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5 respostas para entender por que Ciro Gomes presidente seria péssimo para o mercado

Cid Gomes deu uma entrevista à Folha de São Paulo sobre a candidatura de seu irmão Ciro Gomes. É claro que as respostas de Cid Gomes refletem muito o pensamento do ex-governador do Ceará. Pela entrevista, fica claro que Ciro Gomes escolheu como inimigo do Brasil o mercado financeiro. Não é à toa que, dentre os candidatos, Ciro Gomes é o que causa maior pessimismo no mercado (coincidência ou não, a bolsa cai e o dólar sobe quando alguma pesquisa eleitoral mostra alguma ascensão de Ciro).

Ciro Gomes
(Carta Capital/Wikipedia)

Cid Gomes deu uma entrevista à Folha de São Paulo sobre a candidatura de seu irmão Ciro Gomes. É claro que as respostas de Cid Gomes refletem muito o pensamento do ex-governador do Ceará. Primeiro, porque vai ao encontro de declarações públicas de Ciro Gomes. Segundo que, Ciro, como candidato, não seria ingênuo em deixar seu irmão falar em seu nome sem sua autorização.

Pela entrevista, fica claro que Ciro Gomes escolheu como inimigo do Brasil o mercado financeiro. Não é à toa que, dentre os candidatos, Ciro Gomes é o que causa maior pessimismo no mercado (coincidência ou não, a bolsa cai e o dólar sobe quando alguma pesquisa eleitoral mostra alguma ascensão de Ciro).  Abaixo, destaco as 5 respostas para entender que o pessimismo do mercado financeiro em relação ao ex-governador do Ceará tem lastro (link da entrevista completa aqui). Em verde, as perguntas da Folha de São Paulo; em vermelho, as respostas de Cid Gomes; em azul, meus comentários.

Folha de São Paulo: Ele fará uma nova “Carta aos Brasileiros”?

Entende-se “Carta aos Brasileiros” como “Carta aos Banqueiros”? Jamais. É melhor perder a eleição do que se sujeitar a isso. Isso já fez muito mal ao país. Chegar ao poder de qualquer forma, para nós, não vale a pena.

Meu comentário: Nem Lula em 2002 teve tamanha ousadia. “Carta aos Brasileiros” significa atestar que não haverá aventuras econômicas e nem malabarismos econômicos, que invariavelmente trouxeram péssimos resultados no passado, prejudicando principalmente os mais pobres. “Carta aos Brasileiros” é apenas uma forma de sinalizar para a sociedade que haverá comprometimento com as contas públicas e com a inflação.

Folha de São Paulo: Ciro é domesticável?

Cid Gomes: Domesticável para se render ao modelo de exploração insana do sistema financeiro nacional? Não é. Por isso que fazem críticas a ele.

Meu comentário: A visão da família Gomes é de que o mercado financeiro é altamente perverso. O que eles não entendem é que o mercado financeiro viabiliza investimentos, canaliza poupança e aloca o capital por critérios de eficiência econômica, e não por apadrinhamento político. Para quem tem essa visão, recomendo este vídeo do professor Carlos Eduardo Gonçalves (FEA-USP), mostrando a importância do mercado financeiro para o crescimento econômico e até para a redução da desigualdade (vídeo aqui). Para quem quiser artigos científicos sobre o tema, recomendo a leitura dos papers do Levine (Finance and Growth: Theory and Evidence  Finance, Inequality, and Poverty: Cross-Country Evidence).

Folha de São Paulo: Em 2002, Ciro disse que estava se lixando para o mercado financeiro. Ele está se lixando novamente?

Óbvio. Não é se lixando, é mais do que isso, está denunciando o mercado financeiro. Chega. Não é possível. Eles mesmo, se puserem a mão na consciência, vão ver que quando você explora demais o seu mercado consumidor, está matando a galinha dos ovos de ouro.

