O Plano Real controlou mesmo a inflação?

Pesquisa da Fipe em SP mostra que alta média de preços nos 11 anos da nova moeda chegou a 160,96%, pressionada pelas tarifas administradas

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SÃO PAULO – A implementação do Plano Real, em julho de 1994, difundiu pelo Brasil a crença de que a histórica inflação do País finalmente havia sido controlada. Embora a constatação seja correta, sobretudo se considerar a realidade anterior ao plano, na prática a alta de preços tem afetado o bolso do consumidor de forma mais intensa do que a maioria das pessoas imagina.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), com base apenas no município de São Paulo, nos 11 anos de Real a capital paulista acumulou uma inflação de 160,96%, o que equivale a uma taxa média anual de 14,63%. Isso significa que, em pouco mais de uma década, os produtos quase triplicaram de preço.

Vilões da inflação

Mas nem todos os itens do dia-a-dia dos paulistanos apresentaram salto tão significativo de custo. A verdade é que existem alguns vilões da inflação, cujos encarecimentos “puxaram” o índice para cima. É o caso, sobretudo, dos preços administrados e monitorados, como a conta de telefone fixo, que em 11 anos ficou 710,04% mais cara, taxa quatro vezes e meia maior que a própria inflação.

Outros itens desta categoria também aumentaram seus custos de maneira impressionante, entre eles, a energia elétrica, cuja variação foi de 261,54% no período. Todas estas tarifas, regidas por contratos firmados na época das privatizações, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, são reajustados com base nos IGPs (Índices Gerais de Preços). Como esses índices também incluem a variação dos preços ao atacado, eles sofrem uma influência maior da alta do dólar, do que os índices de preços ao consumidor, como é o caso, do índice que mede a inflação oficial, o IPCA (Índice de Preços ao Atacado) e do próprio IPC-FIPE.

Habitação e Transporte sobem acima da média

Principalmente pela alta dos custos das tarifas públicas, a habitação foi um dos grupos de gastos com maior elevação de preços ao longo dos 11 anos de real, com taxa de 260,57%.

Dentro deste conjunto de itens, o aluguel também ajudou a pressionar o índice médio, já que ficou 554,74% mais caro desde 1994. Esta alta significativa, contudo, ocorreu principalmente nos primeiros anos do plano, e desde então as locações têm mantido um comportamento de preços mais equilibrado. Nos últimos 12 meses, por exemplo, os aluguéis em São Paulo subiram apenas 1,66%, enquanto a inflação geral chegou a 6,51%.

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Outro grupo de gastos que registrou inflação consideravelmente alta nos últimos 11 anos foi o transporte, com taxa média de 265,98%, ou 24,18% ao ano. Quem necessita de transporte coletivo na capital paulista, geralmente as classes menos abastadas, sentiu mais o peso da inflação, já que os serviços deste sub-grupo, como ônibus, metrôs e trem, ficaram 361,86% mais caros. Por outro lado, a alta de preços foi menos forte para os proprietários de veículos, alcançando 208,49%, sobretudo pelo aumento da gasolina (294,50%).

Educação (265,73%) e Saúde (228,87%) completam a lista de grupos com inflação acima da média; no primeiro caso, contribuíram mais para o aumento as mensalidades de faculdades (325,83%), enquanto na segunda categoria houve maior pressão dos planos de saúde (331,06%).

Alimentos têm inflação menor

Apresentando comportamento inverso a estes encarecimentos muitas vezes impressionantes, alguns conjuntos de mercadorias protagonizaram inflação moderada ou simplesmente menor que a média durante estes últimos 11 anos. Produtos alimentares, por exemplo, tiveram alta de 110,51% neste período, sendo que uma considerável quantidade de itens de necessidade básica apresentou inflação média próxima dos 50% ou 60%.

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Já a inflação calculada pela Fipe na capital paulista para despesas pessoais não passou de 110,90%, o que equivale a 10% anuais. O grupo de vestuário, por sua vez, registrou encarecimento médio de curiosos 12,54% desde 1994.

Em tempo, uma curiosidade: a maior alta dos últimos 11 anos, entre os 526 produtos ou serviços pesquisados pela Fipe em São Paulo, ocorreu com o abacate, que ficou 745,66% mais caro.