Incertezas vêm à tona e ameaçam “década da América Latina”, diz FT

Após o boom dos últimos anos, alguns países - dentre eles, o Brasil - sofrem com a falta de investimentos que deveriam ter feito nos períodos de bonança, aponta publicação britânica

Publicidade

SÃO PAULO – Em matéria do último final de semana, o jornal britânico Financial Times destacou as boas notícias vindas da América Latina, mas ressaltou, por outro lado, que a melhora econômica da região está ameaçada.

“Primeiro, em março, um papa argentino – Franscisco – e então, na semana passada, foi nomeado um brasileiro para liderar a OMC (Organização Mundial do Comércio). A América Latina, que por muito tempo foi deixada de lado em meio à ditadura e ocorrência de desastres, parece voar alto e desfrutar de sua influência global crescente”, aponta. 

A publicação destaca que a economia da região quase duplicou a sua participação na produção econômica mundial para 8%, ao mesmo tempo em que a classe média cresceu em 50 milhões de pessoas, enquanto a desigualdade diminuiu – um feito único, segundo o FT. 

Assim, esta seria a “década da América Latina”, como já foi aclamado por muitos em 2010. “Mas agora, no quarto ano da década, a América Latina, embalada pelo seu sucesso recente, pode perder o seu caminho”, aponta.

“As condições externas ‘felizes’ não devem durar para sempre”, conforme aponta Alejandro Werner, economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional) para a região. Na mesma linha, o Bank of America Merrill Lynch destacou que o Peru, por exemplo, “está perdendo o seu toque de Midas”, enquanto o Capital Economics vê a região experimentar uma vulnerabilidade crescente. 

A colheita do boom de commodities, que começou em 2002, tem sido enorme. Porém, com a desaceleração econômica da China, levando a um preço menor dos produtos e aumentando os questionamentos de quanto tempo o ciclo de crescimento irá durar, avalia a publicação.

Continua depois da publicidade

Os sinais de tensão já começam a aparecer. O valor das exportações brasileiras, por exemplos, registraram uma queda de 8% no primeiro trimestre, enquanto os déficits estão se ampliando. No Chile, o PIB terá um crescimento menor, de 4% em 2013. 

Segundo o Financial Times aponta, isso não era um problema em meio à ampla liquidez internacional e os grandes aportes de investimento. Entretanto, com os preços de commodities mais baixos, a forte demanda interna deve ter ido para trás. E talvez, drasticamente. 

Alguns países não aproveitaram “boom”
Com isso, embora algumas das maiores economias tenha aproveitado a “maré de bonança” para investir por outro, países representativos como a Argentina, Venezuela e, em menor escala, o Brasil, sofrem com a falta de investimentos nos anos de boom econômico. 

Continua depois da publicidade

Assim, países que aproveitaram para investir, como México, Colômbia, Chile e Peru vão crescer uma média de 5% este ano, segundo as previsões do FMI, enquanto o Brasil, Argentina e Venezuela, vão crescer a uma média de 2%.

Dentre outros fatores apontados, está uma “doença holandesa financeira”, com a moeda local se valorizando e expulsando os produtores locais dos mercados internacionais e com as economias locais voltam-se mais para dentro, como no setor de serviços inferior.

A publicação destaca ainda a necessidade de aumentar a produtividade com mais reformas, o que é uma tarefa mais fácil do que superar as ditaduras e instabilidade macroeconômica do passado não tão distante. Por outro lado, aponta, a tarefa se aponta também como bastante complicada, ainda mais levando em conta um cenário não muito favorável. 

Autor avatar
Lara Rizério
Mercados | Economia | Onde Investir

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.