Do amor ao ódio: em dois anos, HRT impressiona e frustra investidores

Credit Suisse indicava a ação como a melhor opção no setor de petróleo e gás da América Latina; atualmente, preço-alvo é de meros R$ 3

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SÃO PAULO – A um preço inicial de R$ 1.200 e uma captação de R$ 2,5 bilhões, a HRT Petróleo (HRTP3) chegou à bolsa no final de 2010 como uma das mais promissoras small caps e uma das grandes apostas dos investidores estrangeiros – de todo o valor captado no IPO (Initial Public Offering), 90% dos recursos vieram do exterior.  

As primeiras impressões eram de muito otimismo. Nos primeiros dias algumas casas de análise inciaram a cobertura das ações com avaliações positivas. Os analistas do Citi eram uns dos poucos a adotar uma postura neutra com relação às ações, enquanto os do Banco do Brasil, Bradesco e Santander indicavam compra, assim como os do Credit Suisse. Estes, inclusive, diziam que não havia ação melhor no setor de petróleo e gás da América Latina para se investir.

“Nós acreditamos que o portfólio da HRT oferece uma atrativa combinação de ativos com relativo baixo risco geológico, devido ao potencial provado de óleo e gás nos Solimões, e uma promissora (apesar de mais arriscada) nova fronteira na costa africana”, escreviam Emerson Leite e Marcos Guerra, analistas do Credit Suisse, no relatório de início de cobertura.

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Mas isso tudo logo mudaria pouco menos de dois anos depois. Na última semana, a equipe do Credit Suisse, mais pessimista, cortou a recomendação para a ação, passando de compra para neutra. Quem investiu no IPO vê as ações se desvalorizarem cerca de 80%, segundo cotação de fechamento de quarta-feira (19). Mas o que aconteceu de errado?

Com o tempo, avaliação do Credit Suisse sobre a HRT muda drasticamente
HRT Corte de recomendação Início de cobertura
Data do relatório 10/09/2012 01/12/2010
Recomendação Neutral* Outperform**
Preço-alvo US$ 3,00 US$ 1.120,00
Comentário central “Ao contrário do último poço seco da Chariot, o Tapir Sul, Kabeljou está localizado próximo a área da HRT na Namíbia, e era efetivamente uma das últimas esperanças em termos de dados significativamente tangíveis para as ações neste ano.” “Com caixa em mão e uma diretoria e equipe técnica de classe mundial, nós acreditamos que a HRT pode ter sucesso em entregar suas metas e vemos espaço para uma revisão no rating ao passo que o plano de negócios evolui e seus ativos se tornam gradualmente menos arriscados.”

*Neutral: o retorno da ação estará em linha com o benchmark pelos próximos 12 meses
**Outperform: o retorno da ação irá superar o benchmark em, pelo menos, 10-15% nos próximos 12 meses

Hora de comprar risco?
Pré-operacional, a empresa reservava muitas incertezas. “Não temos nenhuma reserva provada, e as áreas em que decidimos perfurar podem não produzir petróleo em quantidades ou qualidade comerciais, ou até mesmo não produzir nada”, alertava a empresa antes de seu IPO, no prospecto da oferta, que ainda chamava atenção ao futuro incerto, já que a empresa não possuía um histórico operacional.  E é justamente esse fator que tem assustado os investidores.

Mas o mercado demorou para avaliar esses riscos. Para o Credit Suisse, nos primeiros dias de negociações na bolsa o mercado falhava em precificar o potencial exploratório da companhia. Assim, o preço-alvo da empresa embutia um potencial teórico de valorização de 36%.

Guiada por um fluxo de notícias positivas, como a venda de participação em blocos e o início da campanha exploratória na Bacia do Solimões, até os analistas do Citi se renderam e, em agosto de 2011 revisaram suas projeções e passaram a indicar compra das ações. Assim, comparando-se os seis primeiros meses de negociações, a HRT aparecia como o quinto IPO mais rentável dos últimos anos.

2012, um ano difícil
Entretanto, os primeiros dias de negociações de 2012 já anunciavam tempos difícieis para os acionistas. Em apenas dois dias, os papéis despencaram cerca de 33%. A queda ocorreu depois da petrolífera anunciar a conclusão do teste em um poço na bacia do Solimões, com uma produção abaixo do esperado e possivelmente não comercialmente viável. Isso levava, inclusive, analistas do Deutsche Bank a indicarem a compra das ações da empresa, já que elas estavam muito descontadas.

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Entretanto, depois de já iniciada a campanha exploratória e ainda sem nenhum poço de petróleo comercialmente viável anunciado, e em meio a um processo incerto de venda de participação em blocos, começam a surgir os receios com a empresa. Em julho o próprio Deutsche Bank cortou a recomendação para manutenção.

MSCI e Chariot: decepções recentes
Em meio a esse fluxo ruim de notícias, inclusive com a exclusão do papel do MSCI (Morgan Stanley Capital International) Emerging Markets – índice que é seguido por muito fundos estrangeiros, que configuram boa parte dos investidores da empresa -, analistas já mudam o tom e dizem que mesmo o baixo preço da ação não vale o risco. Para se ter ideia da situação a que chegou, o valor de mercado da empresa já está abaixo do que ela tem em caixa – US$ 660 milhões, contra os US$ 700 milhões em caixa.

A mais recente decepção sequer teve influência da própria empresa. A Chariot Oil & Gas, que opera poços próximos aos da HRT na Namíbia, abandonou um poço por não ter petróleo comercialmente viável, o que derrubou em até 14% os papéis da empresa naquele dia.

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Está ruim, mas pode ficar pior
A dúvida agora é sobre o que será da empresa no futuro. “A última esperança?”, começa o mais recente relatório do Credit Suisse, após cortar a recomendação e adotar uma postura de cautela. Mesmo com a ação barata, os analistas agora preferem esperar para avaliar o andamento da campanha exploratória na Namíbia e no Solimões, assim como o processo de venda de participação em blocos, que ainda não aconteceu, apesar da companhia afirmar que as negociações estão indo muito bem.

A ação, aquela mesma que era uma das mais promissoras petrolíferas da América Latina e que passou por um desdobramento de 50 para 1 durante esses anos, viu seu preço-alvo de R$ 1.120 estimado pelo Credit Suisse cair para R$ 3 – considerando o split, o target anterior do Credit Suisse estaria em R$ 22,40 por ação. Em teleconferência, no último dia 10, o presidente da companhia, Márcio Mello, atacou: “Muitas informações e conclusões erradas têm sido mencionadas no mercado”. A questão, agora, é saber quem está certo, o mercado ou o presidente da empresa?