As mulheres e o mercado financeiro

Autora do livro "As leis do dinheiro para mulheres", Eliana Bussinger escreverá para o nosso portal InfoMoney quinzenalmente. Aqui ela explica a sua coluna.

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SÃO PAULO – Uma das constatações que me fez escrever o livro “As leis do dinheiro para mulheres” (Editora Campus) foi o fato de que as responsabilidades financeiras das mulheres estão em franca expansão.
Aliás, essa constatação também motivou o convite do Infomoney para que eu passasse a escrever artigos financeiros direcionados às mulheres.

Uma pergunta sempre paira no ar quando se trata de literatura especificamente voltada para o universo feminino e aqui não é diferente: escrever livros e artigos sobre finanças para mulheres é uma necessidade legítima?

Por que o aconselhamento específico?

Por que, afinal, as mulheres precisam de aconselhamento financeiro específico?
Bem, a minha longa experiência com o mercado financeiro e o trabalho que realizo há anos com mulheres não deixa espaço para esse tipo de dúvida. São centenas de palestras realizadas para milhares de ouvintes que acabaram confirmando essa necessidade e a vontade de confrontar novas realidades associadas principalmente com a recentíssima socialização da mulher.

Alguns dos muitos fatores conjunturais que corroboram a minha certeza são:

  1. Salários que são 30% menores para mulheres têm que necessariamente ser bem administrados.
  2. É crescente o número de mulheres chefes-de-família no Brasil. São milhões de mulheres administrando seu dinheiro em vôo solo. E será que elas já sabem fazer isso, uma vez que faz menos de 40 anos que a mulher brasileira (em massa) começou a ganhar seu próprio dinheiro? A resposta infelizmente é não, ainda não.

  3. Vivendo mais do que os homens – cerca de oito anos – é incontestável o fato de que o dinheiro que a mulher precisa acumular para a aposentadoria tem que durar mais, por isso é necessário buscar uma administração mais eficiente.
  4. A popularização do divórcio no Brasil é intensa: um em cada dois casamentos não dá certo no Brasil (um em três oficialmente, mas como muita gente não casa de verdade e muitos outros não descasam oficialmente, há razões para acreditar que seja um em dois). Acho que ninguém mais se incomoda com isso, mas a questão que abala as finanças da mulher é que ela fica com a guarda dos filhos em quase todos os processos de separação e começa a ter problemas com o pagamento de pensões a partir do sexto mês de separação.
  5. A mulher é responsável por mais de 80% das decisões de compras para o lar e a família (independente de haver ou não um cônjuge). É quase sempre ela quem compra a comida, as roupas da família, os presentes que serão distribuídos, os acessórios de toda natureza, os móveis, o material escolar, o material de limpeza, os enfeites da casa, etc. Controlar tantas pequenas despesas é tarefa de árduo controle, para não dizer chato, difícil, estressante. Coordenar essa desgastante agenda presente com as necessidades futuras exige tempo e conhecimento (de consumo e de finanças).
  6. As mulheres não estão se prevenindo para o futuro como seria desejável, levando-se em conta tantas particularidades que caracterizam esse grupo. A participação delas no mercado financeiro ainda não atingiu os graus de significância semelhantes à sua participação no mercado de trabalho e de consumo.
  7. Por falta de educação financeira formal nas escolas, ainda são as mães que ensinam os brasileirinhos a “mexer” com dinheiro. Bem, ensinar a “mexer” com dinheiro, hoje, em um mercado financeiro de complexa transformação, provocada por sofisticações tecnológicas, inovação incessante de processos e produtos e competição acirrada, não é algo que está ocorrendo com espontaneidade para a maioria das mães. Assim, se quisermos uma geração de pessoas competentes financeiramente, teremos que educar as mães. São tendências sociais visíveis que ultrapassam questões de gênero!
  8. As mulheres já possuem mais da metade das contas correntes dos bancos brasileiros, no entanto, poucas delas possuem seguros, previdência privada ou ativos como ações, títulos, opções, imóveis e outros. Onde está o dinheiro das 40 milhões de mulheres que compunham a PEA (população economicamente ativa) em 2004 no Brasil?

Mais de metade da população…

Muitos outros fatores caracterizam o agregado feminino no Brasil e que certamente carecem de melhor análise e pesquisa. O espaço para mim, aqui reservado, não deverá se caracterizar como um espaço exclusivo para mulheres. Ao contrário! Espero que seja utilizado por todos aqueles que julguem ser importante conhecer mais de perto um grupo de 90 milhões de pessoas. Ou mais da metade da população brasileira!

Esse entendimento, a meu ver, deveria fazer parte da agenda das empresas, dos agentes financeiros e de todos aqueles que queiram entender melhor a nossa sociedade e evoluir com ela. Afinal de uma perspectiva mais ampla, gosto de indagar se tanto a operacionalidade quanto as forças competitivas do sistema financeiro não ficarão comprometidas se os consumidores de produtos financeiros não conseguirem desenvolver as habilidades necessárias para administrar suas finanças com efetividade?

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Muitas dos milhares de mulheres que me ouvem reclamam de tratamento discriminatório. E, sem dúvida, o sistema financeiro é campeão de reclamações! Coisas do tipo “é mulher, não entende nada de investimentos”, “deixa que eu decida o melhor investimento para você, querida”, “é muito difícil, precisa saber muito de matemática e as mulheres não são boas nisso” já deveriam ser página virada na história financeira empresarial brasileira. Aliás, sem exagero, creio que nesse entendimento residirá a permanência e o sucesso de muitas empresas financeiras!

O que esperar da coluna

Fazendo a minha apresentação, abaixo está a minha proposta de valor para os artigos que escreverei:

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  1. Clarificar questões sobre o universo feminino;

  2. Derrubar mitos e barreiras que impedem as mulheres de construir segurança financeira;
  3. Ajudar a promover a democratização da cultura financeira (para as mulheres e suas famílias);
  4. Mostrar as forças e as vulnerabilidades econômicas às quais as mulheres estão expostas;
  5. Atender à necessidade premente das mulheres de melhor compreensão dos produtos e serviços oferecidos pelo sistema financeiro;
  6. Ao mesmo tempo oferecer ao mercado financeiro os subsídios necessários para melhor compreender os milhões de mulheres que são (ou serão) suas clientes;
  7. Desmistificar o mercado financeiro e – principalmente – a idéia de que só é possível fazer aplicações quando se dispõe de grandes recursos;
  8. Tratar da construção, preservação, crescimento e reconstrução de ativos ;
  9. Mostrar que os agentes financeiros cumprem dois papéis fundamentais para a sociedade: o de impulsionar o crescimento econômico e o de cuidar do futuro financeiro das pessoas;
  10. Propiciar melhor compreensão do mercado financeiro e seus agentes;
  11. Colaborar para o crescimento e o desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil;
  12. Colaborar para o atual direcionamento de ênfase em agenda de inclusão social e financeira, ética e responsabilidade social e democratização do acesso ao capital e aos serviços financeiros.

Então, colocando-me à disposição da comunidade Infomoney, a gente se encontra por aqui!
A todos: um grande abraço.

(*) Eliana Bussinger é a autora do livro “As leis do dinheiro para mulheres”.