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Por que o acordo Mercosul - União Europeia é globalização, e não globalismo?

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro assinou um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. O acordo, iniciado há 20 anos, prevê basicamente a eliminação de barreiras protecionistas entre os dois blocos. Como o acordo se deu basicamente na esfera comercial, ele foi um passo em direção à globalização, e não ao globalismo.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron no G20
(Frederico Mellado/ARG)

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro assinou um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. O acordo, iniciado há 20 anos, prevê basicamente a eliminação de barreiras protecionistas entre os dois blocos.

Apesar de bastante elogiado por economistas, a confirmação do acordo trouxe surpresa para parte dos analistas sobre a posição do presidente Jair Bolsonaro acerca da globalização. Até então, parte dos especialistas acreditava que o núcleo de relações exteriores do governo Bolsonaro (Ernesto Araújo e Filipe Martins) era contra a globalização. Essa crença equivocada decorre de uma confusão entre globalismo e globalização.

Na verdade, o próprio Filipe Martins, Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, em entrevista para mim no InfoMoney (aqui), mostrou ser a favor da globalização, mas contra o globalismo. Segundo ele, “para ser a favor da globalização, tem que ser contra o globalismo”. Como o acordo com a União Europeia se deu na esfera comercial, não houve incoerência por parte da visão antiglobalista do governo Jair Bolsonaro, pelo contrário.

Isso posto, é importante fazer uma distinção entre os conceitos de globalismo (um conceito político) e globalização (um conceito econômico) a fim de evitar futuras confusões.

Conforme já abordado em outro artigo (aqui), entende-se por globalização o livre comércio internacional, no qual cada país se especializaria naquilo que tem vantagens comparativas relativas.

Por exemplo, suponha que tanto o Brasil como a França tenham condições de produzir carnes e vinhos. De acordo com a teoria econômica das vantagens comparativas, é mais vantajoso o Brasil se especializar apenas na produção de carnes, e a França, na de vinhos.

A ideia é que as empresas de cada país se especializem naquilo que tenham vantagens naturais e competitivas. Nesse caso, o Brasil produziria apenas carnes e importaria vinhos da França. Por sua vez, a França produziria apenas vinhos e importaria carnes do Brasil.

Essa especialização de cada povo num tipo de produto levaria a um aumento de renda em ambos os países, desde que não houvesse barreiras protecionistas no comércio entre eles e ocorresse absorção da mão de obra de um setor para o outro dentro da mesma nação (por exemplo, no Brasil, a mão de obra do setor de vinhos seria toda absorvida pelo setor de carnes).  

Além do livre comércio, a livre circulação de capitais entre países também faz parte do processo de globalização. Assim, a globalização pode ser entendida como um processo econômico de  avanço do capitalismo em escala planetária.

Já o globalismo significa a criação de organizações supranacionais, capazes de interferir na soberania dos países, a fim de resolver conflitos entre as nações. A ONU, por exemplo, se enquadraria num tipo de organização bastante poderosa capaz de influenciar as decisões internas de um país, de acordo com a sua agenda.

Geralmente, a agenda do globalismo é identificada por uma série de pressões e regulamentações de organizações internacionais sobre as questões internas de um país. Nesse sentido, o globalismo é um conceito essencialmente político.

De acordo com essas definições, globalização e globalismo são conceitos bem diferentes. Então, por que há tanta confusão na análise dos acordos? 

Possivelmente, essa confusão se iniciou com a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). Naquela ocasião muitos conservadores e apoiadores de Bolsonaro apoiaram a decisão do povo britânico, e foram identificados como antiglobalização. 

No entanto, a questão é um pouco mais complexa. A saída do Brexit da União Europeia não significou uma insatisfação popular em relação às vantagens comerciais geradas pela adesão ao bloco, pelo contrário, mas uma reação para preservar a soberania da Inglaterra diante da influência crescente das decisões da União Europeia sobre as questões internas dos países membros.

A União Europeia não é apenas um acordo de livre comércio entre os países membros; é muito mais do que isso. É também um tratado político, com uma série de leis criadas de maneira autocrática pelos burocratas de Bruxelas não eleitos pelo povo, que ameaça a soberania de cada país membro.

Por exemplo, ao fazer parte do bloco, a França perdeu a autonomia sobre sua política monetária e imigratória.

Nesse sentido, a União Europeia não se enquadra apenas num fenômeno de globalização (livre circulação de bens e capitais); mas, de globalismo, ao representar uma perda de soberania nacional para os países membros.

Quanto ao Mercosul, o acordo entre os blocos é um passo em direção à globalização, e não ao globalismo, uma vez que trata de questões essencialmente comerciais.

Dessa forma, não haveria contradição entre a visão de política externa do governo Jair Bolsonaro – claramente contrária ao globalismo – com a ratificação desse acordo.

Outro ponto que causa bastante confusão é o apoio de conservadores no Brasil às medidas de Donald Trump contra a China, mesmo em questões estritamente comerciais, que não envolvem o globalismo.

Novamente, a questão não é tão simples. Primeiro, porque o acordo de livre comércio pressupõe um fair game entre os dois players. Será que existe um fair game por parte da China com seus protecionismos, desvalorizações cambiais e dumping? Por que apenas os EUA devem ceder aos termos de troca chineses? Por que somente os EUA são considerados os vilões desta história?

Além da questão comercial, outro ponto para reflexão é que a relação entre China e EUA não é apenas de ordem econômica, mas geopolítica.

A ideia dos EUA de impor protecionismo à China é também uma tentativa de enfraquecer economicamente a superpotência oriental que claramente tem ambições geopolíticas hegemônicas.

É claro que a guerra comercial entre EUA e China pode trazer riscos para para o comercial mundial. Mas, enquanto os cachorros grandes brigam, o Brasil vem fazendo muito bem a sua parte na área internacional, afastando-se do socialismo venezuelano e se aproximando do capitalismo alemão.

Uma vez colocado em prática o acordo União Europeia-Mercosul, os empresários brasileiros ganharão acesso ao rico mercado europeu, o que se traduz em possibilidade de crescimento econômico e geração de empregos no Brasil.

Se isso ocorrer, será possível brindar com um bom e barato vinho francês.

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Alan Ghani é economista, PhD em Finanças e professor de pós graduação.

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perfil do autor

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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