Resiliência dos EUA é sustentada por estímulos e dívida, afirma Jakurski, da JGP

Ele e Luis Stuhlberger, da Verde, discutiram cenário econômico global

Osni Alves

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“Os Estados Unidos estavam crescendo entre 2,5% e 3%, e este ano devem crescer de 1% a 1,5%”, observou André Jakurski, sócio-fundador da JGP. “Apesar da desaceleração, não houve recessão. Isso é admirável”, complementou.

Para ele, essa estabilidade é artificial e sustentada por políticas fiscais e monetárias extremamente expansionistas. “É uma diarreia fiscal e monetária”, disparou o gestor. Ele lembrou que a dívida pública americana em poder do público saltou de US$ 10 trilhões em 2008 para US$ 37 trilhões hoje — um aumento de 3,7 vezes em 16 anos.

André Jakurski e Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset, discutiram, sob a mediação de José Berenguer, CEO do Banco XP, os riscos e forças que moldam o cenário macroeconômico, durante a 4ª Conferência Institucional do Banco XP, realizada em paralelo à Expert XP 2025, com gravação disponível no canal do Stock Pickers.

Banco Central como cúmplice

Jakurski criticou o papel dos bancos centrais na sustentação do crescimento. “O QE (afrouxamento quantitativo) nada mais é do que o financiamento monetário da dívida. O nome é bonito, mas o Banco Central comprou dívida do governo”, afirmou. “No Japão, metade da dívida pública está nas mãos do BC. Nos EUA, chegou a 35%, 40%.”

Ele alertou que essa bonança está com os dias contados. “O juro subiu, o QE parou (por ora), e os Tesouros começaram a emitir dívida mais curta para segurar os juros longos. Isso lembra o Brasil do passado”, comparou. Nos próximos 12 meses, 35% da dívida americana precisará ser rolada.

O gestor acredita que, diante desse cenário, os governos podem recorrer à “repressão financeira”, obrigando institucionais a comprar dívida ou manipulando os juros para manter o custo da dívida sob controle. “É o império atacando”, ironizou.

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Tarifas, incentivos fiscais e IA

Jakurski destacou dois vetores de impacto mais recentes: as tarifas e os estímulos fiscais, como o promovido durante o governo Trump. Somados, os pacotes representam US$ 6 a US$ 8 trilhões de impacto nos próximos 10 anos.

Na avaliação dele, essas medidas beneficiam diretamente empresas americanas, especialmente as grandes de tecnologia. “Com as novas regras, elas podem jogar todos os gastos de capex e serviços no mesmo ano. O fluxo de caixa fica protegido, e a carga tributária efetiva cai de 20% para 13%, 14%.”

Além disso, destacou o impacto crescente da inteligência artificial: “Estamos vendo um gasto astronômico das big techs em data centers e energia. É a corrida para ver quem sobrevive nesse novo mundo da inteligência social”.

Economia “ok”

Na sequência, Stuhlberger relativizou o otimismo com a economia americana. “Ela não está resiliente. Está apenas ok. O crescimento caiu de 2,8% para 1,5%, e temos um cenário de miniestagflação”, avaliou.

Segundo o gestor da Verde, parte da euforia dos mercados vem da percepção de que não haverá uma guerra comercial frontal com a China — algo que antes se temia. “O Trump percebeu que não pode vencer uma guerra fria contra a China. Isso ajudou os mercados, mas o PIB seguirá fraco.”

Stuhlberger chamou atenção para a diferença entre a exuberância da Bolsa americana e o desempenho real da economia. “A correlação entre S&P e PIB não é perfeita. O S&P está forte por causa das techs, da IA e dos estímulos fiscais. Mas isso não significa que a economia esteja forte”, disse.