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Os escritórios de assessoria de investimentos no Brasil concentram hoje quase cinco vezes mais profissionais do que há cerca de uma década.
O número médio de assessores por escritório passou de cerca de quatro entre 2012 e 2016 para aproximadamente 19 em 2025.
Os dados são parte de um levantamento realizado por Francisco Amarante, superintendente da Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (ABAI), a partir dos cadastros públicos de participantes regulados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A mudança ocorreu enquanto a quantidade de empresas permaneceu abaixo do pico histórico. Em 2012, o país chegou a 1.960 escritórios de assessoria. Em 15 de julho de 2026, eram 1.423 em funcionamento normal, 27% menos.
Ao mesmo tempo, o contingente de assessores pessoa física atendido por essas estruturas é cerca de quatro vezes maior.
Os números mostram uma transformação na estrutura do setor, com maior concentração de profissionais por empresa.
Para Francisco Amarante, o movimento está relacionado à consolidação e ao ganho de escala da atividade.
“O que os dados mostram é uma mudança bastante clara na estrutura da indústria. Hoje temos menos escritórios do que no pico histórico, mas esses escritórios concentram um número muito maior de profissionais”, diz Amarante.
Segundo ele, o crescimento da assessoria passou a ocorrer não apenas pela abertura de novas empresas, mas também pela expansão das estruturas existentes.
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“Está acontecendo também, e cada vez mais, pelo crescimento das estruturas já existentes. O número médio de assessores por escritório aumentou de cerca de quatro profissionais para aproximadamente 19”, afirma Amarante. “É uma transformação importante no perfil da indústria”.
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Escritórios ganham escala
A série histórica mostra que a redução no número de escritórios não é recente. Depois do pico de 1.960 registros ativos em 2012, a base caiu até 1.172 em 2016. Desde então, voltou a crescer e chegou a 1.423 em julho de 2026.
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Mesmo no levantamento parcial deste ano, o saldo de escritórios permanece positivo. Entre janeiro e 15 de julho, foram 71 novos registros e 60 cancelamentos, diferença positiva de 11. O estoque de registros não cancelados avançou 0,8% no período.
Em 2024, o saldo havia sido positivo em 128 escritórios e, em 2025, em 35.
Na avaliação de Amarante, a busca por escala ajuda a explicar a concentração de mais profissionais em uma mesma estrutura.
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Escritórios maiores podem distribuir entre uma base mais ampla despesas relacionadas a tecnologia, compliance, jurídico, marketing, treinamento e administração.
A profissionalização da atividade também entra nessa conta, segundo o superintendente. Governança, controles internos, capacitação, segurança da informação, gestão de dados e exigências regulatórias passaram a ocupar mais espaço na operação das empresas.
“Isso não significa que uma estrutura pequena não possa operar ou que deixe de ser competitiva, mas estruturas maiores naturalmente têm maior capacidade de investir nesses recursos”, comenta.
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Setor reúne mais de 26 mil profissionais
A consolidação dos escritórios ocorre depois de um período de forte crescimento do número de profissionais. O estudo aponta que o contingente de assessores se multiplicou por quatro entre 2018 e 2024.
Atualmente, são 26.092 assessores pessoa física em funcionamento normal. Há ainda 1.150 registros suspensos a pedido.
O ritmo de entrada de profissionais, porém, diminuiu depois do pico registrado em 2022. Naquele ano, foram 6.389 novos registros e 1.470 cancelamentos, com saldo positivo de 4.919 assessores.
Entre 2019 e 2022, foram registrados, em média, 5.011 novos assessores por ano. De 2023 a 2025, a média passou para 4.108 novos registros anuais — patamar que Amarante ainda considera elevado.
Os cancelamentos aumentaram no mesmo intervalo. A média anual passou de 1.192 entre 2019 e 2022 para 2.292 entre 2023 e 2025. Com isso, o saldo líquido de profissionais caiu de 4.919 em 2022 para 3.032 em 2023, 1.712 em 2024 e 704 em 2025.
No levantamento parcial de 2026, o saldo ficou negativo pela primeira vez desde 2016. Foram 1.816 novos registros e 1.915 cancelamentos até 15 de julho, diferença negativa de 99 profissionais.
Para Amarante, porém, a desaceleração do crescimento não deve ser confundida automaticamente com uma retração estrutural da atividade.
“Esse dado de 2026 precisa ser interpretado com cautela”, observa. “Uma parte relevante desse movimento está associada aos efeitos do Programa de Educação Continuada e ao processo de recertificação.”
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PEC afeta números de 2026
O levantamento aponta impacto do Programa de Educação Continuada (PEC) a partir de abril de 2026, quando registros foram cancelados por descumprimento das exigências do programa, com necessidade de recertificação dos profissionais.
