Ações com fundamentos “duvidosos” lideraram rali da bolsa; a alta é consistente?

Dentre as 15 ações que mais subiram até então em agosto, apenas 2 delas acumulam alta em 2013; estrategista aponta que Ibovespa precisa de mais forças para subir
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SÃO PAULO – Após acumular queda anual de 27% em meados de julho, o Ibovespa tem ensaiado uma recuperação nos últimos dias e recentemente alcançou uma sequência de 9 pregões de alta – algo que não acontecia desde agosto de 2010 -, que foi encerrada com uma queda de 2% na última terça-feira (20). Mesmo assim, os ganhos acumulados em agosto ainda somam 4,7%; somados da mínima do ano registrada em julho, a valorização chega a 14,6%. No entanto, algumas questões colocam em xeque a sustentabilidade deste rali da Bovespa, principalmente ao olharmos as ações que estão guiando este movimento.

Neste mês, as ações que mais dispararam até o momento têm tido forte desvalorização no ano, sendo que muitas delas eram vistas até pouco tempo atrás com grande ceticismo por analistas e investidores. Dentre os papéis que fazem parte do Ibovespa e que registram valorização no 8º mês de 2013, todas elas registram baixa de pelo menos 15% no ano. E das 15 mais valorizadas em agosto, apenas duas registram alta no ano – JBS (JBSS3) e BRF (BRFS3).

Essa observação cria uma dúvida no mercado: essa alta do Ibovespa de fato é consistente, ou estamos passando por um movimento de ajuste de posições antes de retomar novas quedas? Essa questão ganha forças principalmente pelo fato de não termos visto uma mudança estrtural significativa no cenário macroeconômico que justificasse uma melhora no sentimento do investidor – o PIB (Produto Interno Bruto) segue com expectativa de fraco crescimento em 2013, as projeções para Selic já se aproximam de 10% ao ano e o dólar tem chegado na casa dos R$ 2,40, deteriorando ainda mais o ambiente inflacionário brasileiro. Isso sem contar com a expectativa cada vez maior do Federal Reserve iniciar a retirada de estímulos na economia dos EUA, o que tem feito os títulos públicos do país dispararem nos últimos meses – os Treasuries de 10 anos é tido como o investimento “mais seguro” do mercado, e uma maior demanda por este ativo signfica menos capital indo para países mais “arriscados”, como os emergentes.

Dentre os papéis que se destacam na ponta positiva do índice, está a LLX Logística (LLXL3), com ganhos de 93% apenas nos últimos 30 dias, mas ainda acumulam queda de 31% em 2013 – acompanhando a derrocada dos papéis do Grupo EBX, de Eike Batista, que sentiram o impacto da perda de credibilidade do megainvestidor perante os mercados. Nos últimos dias, as ações da companhia de logística do mundo X foram impulsionadas pela notícia de que o fundo norte-americano EIG capitalizaria a companhia em R$ 1,3 bilhão, passando logo depois a ser acionista controlador de Eike.

Outra companhia que se destaca entre os maiores ganhos do Ibovespa é a B2W Digital (BTOW3). Mesmo com a queda de 8,4% na última terça-feira, o braço online da Lojas Americanas acumula alta de 20,75% em agosto. De julho pra cá, os ganhos superam a casa dos 90%%. Mesmo assim, os ativos BTOW3 ainda registram queda de 16,69%.

Embora o resultado do 2º trimestre da empresa tenha mostrado que as preocupações com as margens de rentabilidade ainda são recorrentes, a companhia se beneficiou com o anúncio feito em julho de que passará a vender roupas de grifes famosas – operação mais rentável do que a venda de eletroeletrônicos, segundo analistas. Além disso, um fator de mercado ajudou a impulsionar a B2W: as ações estavam passando pelo que o mercado chama de “short squeeze”, que ocorre quando há escassez do papel para ser alugado, o que faz com que os investidores que estão “vendidos” – ou seja, estão posicionados para lucrar com a queda do ativo – recomprem a ação para zerar a sua posição, provocando uma maior demanda pelos ativos.

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Dentre outras que registram alta no período, está a Eletropaulo (ELPL4), que passa por uma “tempestade” em meio às incertezas regulatórias e com a forte dívida da companhia. Em agosto, os ativos da empresa já subiram 16,5%, mas mesmo assim acumulam queda de mais de 50% em 2013. Vale mencionar que estes papéis caíram em todos os 7 primeiros meses do ano.

Maiores altas do ano em queda no mês
Enquanto isso, duas das ações que registram a maior valorização do ano não vêm registrando desempenhos muito positivos, como a Braskem (BRKM5) e Embraer (EMBR3). A petroquímica subiu até o momento menos que o Ibovespa em agosto (+0,68%), mas ainda acumulam alta de 38% no ano; já a fabricante de aeronaves soma valorização de 37% em 2013, mas em agosto subiu “só” 1,75% até a última terça-feira.

Cielo (CIEL3) e Ultrapar (UGPA3) são outros dois casos de ações de sucesso em 2013 mas que no mês de agosto deram uma pausa na valorização. A administradora de cartões como a holding registram queda em agosto – 0,43% para CIEL3 e 3,98% para UGPA3 -, mas no acumulado do ano ainda sobem 20,6% e 13,8%, respectivamente.

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Cenário não mudou
Conforme aponta o estrategista da BB Investimentos, Hamilton Alves, o movimento de alta observado surpreendeu em relação a alguns setores, como o siderúrgico e o de construção civil – as ações de ambos setores estavam bastante
 descontadas por conta das fortes quedas acumuladas em 2013, o que colaborou para a alta, aponta Alves. Contudo, ainda é muito cedo para falarmos em “virada” na Bovespa: o índice precisa de mais forças, principalmente das “ações boas”, para confirmar uma mudança de tendência.

 “O mercado acionário brasileiro ainda passa por um movimento de bear market”, aponta o estrategista, citando o movimento que na prática seria quando um índice apresenta queda de mais de 20% em relação ao seu topo. Alves reforça que o Ibovespa vai oscilar entre ralis de ganhos e momentos de perdas enquanto não superar a faixa entre 52.200 e 52.400 pontos – atualmente, ele encontra-se em 50.507 pontos.

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Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.