Gestora do Itaú prevê corrida de emissões no 2° semestre para evitar impacto em 2026

Mudanças propostas pelo governo impactam LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas, e líderes do crédito privado alertam para reprecificação dos ativos

Osni Alves

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Ana Rodela, CIO do Bradesco Asset, conta que logo após o anúncio da Medida Provisória 1.303/25, o mercado correu atrás das debêntures ainda isentas. “Foi uma reação imediata”, relatou ela. “Mas no mesmo dia, à tarde, os spreads começaram a abrir, com rumores de que talvez a proposta não passe tão facilmente no Congresso. O que a gente viu foi uma corrida inicial e, depois, um pouco de correção”, complementou.

Em meio ao calor das discussões sobre as recentes medidas do governo que podem alterar a tributação de ativos antes isentos, como LCIs, LCAs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas, o episódio mais recente do programa Outliers, do InfoMoney, trouxe uma análise de peso com duas das maiores especialistas em crédito privado do país: Fayga Delbem, gestora da Itaú Asset, e Ana Rodela, CIO da Bradesco Asset.

As executivas discutiram os impactos da MP 1.303/25, que prevê a incidência de 5% de IR sobre esses papéis, e avaliaram como o mercado tem reagido a essas mudanças.

A tributação adicional, que também prevê alíquotas maiores sobre outros instrumentos de renda fixa (até 17,5%), rompe com a lógica da tabela regressiva e, segundo Delbem, exige uma análise mais fria. “É preciso sair um pouco da manchete e entender os detalhes. A diferença efetiva no caso das debêntures de infraestrutura, por exemplo, é de 2,5 pontos percentuais. O mercado exagerou na reação”, afirmou.

Delbem destacou ainda a vantagem da escala para grandes gestoras, que conseguem aproveitar momentos de euforia para vender ativos valorizados. “Isso nos dá poder de rotação de carteira, especialmente com acesso a emissões privadas e deals com prêmio.”

Corrida do ouro até dezembro?

Com a possibilidade de as novas regras entrarem em vigor apenas em 2026, Rodela prevê uma movimentação intensa nos próximos meses. “Devemos ver uma antecipação de emissões ao longo do segundo semestre. Mas há limites: as empresas precisam de aprovação e dos lastros para emitir. E também não faz sentido captar demais e ficar com o caixa parado queimando.”

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Ela também chamou atenção para o fato de muitas empresas estarem optando por prazos mais curtos em razão da taxa de juros elevada. “Há debêntures com prazo de cinco anos funcionando quase como empréstimos-ponte, porque ninguém quer travar IPCA+8%, por exemplo, por 15 ou 20 anos.”

Impactos no mercado de FIDCs

Outro ponto debatido no episódio foi a mudança no IOF para cotistas de FIDCs e FIC FIDCs. A alíquota de 0,38%, somada à incidência sobre fundos que compram FIDCs, gerou dúvidas no setor. “Sou uma grande fã de FIDCs. Eles não nasceram por uma vantagem tributária, mas por permitirem acesso a carteiras diversificadas com diferentes perfis de risco”, afirmou Rodela. “Mesmo com a nova alíquota, continuam sem come-cotas, o que ainda é uma vantagem relevante.”

Delbem reforçou: “FIDC é um veículo como qualquer outro fundo. Pode ter altíssima qualidade ou altíssimo risco. É nosso papel desmistificar isso para o investidor. A depender do risco e prazo, o impacto do IOF pode ser diluído ou compensado dentro da estrutura do produto.”

Ambas as gestoras ressaltaram que ainda se trata de propostas — nada foi aprovado definitivamente —, mas reforçaram a importância de não tomar decisões precipitadas. “O investidor que saiu no susto em abril, após o tarifaço, provavelmente perdeu parte do patrimônio que será difícil recuperar. A mensagem é: calma”, alertou Clara Sodré, analista da XP e uma das apresentadoras do programa.

“Gestão ativa se torna ainda mais importante em momentos como este. Não é hora de se mover por impulso”, concluiu Fabiano Cintra, também apresentador do Outliers.