Pressão do governo e competição podem levar bancos a mais cortes de juros

Temor do mercado é que de qual o impacto no balanços dos bancos das sucessivas reduções de spreads no setor

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SÃO PAULO – O mercado voltou a mostrar preocupações com a redução dos spreads bancários em consequência da redução das taxas de juros nas operações financeiras, refletindo na forte queda das ações do setor na sessão anterior.

O pessimismo do mercado com o setor reflete a notícia de que o Bradesco (BBDC4) anunciou na última terça-feira que os cartões de crédito terão suas taxas de juros reduzidas, seguindo a linha do Banco do Brasil (BBAS3) e da Caixa Econômica Federal.

O anúncio não afetou apenas as ações BBDC4, como também contaminou os papéis de outros bancos, visto as fortes quedas dos ativos do Banco do Brasil, Santander Brasil (SANB11) e Itaú Unibanco (ITUB4). Estas ações dão sequência às quedas nesta quinta-feira (26), motivadas também pelo pessimismo das bolsas mundiais, que sofrem com os conflitos envolvendo a zona do euro.

O temor do mercado é que a pressão do governo para que os bancos reduzam o spread de suas operações leve ao anúncio de novas redução de taxas de juros. E, de fato, na véspera foi a vez do Itaú Unibanco (ITUB4) anunciar que levará as taxas de seus cartões de crédito para um dígito até o final do ano. 

A decisão do Bradesco veio poucos dias depois de funcionários do governo realizarem duras críticas a respeito de taxas de cartões de crédito praticados no Brasil. Contudo, apesar de dar continuidade a linha de reduções seguidas por outros bancos, o movimento do Bradesco foi muito mais agressivo do que a iniciativa anterior do Itaú Unibanco, com o Itaucard 2.0, que, embora tenha reduzido as taxas de juros de 12% para 5,99%, não foi imediatamente aplicada à base total de clientes.

Para a equipe de análise do Credit Suisse, a combinação de pressão do governo e da competição acirrada não poderia ser mais eficaz. “Não será surpresa se os bancos privados reduzirem as taxas ainda mais em empréstimos de cheque especial”, afirmam. “Estes desenvolvimentos só vêm para apoiar o nosso cenário de compressão de margem e um ambiente operacional mais desafiador para os bancos brasileiros”, completam os analistas.

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Impactos para Bradesco
No caso do Bradesco, apesar de acreditarem que as reduções dos juros trarão menos lucro para o banco, as opiniões de analistas convergem na análise de que a reação do mercado foi exagerada. “Isto [reação do mercado] tem a ver provavelmente com alguns analistas do mercado que estimaram que o Bradesco poderia ter um impacto negativo de dois dígitos nos lucros em 2013”, explicam em relatório os analistas da Citi Corretora, Daniel A. Abut e Juan Carlos Arandia.

Para esclarecer o verdadeiro impacto da medida, o Bradesco  realizou na quarta-feira (25) uma teleconferência conduzida pelo diretor-executivo da companhia, Luiz Carlos Angelotti, que explicou que a medida terá impacto negativo entre 2% e 3% nos lucros da empresa, considerando o pior cenário, já que, segundo ele, a medida afeta apenas 1,5% da carteira de crédito do Bradesco. 

Contudo, para os analistas do Credit Suisse, Marcelo Telles, Daniel Sasson e Victor Schabbel, o impacto potencial deve ser 10% no lucro para o ano de 2013. “Nós estimamos que as novas taxas devem ter um impacto negativo de 4,4% nas receitas líquidas de juros e 10% sobre os rendimentos para 2013”, afirmam.

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Riscos maiores estão na inadimplência
Os analistas Jorg Friedemann, Marcus Fadul e Jose Barria, do Bank of America Merrill Lynch, destacam em relatório que o movimento deve ser negativo para a confiança do investidor, pois pressupõe uma continuação das pressões do governo para que os bancos tenham spreads mais baixos. Contudo, as estimativas mais forte quanto aos volumes e taxas devem compensar parte do impacto negativo devido à redução da taxa.

“Assim, não vemos as estimativas do Bradesco como irrealistas, mas elas reforçam as pressões do setor”, completam os analistas.

Para eles, os principais riscos relacionados ao anúncio do Bradesco podem vir pelo fato de que embora o banco reafirmou o seu compromisso com a restrição ao crédito de risco, existe uma preocupação com os efeitos da expectativa de continuidade dos altos índices de inadimplência no setor.