O melhor caminho está no mercado doméstico

Com cenário externo ainda complicado, especialistas continuam recomendando ações ligadas ao consumo doméstico; Vale é a exceção

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SÃO PAULO – Para os investidores de Bolsa, 2012 não deixará saudades. As negociações continuaram marcadas pelo clima de apreensão, ora pela crise europeia, que ganhou ares de dramaticidade em diversos países, ora pelos Estados Unidos, que enfrentam sérias dificuldades para retomar os níveis de crescimento e emprego vistos outrora. Até mesmo a impetuosa economia chinesa teve de lutar para evitar um “pouso forçado”, o que teve impacto direto nos preços das commodities. O Ibovespa, considerado o “termômetro” do mercado acionário brasileiro, não seguiu essa trajetória e terminou o ano sem um desempenho animador.

Mas 2012 não foi de vacas magras a todos os investidores no Brasil. Muita gente, na verdade, obteve excelentes resultados. Destaque para quem investiu em empresas com atuação no mercado doméstico, como é o caso do setor de educação. As quatro companhias desse segmento listadas na Bovespa – Kroton, Estácio, Anhanguera e Abril Educação – praticamente duplicaram de valor de mercado em 12 meses. Além delas, as administradoras de shopping centers, varejistas e empresas de alimentos também fizeram bonito.

Como águas passadas não movem moinhos, a hora agora é de olhar para frente e descobrir em quais ações ou setores os investidores devem ficar de olho ao longo de 2013. Leia a seguir as principais indicações dos analistas e gestores:

As grandes influências
Para 2013, o grande consenso dos analistas aponta para um cenário de continuidade do que foi visto no final de 2012 – ou seja, nada de vida fácil para quem está com recursos alocados em Bolsa. Na Europa, a crise permanecerá bem longe de uma resolução, com a atividade econômica próxima da recessão. Contudo, as apostas sobre um possível colapso da zona do euro mostram-se cada vez mais distantes. Nos Estados Unidos, as atenções deverão se manter sobre a situação fiscal e seu impacto no andamento da economia nos próximos meses. Já na China, a transição do novo presidente local, Xi Jinping, merece atenção.

Analistas ainda destacam a importância de a economia brasileira conseguir crescer de maneira sustentável, mas alertam para as atuações intervencionistas do governo. “Qualquer setor em que o governo possa intervir inspira cuidado”, afirma Luis Pacheco, gestor da Inva Capital.

O futuro das “campeãs” de 2012
As empresas de educação e de shopping centers foram as que apresentaram as maiores altas na Bolsa em 2012. Em 2013, apenas as companhias do setor de educação devem repetir o mesmo desempenho. “O governo tem dado todo o aval para as empresas privadas de educação, buscando reduzir o espaço enorme existente entre o ensino brasileiro e o internacional”, aponta Eduardo Miziara, gestor de fundo de ações da Capitânia.

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Embora o mercado veja o setor inteiro como uma boa opção de investimentos, a empresa mais citada pelos entrevistados foi a Kroton. “Os resultados do terceiro trimestre de 2012 mostram que ela continua sendo capaz de incluir alunos no EAD (ensino a distância)”, afirma Alexandre Silvério, gestor de renda variável da Quest Investimentos.

Já para o setor de shopping centers, a avaliação dos entrevistados é de que ele já subiu demais. “O setor está bem saturado. Ainda existem boas oportunidades, mas é preciso olhar para esses papéis com mais ceticismo”, diz Pacheco, da Inva Capital. “No médio prazo, é uma opção arriscada, o setor não vai crescer para sempre”, complementa Gonçalves, da WinTrade/Alpes.

Ainda assim, muitos analistas recomendaram as ações da BR Malls. “Ela ainda tem a maior margem do setor, é a que cresce mais forte e tem uma política agressiva de aquisições”, complementa Müller, da Geral Investimentos.

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Vale: exceção à regra
Diante da recomendação de preferir as empresas voltadas ao mercado brasileiro, a Vale foge à regra e figura como uma companhia exportadora que representa ótima oportunidade de investimento para 2013, na visão dos entrevistados. Mesmo tendo forte exposição ao conturbado mercado internacional – sobretudo à China –, a mineradora apresenta um mix de resultados satisfatórios, ótima geração de caixa, dividendos elevados e múltiplos descontados em relação aos seus pares.

“É uma empresa com múltiplos atrativos, baixo endividamento, que tende a se beneficiar bastante de uma possível retomada da economia chinesa”, aponta Gabriel Ribeiro, executivo da equipe de análise da Um Investimentos. Bruno Gonçalves, da WinTrade/Alpes, ressalta ainda a “resposta rápida” da companhia às quedas do preço do minério de ferro. “Ela conseguiu derrubar seus custos operacionais para compensar essa queda”, afirma. Já Karina, da Concórdia, espera que o preço da matéria-prima se normalize em US$ 120/tonelada, o que ajudará a manter a empresa rentável.

Petróleo & Gás: apenas para quem suporta risco
Sempre figurando entre as mais negociadas da Bovespa, as ações do setor de petróleo e gás não apresentam perspectivas muito positivas, não só para a maior companhia do setor (Petrobras), como também para aquelas cuja fase de operação ainda não começou ou está no início (OGX, HRT e QGEP).

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No caso da estatal petrolífera, o cenário está bastante conturbado desde 2010, quando foi realizada uma tumultuada capitalização por meio de uma oferta bilionária de novas ações. Nesses três anos, a Petrobras já perdeu quase 50% de valor de mercado, o que contribuiu para que ela fosse ultrapassada pela Ambev como empresa mais valiosa do Brasil. Atualmente o que tem pressionado as ações da companhia é o descasamento entre os preços do petróleo no mercado doméstico e no internacional: enquanto lá fora as cotações do barril seguem em valorização, o preço do combustível no Brasil não é reajustado, por conta da preocupação do governo com a inflação. Como a Petrobras é obrigada a importar principalmente gasolina para atender o mercado doméstico, é a estatal quem acaba absorvendo o custo da decisão do governo. Analistas não demonstram otimismo com a empresa, mesmo se for anunciado um aumento nos preços. “Por mais que haja um reajuste, a ação ainda não está atrativa”, aponta a equipe de análise da Octo Investimentos.

Sobre as outras empresas, o horizonte também não se mostra muito promissor, principalmente após a sequência de fracassos delas em seus blocos de exploração. Mas as recentes perdas deixaram a relação risco/retorno desses papéis bastante assimétrica, explica Roberto Altenhofen, analista da Empiricus Research. Ele cita a HRT, cujo preço negociado em Bolsa está bem abaixo do seu valor patrimonial. Essa assimetria pode provocar uma forte valorização dessas ações após qualquer notícia positiva envolvendo tais companhias – ainda que os riscos de novas quedas também sejam elevados, devido ao momento de aversão ao risco de empresas pré-operacionais.


Idealizador e apresentador do canal Stock Pickers