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Ivanildo Santos Terceiro

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O mesmo governo que reclama da falta de médicos, faz de tudo para aumentar o problema

Em boa parte do mundo, profissionais treinados são autorizados a realizar atividades menos complexas e, em casos mais graves, encaminhá-los a formados em medicina.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Médicos
(Divulgação/Shutterstock)

Vamos ser sinceros. Criticamos os médicos brasileiros por se recusarem a ir ao interior, mas somos hipócritas.

Quantos dos seus críticos estariam dispostos a abrir mão dos luxos e comidades dos grandes centros urbanos? Médicos apenas seguiram os mesmos passos de milhões quando decidiram morar nas metrópoles.

Se há um culpado pela escandalosa dificuldade de acesso à saúde do brasileiro mais pobre, ele se chama “estado”. Não pelo que faz, mas pelo que poderia deixar de fazer.

Entre 2013 e 2018, as universidades brasileiras foram a parte mais importante do “Mais Médicos”. Uma que não dependia da simpatia de ditadores.

Nos últimos cinco anos, o número de vagas para formação médica saltou de 19 mil para 31 mil. A lógica é elementar: se há mais médicos, há mais chance de alguns trabalharem no interior do país. No longo prazo, o acesso à saúde nos rincões seria facilitado.

Governos, entretanto, não costumam seguir a lógica elementar. No início deste ano, o Ministério da Educação cedeu à pressões corporativistas e instituiu uma moratória de 5 anos na criação de novas vagas e cursos de medicina. O então ministro Mendonça Filho acreditava que, agora, o Brasil havia alcançado “um patamar de atendimento pleno das necessidades”. Nada mais longe da realidade.

Reclamar da falta de médicos e impedir sua formação não é o único meio do governo dificultar o acesso à saúde.

Em boa parte do mundo, profissionais treinados são autorizados a realizar atividades menos complexas e, em casos mais graves, encaminhá-los a formados em medicina.

Isso poderia ser feito no Brasil e trazer bons resultados.

Uma revisão de literatura publicada este ano, mostrou que enfermeiros treinados podem realizar o atendimento primário em pacientes com efeitos iguais e até melhores do que os realizados por médicos.

Nos Estados Unidos, técnicos em optometria podem fazer exames de refração, receitar óculos e lentes de contato. Não é incomum que óticas tenham optometristas a postos e ofereçam descontos para quem realizar o exame na própria loja (veja aqui e aqui).

Mais ao norte, os canadenses colocaram seus optometristas até dentro de supermercados! Quando há algo mais grave, estes profissionais encaminham o seu paciente para um médico especializado.

Por aqui, ainda obrigamos médicos oftamologistas a lidarem com uma enorme quantidade de pessoas que desejam apenas saber o grau do seu novo óculos. No Brasil, os optometristas vivem num limbo legal com decisões que ora liberam, ora proíbem o exercício da sua profissão.

Este arranjo sobrecarrega os profissionais da medicina e cria uma intransponível para a maior parte da população.

Hoje, médicos não podem concentrar sua atenção em pacientes com problemas especializados e mais complexos. Qualquer procedimento, simples ou não, exige uma visita ao consultório.

Com este arranjo, se já era difícil o sistema de saúde chegar aos rincões do país, o governo brasileiro está demonstrando com afinco que quer tornar qualquer melhora impossível.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

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Ivanildo Santos Terceiro

Ivanildo Santos Terceiro é Gerente de Comunicações no Brasil da Students For Liberty, a maior rede global de estudantes pró-liberdade, e foi responsável pela apuração de dados e fontes do "Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira"

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