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SÃO PAULO – Em um ano de 2014 que tem sido tumultuado para as moedas latino-americanas, o quetzal se destacou como o único ponto positivo. Isso mesmo, o quetzal – a moeda da Guatemala. O peso argentino afundou 24% e o real brasileiro caiu 12%, ao passo que o quetzal avançou 3% e registrou seu maior rali anual desde 2010.
A divergência se deve em grande parte ao fortalecimento da economia dos EUA. A recuperação alimentou a especulação de que a Reserva Federal aumente as taxas de juros no ano que vem e retirou investimentos dos maiores mercados financeiros da região, mas colocou mais dinheiro nos bolsos de trabalhadores imigrantes de lugares como a Guatemala. O dinheiro extra se transformou em um crescimento de 8% das remessas nos primeiros onze meses do ano, para US$ 5 bilhões. Em um país cujo PIB é de somente US$ 54 bilhões, aqueles fluxos de entrada mexem mercados.
“A nossa principal exportação continua sendo o talento humano”, disse Benjamín Arriaza, diretor de operações e finanças do credor Grupo Financiero Bantrab, com sede na Cidade da Guatemala. “O quetzal tende a se valorizar nesta época do ano, mas neste ano ele subiu acima do normal”.
Somente três moedas no mundo – o xelim da Somália, a rúpia do Paquistão e a libra do Sudão – se valorizaram mais do que o quetzal em 2014.
Pássaro de cauda longa
A moeda, cujo nome vem do pássaro de cauda longa que é o emblema nacional da Guatemala, era vendida a 7,6135 por dólar em 24 de dezembro depois de alcançar 7,5985, seu máximo em três anos, em 10 de novembro. Arriaza disse que o quetzal poderia continuar diminuindo seus ganhos no começo de 2015, enfraquecendo até cerca de 7,8 por dólar, quando os importadores pagarem bens que compraram antes da temporada do final do ano.
O Banco Central da Guatemala intervém regularmente no mercado cambial para comprar e vender a moeda. O presidente do Banco de Guatemala, Julio Suárez, disse que a meta do banco é moderar a volatilidade mais do que influir na taxa de câmbio. O banco informou neste mês que comprou US$ 232 milhões em moeda estrangeira neste ano até 12 de dezembro, frente a cerca de US$ 75 milhões em todo o ano de 2013.
Benção
Para a Guatemala, o desmoronamento do petróleo vem sendo uma benção. O país é importador líquido de petróleo bruto, com o qual o declínio de 44% nos preços desde junho diminuiu seu déficit comercial e impulsionou o quetzal. Têxteis, açúcar e café são as principais exportações do país. A economia – apesar de afetada pelo que o FMI descreveu em agosto como uma combinação entre investimentos baixos, fraqueza institucional e violência – se expandirá 3,9% em 2015 após crescer 3,7% neste ano, segundo previsões do FMI e de analistas consultados pela Bloomberg.
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O quetzal também foi impulsionado por uma venda de bonds por US$ 800 milhões feita pela Comunicaciones Celulares, a fornecedora de serviços de telefonia celular do bilionário Mario López Estrada e da Millicom International Cellular, com sede em Luxemburgo. Foi a maior venda na Guatemala desde pelo menos 1999, quando a Bloomberg começou a compilar os dados.
Empresas têm vendido dívida no exterior para garantir os custos de tomar empréstimos antes que os EUA comecem a subir as taxas, disse a ex-presidente do Banco Central María Antonieta del Cid em uma entrevista em 15 de dezembro. Vendedores de dívida antecipam que o Fed comece a elevar sua taxa de referência por volta de setembro, porque a economia americana se expandiu no maior ritmo em onze anos no terceiro trimestre.
“Grandes empresas e corporações têm tido a opção de obterem financiamento no exterior e aproveitarem condições financeiras favoráveis”, disse Del Cid, especialista residente do centro de assistência técnica regional do FMI na Cidade da Guatemala.