Falta de transparência foi fatal para derrocada da OGX, diz “voz” dos minoritários

Em entrevista ao podcast da Rio Bravo, criador do grupo "MinoritáriosOGX" apresenta seus projetos e revela que compra ações da OGX até hoje

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SÃO PAULO – Há tempos que a OGX Petróleo (OGXP3) tem estado em um ambiente turbulento, com muitas especulações e sucessivas falhas em tentar produzir petróleo. Recentemente, o cenário da companhia de Eike Batista ficou ainda mais agitado, com suspensão em campos por falta de tecnologia e o não pagamento de credores e a possibilidade de um entrada de investidores, que assumiriam o comando da empresa.

Com tudo isso, Willian Magalhães Jr. organizou, pelo twitter, um grupo de acionistas minoritários para tentar obter maiores informações sobre a companhia, que só em 2013 já registram perdas de 90%, cotadas a R$ 0,43. Em entrevista para o Podcast da Rio Bravo Investimentos (para ouvir, clique aqui), Magalhães afirmou que comprou ações da OGX em janeiro pela primeira vez e que continua a comprar ativos: “Já comprei outros ativos, mas hoje só tenho ativos da OGX”, afirma.

Por meio do perfil @MinoritariosOGX, ele busca obter uma maior transparência da empresa e já tentou, sem sucesso, se eleger membro do conselho de administração da OGX. Veja abaixo a entrevista completa de Willian Magalhães Jr.:

Rio Bravo – Willian, você é um administrador de empresas aqui no interior de São Paulo. Quando você comprou ações da OGX e por quê?

Willian – Comecei a comprar as ações da OGX em janeiro. Desde janeiro de 2013 venho fazendo compras recorrentes até a última compra realizada na semana retrasada.

RB – Você não comprou tudo em um preço só. Você foi comprando para baixo, é isso?

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Exatamente.

RB – O que te fez comprar as ações? No que você estava acreditando ali? 

Quando eu resolvi entrar no mercado de capitais, enxerguei o mercado de petróleo como um mercado promissor que é, e entendi que uma compra para longo prazo seria um investimento rentável, pensando em um cenário de cinco, seis anos.

RB – Eu imagino que você tenha olhado também as outras empresas de petróleo listadas. Por que você escolheu a OGX?

Quanto maior o risco, maior a rentabilidade. Então decidi, de acordo com os parâmetros que tinha naquele momento, entendendo que o valor do ativo estava precificado a um valor pequeno, um valor barato. Entendi por bem fazer a compra desse ativo.

RB – Willian, você já tinha feito algum investimento em bolsa? 

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Não.

RB – Foi a primeira vez. 

Foi a primeira vez. Fiz até algumas compras em outros ativos, mas hoje só tenho ações da OGX.

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RB – Na opinião dos acionistas da OGX com quem você conversa, o que aconteceu no Grupo X, e na OGX em particular? Houve má fé? Incompetência? Expectativas exageradas? 

Particularmente, eu não acredito em má fé da companhia. É o comunicado que o Eike fez a um jornal poucos meses atrás. Ele fala que as informações que foram divulgadas eram aquelas que o corpo diretivo tinha naquele momento. Então não posso acreditar, em uma empresa da qual sou sócio e acredito, que a empresa ou controlador ou seja quem for, tenha agido de má fé com seus acionistas.

RB – Mas a que você atribui a discrepância tão grande que houve entre as estimativas originais e a realidade de produção da empresa? 

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As ações começaram a cair a partir do momento em que aquilo que era planejado em junho não se concretizou e o mercado começou a precificá-la cada vez a valores menores e uma força especulativa, através do movimento de alugueis, isso é muito claro, começou a apostar na queda do ativo. Por isso, até do grande número, do elevado número das ações alugadas do papel.

RB – Mas você acha que houve um problema na avaliação que foi feita do que havia ali efetivamente de quantidade de petróleo?

Não sei te dizer isso, porque a certificadora que fez esses laudos é uma das maiores do mundo. Então não posso tirar o crédito dessa certificadora e também da empresa que fez a leitura desse certificado. Mas como a empresa não concretizou essa produção, é natural que o mercado tenha desacreditado, por um período, que chegou até hoje, de constatação que a empresa não produziu aquilo que planejou.