Meu comentário: Denunciando por quê? É impressionante a demonização piegas e ignorante que as pessoas fazem do mercado financeiro (mercado de crédito, de capitais, de câmbio e de renda fixa). Para refletir: com R$20,00 você pode se tornar sócio da Ambev; com R$40,00, do Itaú, e ser beneficiado pela da gestão dessas empresas (valores para 26/06/2018). Ao permitir que pessoas comuns consigam ser sócias de grandes empresas, recebendo dividendos e tendo seu patrimônio valorizado, o mercado financeiro se torna uma das instituições mais democráticas nas sociedades modernas.  

O que Ciro Gomes não entende é que boa parte do mercado financeiro é a própria sociedade brasileira. São pequenos investidores, conforme evidenciou o economista Paulo Tafner para o InfoMoney (aqui). É claro que fundos de pensão e bancos também são credores do governo, mas na pessoa jurídica; não na física. E qual é o passivo do fundo e dos bancos? A própria população. Em última instância, se um banco quebrar, a população vai junto. Ou o congelamento das aplicações financeiras não prejudicou os pequenos investidores? Não estou dizendo que Ciro Gomes dará calote, mas apenas mostrando que o discurso duro contra o mercado financeiro é contra a própria população, porque ela também é credora do sistema, direta ou indiretamente. Não tem como separar as coisas: uma piora para o mercado financeiro significa uma piora para a população.

Folha de São Paulo: Mas é possível ser eleito sem o apoio do mercado financeiro?

É nisso que apostamos. Quem lucra no mercado financeiro não chega a 2% da população brasileira. Nós estamos defendendo 98%: desempregados, trabalhadores, classe média e setor produtivo. O setor financeiro já teve lucro demais e está na hora de dar uma contribuição ao país.

Meu comentário: Você pode ser eleito sem o mercado, mas não governo sem ele - goste ou não - por uma simples razão: Sem dinheiro, não há investimento. Sem investimento, não há crescimento econômico e nem geração de renda. Além disso, se não tiver dinheiro, não há recursos para fechar o orçamento do governo (saúde, educação, previdência, etc.). Nosso endividamento é alto e pagamos muitos juros; não porque resolvemos agradar os bancos, mas devido ao nosso descontrole fiscal. Juros altos não é uma escolha administrativa para agradar os investidores, mas uma consequência direta de problemas estruturais ligados à deterioração das contas públicas (assista a partir de 59 minutos à entrevista de Gustavo Franco sobre isso, aqui)  

Folha de São Paulo: Como será a gestão do Banco Central em um governo Ciro Gomes?

O Banco Central tem de estar a serviço de uma estratégia nacional. Se a gente tivesse a segurança de que essa independência estaria a serviço de um projeto nacional, tranquilo. Mas, infelizmente, o que querem é a profunda dependência do sistema financeiro. 

Meu comentário: Independência do Banco Central significa defender a sociedade da inflação, que corrói o poder de compra principalmente dos mais pobres. É justamente o oposto: quando o Banco Central fica sob influência do governo federal, utiliza-se a política monetária com outras finalidades, colocando em risco a estabilidade dos preços.  O governo Dilma foi um exemplo perfeito disso. O Banco Central, possivelmente por interferência política, reduzia os juros enquanto a inflação rodava na casa de 6% a.a (próxima do teto da meta). O que aconteceu? O crescimento não veio e a inflação chegou a mais de 10% em 2015.

Resta saber se a demonização do mercado financeiro feita por Ciro Gomes tem método - captar os eleitores de esquerda - ou ele já está contaminado de heterodoxia desenvolvimentista até a médula. Tomará que a causa de sua “miopia” seja de ordem eleitoral, e não econômica. Porque se for de ordem econômica, teve uma presidente que também foi eleita levantando essa bandeira populista, de esquerda (a "gerentona" contra os bancos). Deu no que deu. O final da história vocês já conhecem. 

Alan Ghani é economista, PhD em finanças FEA-USP com especialização nos EUA (UTSA) e professor de pós-graduação.

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.

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