governo. Apenas cabe constatar o óbvio, regra vigente hoje e desde sempre: o simples termo reforma causa arrepios neste que é um país repleto de classes, castas, grupos e grupelhos.

É por isso que muitos, dentre os quais este que vos escreve, já contando com as naturais perdas durante as futuras negociações, suplicaram por uma proposta dura. Ou a recente decisão de aumentar o imposto de importação de leite não nos ensinou nada?

Aliás, abro aqui um parêntese: esse episódio foi bom para reafirmar uma questão às vezes negligenciada em meio a tanto pensamento positivo: o fato de que a natureza do próprio presidente, assim como a de Onyx Lorenzoni e grande elenco, é protecionista. De que, sim, houve um casamento de conveniências para que a eleição fosse definida.

Se é que ainda existia um fiapo de esperança a respeito da capacidade de articulação política do governo, espero sinceramente que tenha morrido ontem, após ter agonizado durante todo o fim de semana, quando o presidente teceu loas a um aliado de primeira hora, antes de exonerá-lo.

Um aliado que o chamou de “fraco”, “pessoa louca” e “um perigo para o país” depois de ter sido atacado, com seu endosso, por um filho que nem sequer deveria ter relevância no governo.

Um aliado que, diga-se, foi o primeiro nome a ser lembrado por Rodrigo Maia quando este ganhou a eleição na Câmara.

Como brasileiro, espero que Guedes tenha todo o respaldo possível para poder implementar suas ideias e assim viabilizar um curso diferente do que foi trilhado enquanto o PT esteve no poder.

Contudo, tal desejo não pode empanar tantas burradas, uma sequência tão espantosa de deslizes. Ou pelo menos não deveria.

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Mario Vitor

Autor da editora Nova Fronteira, comentarista político com passagem por blogs nos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. Atualmente, colunista na Gazeta do Povo e revista Isto É

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