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RB – Como é que esse grupo começou a se formar? Quem procurou quem?

Eu acompanho as informações da empresa desde o início, desde o IPO. Em janeiro, quando entrei no ativo, frequentando fóruns e tendo informações através do diálogo com alguns colegas, entendi que a reclamação era generalizada. Mas poucos ou quase ninguém buscava uma atitude um pouco mais proativa de relacionamento com a empresa, com o controlador, e tentar participar da empresa. Por isso que entendi que seria necessária a criação de um grupo, ele se consolidou no Twitter, para que se buscasse o dialogo com o controlador, objetivando uma informação para os acionistas.

RB – Qual é o perfil médio do investidor de OGX com quem você conversa hoje? 

Através do Twitter, em sua maioria, é pessoa física. O acionista pessoa física. Em média, acionistas que têm entre 50 e 100 mil ações. Tanto aqueles que entraram primeira vez na Bolsa de Valores e até aqueles que estão há muito tempo com outros ativos e acreditaram na empresa.

RB – Você está com um prejuízo no seu investimento agora, mas você tem o seu negocio, a sua empresa, você tem a sua renda. Você conheceu ali pessoas que perderam muito mais do que poderiam perder efetivamente? 

Sim. Tive contato por algumas vezes com alguns colegas que investiram além do que tinham, alavancando suas corretoras,e alguns que investiram dinheiro de rescisão de algum trabalho e amarguraram, amarguram uma perda virtual porque ainda não venderam. Valores que, sem dúvida, comprometeram a saúde financeira dessas pessoas. Diferente daqueles que entraram no ativo com um dinheiro em separado, pensando em uma rentabilidade de um valor que eles não precisariam em primeiro momento, visando o longo prazo.

RB – Você acha que essa experiência vai machucar a crença das pessoas aqui no Brasil no mercado de capitais? Ou isso vai ser visto, no final das contas, como um caso isolado?

Depende. Eu, particularmente, entendo que a empresa vai ressurgir, através de uma operação dos ativos que possui. Então, particularmente, além de entender eu espero que aqueles que continuarem no papel, como eu, tenham uma visão positiva, diferente da atual.

RB – Você acredita que você vai reaver o capital total que você investiu?

Reaver é uma palavra um pouco… eu acredito que vou ter uma rentabilidade do ativo. Eu espero, além do dinheiro que eu investi, superar através de uma rentabilidade ao longo de cinco, seis anos, que foi o objetivo meu quando entrei no ativo.

RB – Quais são os ativos da OGX que têm valor, na sua opinião?

Um dos grandes ativos, é Tubarão Martelo. Sem dúvida, esse é um poço, um complexo, que tem sido muito esperado pelo mercado. Inclusive, a Petronas negociou 40% desse bloco com a OGX, ao valor de 850 milhões de dólares, então há uma expectativa, tanto dos acionistas como de todo o mercado, que esse ativo, entrando em operação, segundo RI, a partir de novembro, dezembro, traga recursos, assim como outros blocos, ajudando a empresa a ter essa retomada financeira e devolvendo a ela o status de uma grande empresa, com uma saúde financeira.

RB – Como é que vocês pretendem se organizar em termos de estrutura? Vão criar uma associação? Já conversaram com advogados?

Já. Além de já dialogar com alguns advogados, até com alguns colegas mais ativos, dentro do grupo de minoritários já há tempos atrás entendemos que seria interessante a criação de uma associação ou de um ajuntamento formal desses acionistas. Mas hoje entendo que deveria ser através de um fundo ou de outro formato, que certamente outros acionistas já estão cuidando disso. A minha luta, se assim posso dizer, tem sido de transparência da companhia. Então entendo que esse grupo, que eu venho mantendo em contato, deva buscar esclarecimento da companhia através do seu controlador ou presidente, principalmente pelo seu RI, para que nós, acionistas, possamos ter uma visão mais clara de qual é a situação da empresa.

RB – Qual a demanda básica hoje? A demanda principal desse grupo de minoritários.

