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SÃO PAULO – Seja você um investidor com muitos anos de experiência ou um mero curioso ainda em busca de informações sobre o mercado de ações, provavelmente já deve ter ouvido que a estratégia básica para se ter sucesso na bolsa de valores consiste basicamente em comprar ações quando elas estiverem na baixa (com preços menores) e vendê-las na alta (quando estão mais valorizadas).
Basta pouco tempo de vivência no mundo das ações para perceber que não é tão simples transformar essa teoria em prática, e que também não há uma “receita de bolo” pronta para ser utilizada por qualquer um que queira enriquecer na bolsa de valores. Do contrário, se todos utilizassem o mesmo “manual” para investir, o mercado entraria em colapso, já que todos iriam querer comprar ou vender ações ao mesmo tempo.
Mas, então, como fazer para colocar a teoria de “comprar na baixa e vender na alta” em prática? Os especialistas são incisivos ao dizer que é praticamente impossível identificar exatamente quando a bolsa já subiu tudo o que tinha que subir, ou quando ela chegou ao fundo do poço. Contudo, há algumas ferramentas que podem ser utilizadas pelo investidor para tentar encontrar um bom momento de entrar no mercado de ações e também uma boa hora para sair.
As técnicas apresentadas pelos especialistas consultados por Invista reforçam como é importante o investidor conhecer bem o mercado de ações e buscar estudar antes de entrar nesse mundo: por muitas vezes, o investidor que adota essa estratégia vai se ver caminhando na contramão do movimento do mercado: enquanto ele está comprando, a grande maioria do mercado está vendendo, e vice-versa. E quanto mais se conhece o mercado (na teoria e na prática), mais confiante você fica para tomar essa decisão de ir contra a maré dos outros investidores.
Siga os estrangeiros!
Uma boa forma de tentar identificar se a bolsa brasileira está barata é ficando atento ao fluxo dos investimentos estrangeiros em ações. “Todos os movimentos de reversão da nossa bolsa ocorrem quando há a migração do investimento entre a pessoa física e o estrangeiro”, explica Juliano Carneiro, fundador do Portal Juliano Carneiro. Nos movimentos de queda da bolsa, ocorre o inverso: os estrangeiros saem da bolsa e a pessoa física começa a entrar.
Essa tendência fica bem nítida no fluxo de investimentos de 2008: até meados de maio, quando o Ibovespa bateu seu maior patamar da história ao fechar em 73.516 pontos, a quantidade de investidores pessoa física na bolsa não parava de aumentar, no mesmo sentido do fluxo de estrangeiros. Já a partir de junho, o Ibovespa deu início a um duro e rápido movimento de queda, acompanhando o agravamento da crise do mercado imobiliário norte-americano, chegando ao fundo nos 29.435 pontos no final de outubro. Durante esse período, os estrangeiros foram gradualmente deixando a bolsa brasileira, ao mesmo tempo em que o investidor pessoa física aumentava cada vez mais sua participação. A pessoa física só começou a sair significativamente da bolsa em 2009, ano em que os estrangeiros começaram a voltar para a bolsa e o Ibovespa fechou o com alta de mais de 80%.
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Essa relação existe devido à forte participação que os investidores estrangeiros detêm na BM&FBovespa, já que geralmente o capital movimentado por eles é significativamente maior do que a quantia aplicada pelos investidores pessoa física, explica Carneiro.
Fuja da euforia
A explicação para o aumento da participação de investidores pessoa física no momento em que o Ibovespa engatou seu movimento de queda em 2008 é a outra dica importante para tentar saber se a bolsa está barata ou cara. Segundo Paulo Esteves, analista-chefe da Gradual Investimentos, muitos desses investidores se deixaram levar pelo sentimento de euforia visto no mercado, tornando o assunto popular até em meios de comunicação em que ele não é noticiado.
Atraídas com a possibilidade de “ganhar dinheiro fácil”, muitas pessoas entraram sem o devido preparo na BM&FBovespa. Assim que a bolsa começou a despencar, o sentimento de euforia que atraiu tantos investidores para o mercado deu lugar ao pânico e a pessoa física partiu em retirada, provocando o que é chamado no mercado de “efeito manada”.
Em cima disso, Eduardo Oliveira, da equipe de análise da UM Investimentos, diz que é preciso ir contra o fluxo do mercado se você quer comprar na baixa para depois vender na alta. “Principalmente nos movimentos de queda, o mercado costuma reagir de uma maneira mais abrupta do que deveria”, explica Oliveira.
Uma maneira interessante apontada por Paulo Esteves para identificar momentos de euforia na bolsa é saber quantas empresas pretendem realizar IPO (Oferta Pública Inicial, na sigla em inglês), ou seja, abrir seu capital para o mercado através de uma oferta de ações. “Uma enxurrada de IPOs sinaliza que os preços das ações estão muito elevados, tornando a oferta interessante para os donos da empresa. Por outro lado, uma escassez de IPOs mostra que os preços não estão muito atrativos para esses diretores”, explica o analista-chefe da Gradual.
Múltiplos e “80/20”
A análise por múltiplos é uma forma mais técnica de identificar se o mercado de ações está atrativo ou não. Um dos principais alicerces da análise fundamentalista, esse tipo de avaliação leva em conta números calculados sobre alguns indicadores financeiros divulgados pelas empresas em seus balanços de resultados. “Esses indicadores têm um padrão histórico e uma média, que podem mostrar se a bolsa está cara ou barata”, explica Esteves.
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Tomemos como exemplo o P/L (Preço por Ação/Lucro por Ação), que mensura em quantos anos uma empresa devolverá todo o capital aplicado na compra da ação, caso o lucro mantenha-se constante. De uma forma prática, quanto menor o P/L de uma empresa em relação à sua média histórica ou aos seus pares do setor, mais “barata” ela está, e quanto maior for o P/L dela sobre a média ou seus pares, mais “cara” ela está.
Por fim, uma forma prática de identificar se o mercado de ações está em baixa ou em alta é a estratégia de investimento popularmente chamada de “80/20”. O método é simples: destine 80% do seu capital em renda fixa e 20% em ações. Sempre que a bolsa cair muito forte, você compra mais ações para assim recompor a participação da renda variável no capital total aplicado de novo nos 20%. Por outro lado, caso a bolsa suba, adquira mais ativos de renda fixa para rebalancear com a fatia do portfólio.