Superaquecimento no mercado de aluguel gera “distorções perigosas”

Percepção do mercado é que essa situação de altas taxas de aluguel, demanda fortalecida e pouca oferta de papel para empréstimo deve ser insustentável e não deve perdurar

(Shutterstock)
(Shutterstock)

Publicidade

SÃO PAULO – A visão pessimista sobre a bolsa brasileira levou a uma crescente demanda dos investidores por aluguéis de ações nos primeiros meses do ano. De janeiro a junho, o total de posições alugadas abertas na BM&FBovespa saltou 24% em relação ao igual período de 2012, atingindo R$ 500,3 bilhões. Essa “farra dos vendidos” na bolsa teve como consequência a escassez de alguns papéis e um aumento das taxas de empréstimo.  

Um dos papéis mais atingidos nesse período foram os das empresas “X”, corroborando com a queda no império de Eike Batista. Há alguns meses, investir nas ações da OGX Petróleo (OGXP3) vinha se mostrando um bom negócio. A demanda pelo aluguel vinha crescendo vertiginosamente, quando em maio alcançou 35% do free float (ações em circulação no mercado) e a Bovespa precisou elevar o limite. Nunca um ativo com liquidez para entrar no Ibovespa havia atingido um percentual tão alta em “short” (posição vendida) em relação ao total disponível para negociação. 

A BM&FBovespa precisou elevar o teto de aluguel de OGX duas vezes: uma em 18 de março, quando a bolsa elevou o limite de risco de empréstimo do ativo de 20% (250 milhões de papéis) para 30% (376 milhões). E, em 9 de maio, dia seguinte ao volume ter tocado novamente no patamar superior, a entidade subiu o parâmetro para 45% do free float (564 milhões). 

O cenário, entretanto, começou a mudar esse mês, levando as posições alugadas ao menor nível desde maio deste ano. Contudo, apesar desse recuo – que está em um patamar considerado bem elevado pelos analistas (30% do free float) -, a taxa para “tomar” o papel alugado segue bem alta, atingindo média de 81,9% ao ano no pregão anterior. 

A percepção do mercado é de que essa situação deve ser insustentável e não deve perdurar por muito tempo, podendo ocorrer um ajuste em breve. Com isso, é aconselhável que os investidores tenham consciência do seu perfil e da situação do ativo, ao menos no curto prazo, para dimensionar seus riscos e oportunidades. 

Segundo um operador que preferiu não se identificar, essa distorção no mercado de aluguel (que não tem como exemplo apenas a OGX) deve ser vista com cautela. “Não recomendaria abrir posição vendida nesse momento. As taxas estão bem altas e o cenário atual não está abrindo tanto espaço para operar na ponta vendedora. Essa forte demanda pelos aluguéis podem gerar distorções perigosas”, disse.

Continua depois da publicidade

No caso de OGX, ele comenta que o alívio na pressão vendedora nesse mês deve ser considerada mais como um “respiro” do que uma tendência. “O que tem ocorrido é o reposicionamento de investidores, por isso, vemos uma ligeira queda nos aluguéis, mas não nas taxas. A demanda continua intensa. Ou seja, os investidores precisam fechar os contratos para devolver os papéis ao ‘doador’, mas, em seguida, voltam a tomar alugado os papéis”, comenta. 

Outro papel que vem apresentando forte demanda na ponta vendedora é o da B2W (BTOW3). No início de julho, o fechamento de posição de um grande investidor que tinha ações da empresa em aluguel provocou um forte impacto entre a demanda e oferta do papel. Operadores de mercado têm comentado que atualmente o papel está “seco” no mercado de aluguel, gerando taxas altíssimas para quem conseguir alugar.

“Tem oferta de aluguel de BTW na pedra a taxa de 99,9% ao ano (o limite máximo permitido pela BM&FBovespa) em contrato fixo, o que corresponderia a cerca de 8% ao mês. Não tem mais doador no papel. Desde o recall, o papel secou no mercado. Nesse patamar, obter retorno nesse operação se torna cada vez mais difícil”, comenta. 

Continua depois da publicidade

Outro papel que vem apresentando taxas elevadíssimas é o da MMX Mineração (MMXM3). No último pregão, a média era de 62,76% ao ano. Juntamente, o volume de papéis da empresa também vem apresentando forte alta desde maio, quando girava em torno de 51.775.354 ações, para 67.713.444 ações no pregão da última quinta-feira – representando um salto de 30,7% no período, segundo dados da BM&FBovespa. 

A empresa vem sofrendo de problema semelhante ao da B2W: falta de doador no mercado. O perigo disso, alerta o operador, é o aumento da inadimplência para liquidação dos papéis. Ou seja, muitos investidores vendem as ações da empresa sem fechar a operação de aluguel dos papéis correspondentes para conseguir entregar o ativo no dia da liquidação da operação.

Pelas regras da BM&FBovespa, ao fechar um negócio hoje (D+0), o vendedor das ações deve entregá-las ao comprador daqui a três dias (D+3). Esse é um processo quase automático, realizado pela área de custódia da Bovespa, antiga CBLC. O que ocorre é que muitos investidores vendem a ação sem possuí-la, na esperança de conseguir alugar o ativo e fechar a operação, e é nesse ponto que o investidor deve tomar cuidado, pois as taxas para tomar o papel emprestado e de inadimplência podem tornar a operação de venda não vantajosa ao investidor.

Continua depois da publicidade

Atualmente, os inadimplentes arcam com uma multa para 0,2% do valor financeiro por dia de atraso. Mas, a partir de 5 de agosto, a BM&FBovespa cobrará uma taxa de 0,5%, e poderá saltar para até 1%, a partir de dezembro.