Turista estrangeiro é discriminado na Argentina

Apesar da grande desvalorização do peso, tarifas em dólar desagradam viajantes que resolveram visitar o país vizinho neste verão

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SÃO PAULO – Por mais de 10 anos, a conversibilidade entre o dólar e o peso fazia com que a Argentina ocupasse lugar de destaque entre os destinos mais caros do mundo para viajar. Com a desvalorização cambial (hoje um dólar vale cerca de três pesos), milhares de turistas estrangeiros viram no país vizinho uma excelente opção de férias para esse último verão. Não é à toa que em janeiro o número de turistas na Argentina aumentou em média 15%.

Um cafezinho num dos elegantes cafés de Buenos Aires, que antes custava entre US$ 2 e US$ 3, hoje custa de 2 a 3 pesos, o equivalente a um valor entre US$ 0,5 e US$ 1,00. Em locais mais simples, o mesmo produto pode ser encontrado por até US$ 0,30. Uma verdadeira bagatela para os turistas que trazem a carteira recheada de dólares.

Por outro lado, nem todos os turistas ficam muito contentes com os preços durante sua estadia no país. Alguns produtos mantiveram seus preços em dólares, como é o caso de muitos hotéis na capital e no interior, passagens aéreas domésticas e entradas para parques nacionais.

Hospedagem em dólar

Desembarcar em Buenos Aires e procurar uma agência de turismo para viajar pelo país pode ser uma experiência bastante indigesta. Especialmente se você não for argentino. Na recepção das empresas localizadas no “microcentro” portenho, costuma-se dar as boas vindas aos clientes perguntando a nacionalidade de cada um. Dependendo da resposta, ele é dirigido a uma mesa especial, com uma tabela de preços diferenciada.

Na região de Bariloche e San Martin de los Andes, uma suíte “single” num hotel 3 estrelas chega a custar mais de US$ 60. Na Patagônia, zona que a maioria dos turistas estrangeiros decide conhecer, é freqüente ver placas com as tarifas de hospedagem diferenciadas para estrangeiros e para argentinos. E as ofertas para os não-argentinos, geralmente em dólares, podem custar o triplo do preço para turistas locais.

O irlandês Alister Oriordan, que trabalha em Buenos Aires há um ano e recebe seu salário em pesos, reclama. “Fui ver as Cataratas e os preços dos hotéis para estrangeiros no lado argentino estavam em dólares. Cruzei a fronteira e me hospedei em Foz do Iguaçu, no Brasil. Eles perdem clientes por essa discriminação”, explica.

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Mesmo em muitos albergues de Buenos Aires, que são a alternativa mais econômica para turistas jovens e mochileiros, a desvalorização não mexeu nos preços. “Quiseram me cobrar US$ 12 por uma noite num albergue”, critica a brasileira Carolina de Almeida. “Não me conformei e continuei procurando. Por sorte encontrei um que me custou 12 pesos”.

Parques nacionais e tarifas aéreas

A principal queixa da francesa Antonie Vacourbeil na Argentina era a discriminação feita com os estrangeiros. No Parque Talampaya, na província de La Rioja, o preço da entrada para não-argentinos era de 12 pesos, ao passo que para os turistas locais o valor caía pela metade. “Em muitos lugares, como o Peru, Bolívia e Equador, os estrangeiros pagam bem mais para viajar. Mas faz sentido porque não existe tanto turismo local. A grande maioria é estrangeira”.

A estudante de administração de empresas acredita que as tarifas diferenciadas acabam desestimulando a vinda de estrangeiros ao país. “Muita gente vem para cá porque está mais barato. Não quer pagar em dólar”. Diante desse fato, o norte-americano Aaron Johnestone decidiu passar no Brasil os três meses restantes de seu período de férias. “Eles resolveram aumentar as tarifas aéreas para estrangeiros, e para mim já não compensava viajar de avião por lá. O preço mais que duplicou. Foi por isso que fui para o Brasil”.

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Como evitar tarifas diferenciadas e viajar mais barato

Mesmo com toda essa discriminação de preços, fazer turismo na Argentina é uma alternativa econômica, inclusive para os viajantes brasileiros. No país vizinho é possível comer bem e barato sem comprometer os gastos da viagem. Em Puerto Madero, um dos bairros mais badalados de Buenos Aires, existem menus executivos de segunda a sexta-feira por volta de 12 pesos. Nesse preço está incluído a entrada, o prato principal, uma taça de champanhe e a sobremesa.

Mas fique atento, já que muitos garçons se aproveitam dos turistas estrangeiros e lhes entregam um cardápio “especial”, com preços em dólares e sem menus executivos. É preciso ficar de olho para não pagar mais caro. Em geral, no interior do país os restaurantes são realmente econômicos, com destaque para as zonas onde o turismo está pouco desenvolvido. Na maioria dos lugares gasta-se menos de 10 pesos por pessoa, incluindo bebidas, com exceção ao Sul do país e algumas cidades no litoral.

Para quem quer viajar com uma mochila nas costas, dormir em albergues da juventude e se locomover de ônibus, é possível gastar pouco e ainda voltar com alguns dólares ao Brasil. O segredo é fugir dos lugares mais turísticos, procurando onde o turismo local é predominante. No interior do país, uma noite nos albergues custa entre 8 e 15 pesos, num quarto compartilhado com mais três pessoas.

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Mas dependendo do roteiro, não adianta reclamar. Será preciso gastar muito mais que um argentino para fazer o mesmo programa. Em Mendoza, a entrada do Parque Aconcágua custa para o turista local cerca de 5 pesos, ao passo que para os estrangeiros esse valor salta para 10 dólares. No entanto, é possível olhar o monte de fora do parque, sem gastar um tostão.

Só é preciso pedir informações nos postos turísticos e explicar aos atendentes o quanto você pretende gastar. Num país em crise, aprender a economizar com a população local é a melhor escola para o seu bolso. E atualmente os argentinos são os maiores especialistas em finanças pessoais. Pelo menos no que diz respeito ao corte de despesas.

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