Desde o início nós buscamos a instalação do conselho fiscal. A empresa não possui esse conselho instalado. Desde março, abril, nós buscamos com a companhia para que ela mesma fizesse essa instalação, de um bom tom, de uma forma proativa, e buscamos em duas assembleias, uma em março e outra em setembro, que esse conselho fosse instalado, mas por uma questão de quórum, até pela representatividade que você mencionou, não atingimos ainda esse objetivo.

RB – Vocês tentaram também a eleição de um membro para o conselho de administração, é isso?

Correto.

RB – Em duas assembleias.

Exato.

RB – Hoje vocês tem interlocução com os grandes acionistas institucionais e internacionais da empresa?

Tenho feito contato com o procurador desses fundos. É um escritório de advocacia que representa grande parte dos fundos estrangeiros. Há pouco mais de dois meses tenho feito esse contato com eles para que ou me apoiem na instalação do conselho e também na representação do conselho de administração ou que os próprios elejam outro acionista para que os represente.

RB – Estão buscando alguma interlocução com os credores da companhia?

Com os credores, não.

RB – Quando vocês buscavam ter uma representação no conselho da empresa, o que vocês pretendiam conseguir com isso?

Mais transparência. Muito do que tem sido feito pelo mercado, com o ativo, tem sido, ao meu entendimento, uma falta de proatividade da companhia. Comunicados mais claros, informações antecipadas ao acionista… Isso diretamente ao mercado, não individualmente. E acredito que um ponto forte seria, de fato, o exercício da transparência da companhia, não dizendo, que a empresa não é transparente. Mas pensando no momento que ela está, sem dúvida que inspira muito mais a necessidade de uma abertura, vamos dizer, de portas, aos seus acionistas para que, de fato, conheçam a realidade da empresa, como está a saúde financeira dela.

RB – Vocês já tiveram alguma interlocução com o Eike diretamente, ou com algum executivo do grupo? Como foi?

Sim. A pedido do Eike, eu fui recebido na OGX. Inclusive, essa reunião era para ter sido com ele. Ele abertamente no Twitter mencionou que faria questão de me ver, mas na data agendada não pôde, por um conflito de agenda, me receber e me encaminhou ou incumbiu a tarefa ao presidente da companhia, o senhor Carneiro, senhor Luiz Carneiro, e também ao Roberto Monteiro que, na ocasião, era diretor financeiro da companhia. E lá tivemos uma reunião até longa para que eles pudessem me dar algumas informações e que eu pudesse também levar algumas demandas de nós, minoritários.

RB – Vocês já consultaram advogados para saber se há alguma via jurídica a ser perseguida?

Tenho tomado conhecimento pela mídia, de alguns grupos de minoritários, inclusive as duas frentes maiores que têm sido levantadas, uma no Rio de Janeiro e outra no Sul. São acionistas que eu conheço, tive a oportunidade de conhecê-los pessoalmente, principalmente os do Rio de Janeiro, mas particularmente eu não acredito em uma linha processual. Não acredito que nós, minoritários, venhamos a ter êxito em uma ação. E, por acreditar na empresa, tenho comigo que o apoio, ao invés de uma linha processual, seja um caminho mais claro. E o diálogo acho que sempre deve prevalecer. A não ser que em dado momento seja comprovada alguma má fé, como você citou lá atrás e aí sim caberia algum tipo de ação, que certamente eu não seria o precursor desse viés processual.

RB – Vocês procuraram a CVM para alguma conversa?

Procurei. Para a assembleia em setembro, onde eu fiz o pedido público de procuração, e eu fiz algumas consultas com os analistas e encaminhei também uma carta, que foi direcionada diretamente ao senhor Ademir Pinto, presidente da Bolsa de Valores, e também para a CVM mandei essa carta em comum, para que algumas providências fossem tomadas por eles porque entendo que o órgão fiscalizador são eles. Então caberia a uma intensificação no cuidado com a empresa através dos seus comunicados e também de algumas informações que a empresa tornou públicas.

RB – Você acha que houve nesse processo todo de derrocada do preço da ação alguma falha de regulação no mercado?

Não sei te dizer. Até pelo não conhecimento de todos os fatos da companhia e também pela fiscalização se houve ou não, eu não sei se te dizer se houve uma falta de gestão ou alguma coisa nesse sentido.

