Independente da solução na Argentina, população arcará com os custos

Ainda é grande o temor quanto ao cenário argentino atual, que combina retração econômica, desequilíbrio das contas públicas e perda substancial de reservas internacionais. Dentro desta conjuntura, amplia-se a falta de confiança dos investidores ao país e os riscos de uma moratória da dívida externa argentina e de desvalorização cambial também aumentam. O principal problema […]

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Ainda é grande o temor quanto ao cenário argentino atual, que combina retração econômica, desequilíbrio das contas públicas e perda substancial de reservas internacionais. Dentro desta conjuntura, amplia-se a falta de confiança dos investidores ao país e os riscos de uma moratória da dívida externa argentina e de desvalorização cambial também aumentam. O principal problema do país é a falta de tempo para a implantação de medidas que possam retomar o crescimento econômico argentino. É consenso que da forma em que se encontra a Argentina, a sobrevida obtida por possíveis pacotes de auxílio de organismos internacionais como o FMI não deve durar muito. Além disso, sem uma solução o país continua a exercer sua influência negativa aos mercados emergentes, sobretudo os latino-americanos e em especial o Brasil.

Deste modo, a situação argentina exerce uma forte influência sobre o nosso dia-a-dia, já que o Brasil teve que adotar uma série de medidas para evitar o contágio, que acabaram por afetar nosso bolso. Além disso, a solução do problema argentino pode ocorrer de diversas formas, com impactos diferentes tanto sobre a população argentina como sobre os países vizinhos como o Brasil.

Solução 1: Empréstimo do FMI e solução negociada

Entre as opções disponíveis à Argentina, que não são muitas, está a do empréstimo que poderia ser disponibilizado pelo FMI. Desta forma, o Fundo atesta sua confiança no país, o que poderia melhorar a confiança internacional à economia argentina, gerando com isso novos ingressos de dinheiro através de investimentos diretos. Além disso, os saques dos depósitos bancários por parte da população, comuns nas últimas semanas, poderiam ser reduzidos. Esta alternativa poderia dar mais fôlego para que o país promova uma severa reestruturação em suas contas. Com o dinheiro novo, a Argentina poderia evitar a desvalorização cambial e a moratória.

Solução 2: Moratória

A moratória por si só não parece ser uma alternativa viável, já que no início de junho o governo argentino anunciou a troca de US$ 29,5 bilhões em títulos públicos que venceriam no curto prazo por títulos de prazos mais longos. Com a operação, o governo deverá deixar de pagar US$ 16,3 bilhões em resgates de títulos públicos até 2005. Deste modo, os vencimentos no curto e médio prazo estão sob controle. Assim, os benefícios da moratória seriam pequenos, porém o efeito adverso seria, entre outros, o aumento da restrição no acesso da Argentina ao mercado de capitais externo, que é para o país a principal fonte de financiamento do déficit público. Além disso, possivelmente intensificaria o atual movimento de saques nos depósitos do sistema financeiro. Em suma, as perdas são maiores que os ganhos.

Solução 3: Desvalorização do Peso e Moratória

A desvalorização, por sua vez, inevitavelmente levará à moratória, já que a maior parte do endividamento do governo argentino é denominada em dólares, enquanto suas receitas são denominadas em pesos. Deste modo, com passivos em moeda forte e ativos em pesos, que perderia a paridade junto ao dólar, o déficit tenderia a aumentar criando uma situação insustentável. Neste sentido, seria também bastante provável que a recessão se intensificasse, já que a situação do governo não é diferente da de muitas empresas e de um modo geral de toda a população argentina. Vale lembrar que boa parte dos financiamentos na Argentina são em dólares, ou seja, boa parte da população argentina está na mesma situação do governo. Por outro lado, os argentinos se destacam em relação ao nível de dinheiro no exterior frente à poupança interna. Sendo assim, a desvalorização poderia atrair de volta este dinheiro, já que o país ficaria “barato” em dólares, representado um importante impulso à retomada do crescimento.

Caso fosse decretada a moratória e em seguida promovida a desvalorização cambial, em um primeiro momento a balança comercial seria deficitária. Contudo, no médio e longo prazo, os produtos argentinos ficariam mais competitivos no exterior, enquanto as importações ficam encarecidas, gerando um superávit comercial. No mesmo sentido, o impacto sobre o nível de emprego no curto prazo também é negativo, o que poderá ser recuperado com o aumento das exportações.

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Impacto na população argentina e no Brasil

Qualquer que seja a solução adotada para a Argentina, é melhor para os outros países como o Brasil que seja adotada rapidamente, evitando um maior contágio. A partir de então, cada mercado passará a responder por si dentro de um contesto econômico menos pressionado. Neste momento, o mercado passa a avaliar os emergentes ponderando fundamentos econômicos e expectativas de expansão.

De qualquer forma, fica claro que a situação da Argentina é preocupante, já que parece não existir nenhuma solução que resolva o problema atual sem um considerável sacrifício por parte da população local. O empréstimo do FMI sozinho não resolve, se não vier seguido por medidas que reestruturem a economia que e possam recuperar a confiança internacional. A Argentina demonstra neste momento sua forte dependência ao fluxo externo de capitais, que exige o conservadorismo para que a delicada situação não passe a um quadro irrecuperável.

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