Publicidade
SÃO PAULO – Se no final de março o Ibovespa já estava em um momento ruim a despeito das bolsas internacionais atingirem máximas históricas, agora que os mercados do exterior estão passando por uma correção o índice brasileiro está sofrendo ainda mais. Somente em abril, as quedas já chegam a 6%, ampliando o desempenho negativo no acumulado do ano para 13,25%.
Com esse cenário, diversas ações na Bovespa atingiram patamares extremamente baixos em relação à sua história. Tal movimento fez surgir uma dúvida: seria o momento para comprar ações de empresas brasileira? A Bovespa está em liquidação?
De acordo com especialistas ouvidos pelo Portal InfoMoney, a tal “liquidação” da bolsa brasileira mais se assemelha à um grande outlet – quando lojistas tentam vender produtos com defeitos de fábrica, e o fazem ao preço que der. “Diversas empresas caíram por fatores internos, o racional delas próprias. Não tem absolutamente nada a ver com o mercado em si”, afirma Werner Roger, sócio e diretor da Victoire Investimentos.
Ele lembra que os papéis mais baratos em termos patrimoniais são justamente àqueles que passam por problemas operacionais ou outras pressões: Eletrobras (ELET3; ELET6), Oi (OIBR3, OIBR4), Petrobras (PETR3; PETR4), OGX Petróleo (OGXP3), MMX Mineração (MMXM3) e as incorporadoras tem valor de mercado inferior ao seu patrimônio – ou seja, se fossem liquidadas nesta sessão, o investidor receberia mais dinheiro do que elas realmente valem. Baratas, mas não necessariamente bons investimentos para o atual momento, visto que ainda há espaço para continuar a queda.
Hamilton Alves, estrategista do BBInvestimentos, lembra que a maioria dessas empresas já valiam menos que o seu patrimônio mesmo antes das fortes quedas. “Não é de hoje isso. Tem que se fazer perguntas antes de investir, que patrimônio é esse? Vai gerar lucro lá na frente? Não dá para comprar olhando só para isso”, avalia.
Bolsa está fraca
A má performance da Bovespa é fruto de um desempenho econômico fraco dentro do Brasil, com incertezas sobre crescimento, ciclo da taxa de juros e inflação, e também um ambiente mais fraco para ações globalmente nas últimas sessões, com o mercado norte-americano começando a sinalizar um topo e a economia chinesa botando freios no crescimento de algumas das principais empresas brasileiras, avalia Roger.
“E isso acaba arrastando algumas empresas no Brasil, não só as de commodities, que deveriam sofrer com isso, mas algumas outras também”, diz o sócio e diretor da Victoire.
Há diversas outras situações há serem resolvidas para que a bolsa volte a subir, na opinião do gestor. Sinalizações melhores seriam necessárias para desarmar o clima de desconfiança, tanto no Brasil quanto no resto do mundo – sem contar os acontecimentos que não podem ser previstos pelo mercado. “A gente não sabe os desdobramentos da questão das bombas [que explodiram na Maratona de Boston na segunda-feira, classificada pelo governo norte-americano como “atentado terrorista”], e se vier mais? O mercado fica todo preocupado”, avisa o gestor. Desde os atentados da segunda, outras ocorrências menores também chamaram a atenção e causaram pânico, como uma carta contendo pó fatal enviada a um senador norte-americano.
A queda do Ibovespa, porém, pode estar limitada em termos gráficos, já que ele se aproxima de cada vez mais de um verdadeiro divisor de águas para a bolsa brasileira. E quando isso ocorrer, se respeitar o suporte, devemos ter uma retomada da pressão compradora. “Os 52.200 pontos é um suporte muito forte, e acho que a bolsa pode testar essa região. Vamos ver o acontece, depende muito de como as coisas estiverem lá fora”, afirma o estrategista do BBInvestimentos.
Continua depois da publicidade
Solução? Ser seletivo
Ao mesmo passo que algumas empresas valem bem menos do que seu patrimônio, outras, como Multiplus (MPLU3), Lojas Americanas (LAME4), Souza Cruz (CRUZ3) e Cielo (CIEL3) valem cerca de 20 vezes a soma de tudo que possuem. “Existem varias empresas bastante acima do patrimonial. Se essa queda fosse algo deflagrado, então todas elas estariam caindo forte”, avalia o gestor.
Roger acredita que o mercado está cada vez mais focando nas ações de maior qualidade, ignorando aquelas com maiores incertezas – mesmo que estejam absurdamente baratas. “O mercado está sendo extremamente seletivo, está fugindo das empresas com maior risco e incertezas. Nem mesmo consumo se tornou um porto seguro agora”, finaliza.
Em termos de múltiplos de preço sobre lucro, o Brasil não está barato, ao contrário, é um dos mercados emergentes com as ações mais caras. “Não acredito que estamos baratos não. Mas o clima está ruim em relação ao exterior e isso puxa. Quando lá fora cai, aqui cai mais. E quando sobe no exterior, a alta aqui não é o suficiente para apagar as perdas dos outros dias”, salienta Alves.