Mesmo com mais de 40 intervenções do BC, dólar já subiu 17% desde maio

Desde o final de maio, governo já injetou US$ 38 bilhões no mercado por meio de leilões; mesmo assim a divisa passou de R$ 2,0525 para R$ 2,3941

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SÃO PAULO – A disparada do dólar segue firme e forte no Brasil. Nesta quarta-feira (21), a moeda norte-americana apresenta valorização de mais de 1%, sendo cotado a R$ 2,43 – maior patamar desde 2009 -, acumulando desde o final de maio uma alta de 17%. Se até o primeiro semestre deste ano a grande arma do governo para segurar as fortes oscilações no câmbio eram os leilões de dólares, o mesmo artifício não parece mais ter grande efeito sobre o mercado.

Desde este início de desvalorização do real, já foram realizados 41 leilões de swap – que equivalem a venda futura de dólares – pelo Banco Central, tendo injetado aproximadamente US$ 38 bilhões no mercado – os números excluem os leilões de rolagem destes contratos. Mesmo aumentando a oferta de divisas no mercado – o que, na prática, poderia funcionar com o intuito de derrubar as cotações -, a taxa de câmbio saltou de R$ 2,0525 no final de maio para os atuais R$ 2,43.

Na opinião do gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, as intervenções recentes do Banco Central, que a princípio deveriam funcionar como “antídoto”, serviram para agravar ainda mais a situação. “Se o Banco Central não tivesse feito todas essas intervenções, a situação do câmbio poderia até estar mais tranquila”, afirma Galhardo. Para ele, o BC poderia ter sido mais incisivo antes desse rali, evitando assim o atual cenário de especulação da moeda, que estão aproveitando os leilões do governo para jogar a cotação da divisa para cima.

O economista e diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, explica o movimento: os fundos nacionais e estrangeiros – que movimentam forte volume financeiro no mercado cambial – alimentam a ponta compradora do dólar com o intuito de pressionar a cotação da moeda, forçando o BC a intervir no câmbio via leilão de swap. O movimento acaba criando ciclo vicioso: quanto mais os fundos “especulam” sobre a moeda, mais o BC intervirá; quanto mais o BC se mostrar disposto em intervir, mais os fundos tentaram jogar a moeda para cima.

O “efeito Bernanke” sobre o dólar
A expectativa de redução do programa de estímulos à economia dos EUA, o QE3 (Quantitative Easing 3) tem sido um dos principais “drivers” para o rumo da moeda. Com muitos analistas e até mesmo algumas autoridades do Federal Reserve sinalizando que o início da estratégia de saída deve ser agora em setembro, muitos investidores estão tentando antecipar esse movimento, migrando seus investimentos para o mercado norte-americano.

O reflexo disso pode ser visto nos “Treasuries”, os títulos públicos do governo dos Estados Unidos, tidos pelos investidores como o “investimento mais seguro do mercado”. Desde a última ata do Fed, os títulos de 10 anos do governo norte-americano já apresentaram alta de mais de 60 pontos-base, enquanto as taxas de hipotecas de 30 anos avançaram mais de 50 p.b. no mesmo período.

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Brasil menos atrativo e declarações de Mantega
Além dos EUA voltarem a ser atrativos para o investidor, o Brasil perdeu credibilidade frente aos mercados internacionais, explica Galhardo. Para ele, os atuais temores em relação à diversos setores da economia nacional, principalmente a inflação e as taxas de juros, afastam os investidores na hora de investir no País.

Outro fator que ocasionalmente prejudica o mercado cambial, segundo o gerente, são as falas dos líderes de governo, como o ministro da Fazenda Guido Mantega. Ele cita como exemplo a última semana, quando Mantega afirmou que no curto e no médio prazo o cenário deve se manter de desvalorização do real. “Ao afirmar isso, o ministro praticamente pede ao investidor para comprar dólares, já que a moeda deve continuar subindo… Ele tumultua o mercado dessa forma”, explica Galhardo.

Onde o dólar vai parar?
Com esse cenário conturbado para o câmbio, passa a existir uma grande diferença entre as expectativas dos analistas quanto ao dólar para o final deste ano. Algumas casas afirmam que a divisa deve recuar um pouco nos próximos meses, podendo encerrar 2013 na casa dos R$ 2,25, enquanto outros especialistas apontam para um rali mais longo, levando o dólar para R$ 2,70 em dezembro.

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No último relatório Focus do Banco Central – que compila a opinião de mais de 100 analistas – a projeção para o câmbio ao final de 2013 passou de R$ 2,28 para R$ 2,30, indicando que a moeda deve voltar a cair. “Com todas as incertezas do mercado fica complicado projetar o dólar neste momento. Temos que esperar para ver quais serão as medidas do BC a partir de agora para entender quais os planos do governo em relação à cotação”, conclui Galhardo. 


Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.