Ouro alcança máximas históricas e reacende debate sobre oportunidades de investimento

Movimento é impulsionado, também, pela perspectiva de queda dos juros nos Estados Unidos

Osni Alves

A imagem traz o economista-chefe da Pequod, Diogo Almeida.
A imagem traz o economista-chefe da Pequod, Diogo Almeida.

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O ouro vive um dos ciclos mais fortes das últimas quatro décadas, acumulando sucessivas máximas no mercado internacional e brasileiro. No país, o preço do metal já supera R$ 700 por grama, com valorização de mais de 60% desde 2023.

O movimento é impulsionado pela queda dos juros nos Estados Unidos, pelo agravamento das condições fiscais globais e pelo realinhamento geopolítico que leva investidores a reforçar posições em ativos de proteção.

Para Diogo Almeida, economista-chefe da Pequod Investimentos, que administra mais de R$ 4 bilhões, a alta não é fruto de euforia ou especulação. Segundo ele, o ciclo é estrutural e reflete o esforço de diversos países em reduzir a dependência do dólar.

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“Bancos centrais passaram a revisar o risco de depender exclusivamente da moeda americana. A corrida pelo ouro hoje é reflexo direto desse processo”, afirma.

O ponto de virada, segundo Almeida, ocorreu após a invasão da Ucrânia e o congelamento das reservas russas denominadas em dólar, episódio que acendeu um alerta global sobre a vulnerabilidade política de ativos atrelados à moeda americana.

Na sequência, países como China, Turquia e nações do Golfo aceleraram a diversificação de reservas, recolocando o ouro no centro de suas estratégias.

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Busca por ativos de oferta limitada

O economista destaca ainda que a deterioração fiscal em economias desenvolvidas reforça a busca por ativos de oferta limitada. “Num mundo de endividamento elevado e confiança abalada, ativos como o ouro — e, em certa medida, algumas criptomoedas — funcionam como um seguro natural”, afirma.

A expectativa de novos cortes de juros pelo Federal Reserve, possivelmente ainda este ano, mantém o custo de oportunidade baixo e sustenta a demanda pelo metal.

A política também contribui para a valorização. A reeleição de Donald Trump reacendeu temores de novas tensões comerciais, especialmente com a China, e investidores passam a buscar ativos neutros diante da fragmentação global.

“O ouro funciona como hedge geopolítico. Quanto maiores os riscos, mais forte tende a ser o fluxo para esse tipo de investimento”, observa Almeida.

Além dos fatores estruturais e geopolíticos, o crescimento recente do ouro também envolve um componente emocional. A valorização atrai investidores que reagem ao preço, não ao fundamento, alimentando ainda mais o ciclo.

A digitalização do mercado, por meio de ETFs, contratos futuros e ouro tokenizado, ampliou o acesso ao ativo e manteve o volume financeiro elevado.

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Melhor ano do ouro desde 1979

Dados da consultoria Statista indicam que 2025 caminha para ser o melhor ano do ouro desde 1979, com retorno anual superior a 50% até outubro. O metal já acumulava valorização significativa, ritmo comparável aos picos observados em anos de estresse global, como 2007, 2009, 2010 e 2020.

Para 2025, analistas projetam preço médio acima de US$ 4.000 por onça, com algumas estimativas chegando a US$ 5.000.

A demanda estrutural pelo ouro é reforçada por bancos centrais, sobretudo de países emergentes, que permanecem entre os maiores compradores globais. Esse fluxo consistente adiciona pressão altista e evidencia mudanças no padrão monetário global.

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No Brasil, a fragilidade fiscal aumenta a relevância do ouro como proteção.

“Se o dólar é questionado pelo déficit fiscal americano, imagine o real. A vulnerabilidade fiscal brasileira exige atenção, porque uma moeda mais fraca eleva a importância do ouro”, afirma Almeida, explicando por que a valorização do metal atinge níveis recordes em reais.

Papel estratégico na carteira

Para o economista, o ouro continua desempenhando papel estratégico na carteira, especialmente para preservação de valor em cenários extremos.

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Apesar da valorização recente, ainda há espaço para investidores estruturais, desde que a exposição seja planejada de forma gradual.

Ele ressalta que o ouro funciona como reserva de liquidez em momentos de incerteza e, a longo prazo, como proteção contra cenários inflacionários decorrentes do endividamento público e da perda de confiança nas moedas fiduciárias.

Almeida também aponta que o ouro e as criptomoedas compartilham características como oferta limitada e ausência de fluxo de renda, mas diferem em volatilidade.

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“O ouro permanece um dos poucos ativos capazes de preservar valor em cenários extremos, enquanto as criptomoedas oferecem potencial de valorização maior, mas com risco elevado”, conclui.