Nascida sob o lema “o petróleo é nosso”, Petrobras faz 60 anos com inúmeros desafios

Companhia tem que equilibrar metas ambiciosas de crescimento da produção com melhora do crédito; uso "político" afeta petrolífera, apontam analistas

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SÃO PAULO – Há exatos 60 anos, no dia 3 de outubro de 1953, nascia a Petrobras (PETR3;PETR4). Com a sua criação sendo aprovada pelo Senado após uma batalha parlamentar intensa de 23 meses e sancionada por Getulio Vargas sob o lema “O petróleo é nosso” agora, seis décadas depois, a companhia de petróleo enfrenta grandes desafios, fazendo aniversário em um momento bastante crucial. Desta vez, o grande desafio é cumprir as suas metas de produção, associada à redução das dívidas e ampliar a capacidade de refino.

E a companhia vive numa espécie de “limbo”, na expectativa por um reajuste de gasolina o que acaba levando a maior volatilidade dos ativos. No começo desta semana, as ações da companhia registraram forte alta impulsionadas pela declaração da presidente Graça Foster ao jornal O Globo de que estão em estudo mudanças na política de reajuste de preços da gasolina.

Nos últimos meses, as ações da petrolífera foram afetadas pelo aumento do dólar, o que pressiona o caixa da companhia ao aumentar a diferença de preços cobrados nacionalmente e os internacionalmente, uma vez que a empresa importa parte dos combustíveis consumidos no País.

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Conforme destacou a equipe de análise da Planner Corretora em relatório divulgado na semana passada, “este fato [a diferença de preços interno e externo] está levando à absurda situação de quanto mais o consumo cresce mais a Petrobras perde dinheiro, porque precisa aumentar o valor das importações. Assim, a correção dos preços é fundamental para estancar este prejuízo e elevar a geração de caixa da empresa, em um momento de investimentos elevados”. 

E essa situação reflete, como apontam muitos analistas, o “uso político” da petrolífera. Os reajustes dos preços dos combustíveis estão condicionados ao câmbio e a questões como a inflação, deixando assim a saúde financeira da companhia e os investidores em “segundo plano”.

Os analistas da Planner acreditam que os reajustes devem acontecer no mais tardar em outubro, com a redução das taxas de inflação e a maior estabilidade da taxa de câmbio, destacam os analistas, fazendo com que as ações registrem volatilidade. Porém, será que a Petrobras pode ganhar de presente de aniversário um reajuste de preços dos combustíveis?

Além da dificuldade em reajustar os combustíveis, os problemas enfrentados no Leilão de Libra evidenciam também os desafios da petrolífera. A Petrobras, pela lei, será a única operadora do campo, com no mínimo de 30% de participação, independentemente do vencedor da licitação, podem pressionar ainda mais o caixa da companhia.

Desafios existem, mas futuro pode ser promissor
Apesar do cenário de dificuldades, a expectativa mais no longo prazo é boa para a Petrobras. Se, por um lado, a companhia poderá sofrer ao ser operadora de Libra, por outro, a produção da companhia pode aumentar de forma bastante significativa; somente neste campo do pré-sal, as reservas estimadas neste campo são de 8 bilhões a 12 bilhões de barris. 

E, quando o assunto é a produção, as metas da companhia são bem ambiciosas. A Petrobras tem como desafio cumprir a meta de dobrar a produção em sete anos e ampliar a capacidade de refino mantendo as métricas de crédito. E isso através de investimentos de US$ 236,7 bilhões até 2017; com isso, espera-se que a produção passe de 2 milhões de barris por dia para 4,2 milhões em 2020, com a exploração das reservas do pré-sal. 

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Desta forma, a companhia vive diversos dilemas, tendo que aumentar a produção ao mesmo tempo que reduz sua alavancagem e tenta contornar a pressão de ser usada politicamente, o que gera temores para os investidores e diminui a lucratividade da estatal. Assim, mesmo tendo um dos portfólios considerados mais promissores do mundo em termos de produção de petróleo, as questões com as quais a companhia tem que lidar geram cautela para o mercado.

Neste sentido, a entrada de Graça Foster na presidência da Petrobras em fevereiro de 2012 animou, uma vez que tem adotado o discurso da austeridade e foco nos negócios principais através da venda de ativos. Contudo, a estratégia da presidente da empresa acaba esbarrando em problemas como a forte intervenção governamental e até mesmo certas “ameaças” externas, como o aumento da produção de gás de xisto nos EUA e exploração de novas alternativas. 

Se em 1953, os desafios enfrentados pela nascente petrolífera brasileira, eram enormes em termos de tecnologia e de encontrar reservas, os obstáculos a serem enfrentados pela companhia atualmente não são menores, apesar de bastante diferentes. 

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História
No ano em que foi criada, em 1953, no então governo de Getúlio Vargas, a empresa contava com modestos 2.700 barris de produção de petróleo por dia no Recôncavo Baiano, 170 mil barris de petróleo em reservas, uma refinaria na Bahia, outra em contrução em São Paulo e 22 navios petroleiros com capacidade de carga de 227 mil toneladas. A nova companhia assumiu, como tarefa prioritária, a estruturação da área de exploração e produção e a formação de técnicos brasileiros para substituir os estrangeiros que vieram ocupar cargos de gerência nos primeiros anos da empresa. 

Diante da dimensão limitada dos resultados exploratórios em terra, a Petrobras partiu para o desafio no mar, iniciado em águas rasas do Nordeste, chegando à descoberta de campos gigantes na Bacia de Campos e culminando com a descoberta de petróleo e gás no pré-sal das bacias de Santos e Campos, consideradas umas das maiores dos últimos anos no mundo. Estas descobertas fizeram da empresa a detentora da mais avançada tecnologia de exploração e produção em águas profundas e ultraprofundas.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.