O estudo ressalta que esse processo afeta as bases de registros e cancelamentos.
Dados da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias) citados no levantamento mostram que o número de profissionais credenciados passou de 27.721 em março para 27.176 em maio.
Desses, 20.224 estavam vinculados a instituições. O índice de cumprimento do PEC estava em torno de 81%.
Também houve aumento das suspensões. O levantamento contabiliza 639 suspensões iniciadas e ainda vigentes no período parcial de 2026, ante 263 em 2025 e 224 em 2024.
Por isso, Amarante avalia que cancelamentos e suspensões não podem ser interpretados automaticamente como saída definitiva da atividade ou redução da demanda pela carreira.
“São quase 8 mil profissionais certificados, mas não vinculados e que provavelmente não cumpriram os requisitos do PEC e terão os seus registros cancelados nos próximos meses”, pontua.
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Espaço para escritórios de diferentes portes
Apesar do aumento do número de assessores por estrutura, Amarante ressalta que a tendência de consolidação não significa que o mercado ficará restrito às grandes empresas.
“Não acredito que estejamos caminhando para um mercado composto apenas por grandes escritórios. Há espaço para diferentes modelos”, afirma.
Na avaliação do superintendente da ABAI, escritórios pequenos e especializados podem competir principalmente em nichos, regiões ou segmentos específicos de clientes.
A tendência, segundo ele, é de uma indústria mais segmentada, com grandes estruturas convivendo com escritórios de médio porte e boutiques especializadas.
A tecnologia também participa dessa transformação. Segundo Amarante, ferramentas de CRM, atendimento, integração de informações e inteligência artificial podem permitir ganhos de escala, mas também representam custos relevantes para estruturas menores.
“O aumento do número de assessores por escritório reflete, principalmente, a maturidade e a consolidação da indústria”, comenta.
“Escala, tecnologia, custos e exigências operacionais certamente favorecem estruturas maiores, mas isso não significa o fim dos escritórios independentes ou menores”, prossegue.
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Mercado entra em nova fase
Para Amarante, a combinação de crescimento mais moderado no número de profissionais e aumento da escala dos escritórios representa uma mudança de estágio da assessoria.
O ciclo entre 2019 e 2022 foi marcado por uma média superior a 5 mil novos registros de assessores por ano. Entre 2023 e 2025, a média permaneceu acima de 4 mil, mas o crescimento líquido diminuiu diante do avanço dos cancelamentos.
“Os dados indicam, sim, que o mercado de assessoria entrou em uma nova fase. Mas é importante diferenciar desaceleração de crescimento de retração estrutural”, defende Amarante.
Outro movimento acompanhado pela ABAI é o crescimento da consultoria de valores mobiliários.
O estoque de consultores pessoa física vem avançando entre 22% e 27% ao ano desde 2023, embora a base continue significativamente menor do que a de assessores.
Segundo Amarante, os dados são compatíveis com a possibilidade de migração de parte dos profissionais entre os dois modelos, embora as bases públicas não permitam rastrear individualmente essas mudanças de registro.
“Nossa leitura é que estamos saindo de uma fase de expansão quantitativa acelerada para uma etapa de maturidade, consolidação e maior diversificação dos modelos de atendimento ao investidor”, ressalta.
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Espaço para crescer
Para os próximos anos, Amarante afirma que a expectativa da ABAI continua positiva. Na avaliação da entidade, a assessoria tende a crescer em ritmo mais moderado do que o observado no ciclo de 2019 a 2022.
“O mercado brasileiro ainda tem muito espaço para crescer”, projeta o superintendente.
“Temos uma penetração de profissionais de investimentos muito inferior à observada em mercados mais desenvolvidos, e ainda existe um enorme contingente de brasileiros sem acesso a orientação qualificada para seus investimentos”, continua.
O estudo estima 122 assessores para cada milhão de habitantes no Brasil, ante aproximadamente 1.910 profissionais de distribuição por milhão de habitantes nos Estados Unidos.
A comparação tem limitações institucionais entre os dois mercados, mas dimensiona a diferença de penetração das atividades.
Na avaliação de Amarante, o crescimento futuro tende a vir acompanhado de escritórios maiores, expansão para novas regiões, especialização dos profissionais, maior uso de tecnologia e convivência com outros modelos de atendimento.
“Não vemos os números como o início de uma retração da indústria”, resume.
“Vemos como o encerramento de um ciclo de hipercrescimento e o início de uma fase mais madura, em que o crescimento continuará existindo, mas será cada vez mais baseado em qualidade, escala, produtividade e diversificação dos modelos de negócio”, conclui.
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