RB – Deixa eu te colocar outra coisa. Hoje, em retrospecto, você acha que um negócio de risco tão grande quanto uma empresa de petróleo que, na época do IPO, estava em fase pré-operacional, você acha que, em princípio, um investimento nisso deveria ser aberto a pessoas físicas ou deveria ser restrito a investidores institucionais, chamados qualificados, que têm recursos para, por exemplo, fazer o próprio estudo geológico deles e entender mais do assunto do que uma pessoa física é capaz de entender? Ou você acha que o mercado está aí, todo mundo tem que ter o direito de aplicar no que quiser?

Cada um faz a sua análise. As informações estavam lá e os termos de risco, tanto na época, como os que entraram agora, cada um faz a sua análise. Certamente que aqueles que entenderam os momentos de euforia que a empresa comunicou reservas maiores que agora comprovadas, talvez tenham sido motivos para alguns deles tenham entrado, mas entendo que o mercado está aí, cada um faz uma avaliação se entra ou não. Acredito que os acionistas pessoa física, como eu, deveriam, sim, ter oportunidade de entrar em uma fase pré-operacional.

RB – O próximo passo é o que agora? É tentar ter uma representação no conselho de administração e instalar o conselho fiscal?

Também. Essa luta continua porque além de ela não ter sido atendida, para mim é fato que a empresa não tem se mostrado aberta para que um minoritário seja membro desse conselho. Volto a falar, não de forma proativa. E entendendo o beneficio que isso traria como representatividade, através de voz no conselho, seria muito importante, sim, que essa demanda seja atingida. Por mim ou por outro indicado.

RB – Que lição você acha que esse caso OGX pode ensinar a todos nós?

De tudo a gente tira uma lição. Sem dúvida que aplicar um recurso que você precisa em uma empresa que, claramente, no início era operacional e, claramente nos últimos meses do ano passado, tem se mostrado uma questão um pouco maior de risco, a entrada em um ativo tem que ser muito planejada porque eventualmente você pode precisar desse dinheiro e não tê-lo naquele momento. A maior lição, não que eu tenha tirado, mas que eu tenha dialogado com os acionistas, é que muitos deles, como disse no outro questionamento, alguns precisavam e acreditavam que em um tempo menor fossem ter a rentabilidade. E hoje tem um preço a pouco mais de 19, 20 centavos. Certamente que a reflexão maior é se entra ou não em uma empresa de risco. Que apresenta um risco maior. Mas pensando quanto maior o risco, maior a possibilidade de rentabilidade, cabe a cada um fazer a sua avaliação.

RB – Hoje você deve estar em uma posição em que você sofre muita cobrança das pessoas no próprio Twitter.

Natural. Eu entendo que em um cenário onde os acionistas têm pouca informação, ainda mais em um momento de crise, natural que esses acionistas busquem um diálogo com aqueles que estão mais ativos e que têm contato com o RI como eu. Sem dúvida que alguns também são um pouco mais contundentes no pedido ou na reclamação, como se eu tivesse a solução ou eu tivesse alguma informação privilegiada. Não tenho. Seria crime. Então entendo, mas, ao mesmo tempo, eu dialogo com essas pessoas que eu também gostaria de ter algumas informações. E quando eu não as tenho, simplesmente eu não posso falar de algo que eu não sei. Mas respeito essas pessoas que buscam esse contato. Outro dia recebi um twit de um colega que falou que o RI também não tem falado e eu também não, mas não tenho uma novidade. Semana passada eu tive uma informação importante que ganhou repercussão na mídia que foi… Eu divulguei no Twitter que a plataforma OSX 3 chegaria em Tubarão Martelo no final de semana. E chegou. Então era um fato que eu descobri com a empresa através de um contato. Imagino que qualquer outro acionista que tivesse ligado na empresa também se reportaria da mesma forma. E divulguei e isso ganhou repercussão. Mas outra informação que eu não tenho notícia, como a reestruturação, isso me perguntaram de forma recorrente se eu tenho alguma notícia, infelizmente eu não tenho. Gostaria de tê-la.

Rodrigo Tolotti

Repórter de mercados do InfoMoney, escreve matérias sobre ações, câmbio, empresas, economia e política. Responsável pelo programa “Bloco Cripto” e outros assuntos relacionados à criptomoedas.