Primeiras leituras: o discurso do “medo” incomoda empresários

Com os ataques a Marina Dilma acerta também o setor privado, o que pode diminuir ainda mais a confiança em seu governo, caso seja reeleita

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O PT acredita que a “tática do medo”, a “demonização” da figura da candidata Marina Silva, funcionou e foi o que levou não somente à contenção da avalanche de votos que estava se dirigindo para a candidata do PT como também deu o pequeno fôlego que Dilma registrou nas mais recentes pesquisas.

Em parte, é possível – alguns analistas experimentados acham que sim. Porém, é preciso aprofundar um pouco mais as pesquisas para se ter certeza – em outras eleições, quem bateu demais teve prejuízos.

Outros analistas, como referido ontem neste espaço, acreditam que o está prejudicando a ex-ministra do Meio Ambiente não é o tiroteio mais grosseiro, é a própria Marina – a Marina ideal quando confrontada com a Marina real. Assim, a “desconstrução”, apontado as contradições dela, tem funcionado.

De todo modo, como o previsto, o PT decidiu engrossar os ataques à adversária. Novamente ontem bateu pesado. No programa eleitoral, denunciou que Marina tirará R$ 1,3 bilhão da educação. É um cálculo imaginário, a partir da tese de que a ambientalista reduzirá o ritmo (ou mesmo abandonará) de exploração do pré-sal. É falso porque esse dinheiro todo ainda não existe – e nem se tem certeza absoluta quando existirá.

Na mesma linha, Dilma tenta responsabilizar a ex-senadora do Acre por atrasos na ampliação da oferta de energia no Brasil pelas exigências ambientais para liberar as novas usinas hidrelétricas. “Houve demora, sempre por responsabilidade dela” – atacou em sabatina no SBT. O desarranjo energético brasileiro hoje tem diversas origens, não somente a questão do licenciamento ambiental. Dilma também chamou a concorrente de “inconseqüente” e de “leviana”.

O PT, porém, talvez não esperasse um efeito colateral dos ataques a Marina que começa a aparecer. Ou, talvez, tivesse previsto e não deu importância porque considera que nesta seara não já perdeu a batalha eleitoral e os votos aí não são muitos. É a reação dos empresários. Para “desconstruir” Marina uma das táticas tem sido atacar, ainda que indiretamente, o setor empresarial. Caso típico é a polêmica, ainda não abandonada, da autonomia do Banco Central.

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Há alguns dias, alguns líderes empresariais já se mostravam incomodados com esses ataques. Hoje a “Folha de S. Paulo” traz uma reportagem retratando o mal estar empresarial. Sem se identificarem (por razões óbvias), representantes do setor se queixam de que estão sendo apontados como inimigos dos trabalhadores, contra os programas sociais. Um dos entrevistados lembra que a campanha de Dilma contraria o discurso do Palácio do Planalto de aproximação com mundo econômico.

É uma jogada eleitoral, registre-se – sempre naquela lógica populista de que o que se diz nem sempre se faz. Mas é risco grande, não eleitoral, mas para depois: aumenta a desconfiança já nada pequena em relação às políticas petistas, responsável em parte, pela retração dos investimentos no país. O discurso da “nova” política econômica de Dilma, por exemplo, já é visto com alguma desconfiança.

Mas Marina também está subindo o tom: ontem disse que o PT colocou um diretor para “assaltar” a Petrobrás. E Aécio tentar sair-se de bom moço de critica o “vale tudo”.

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Mais dores de cabeça na campanha oficial: o jornal “O Globo” revela que depoimento colhido pela polícia na investigação da Operação Lava-Jato indica que parlamentares do PMDB e do PT negociaram com o doleiro Alberto Yousseff para que ele fechasse negócios com os fundos de pensão da Caixa Econômica, Funcef, e dos Correios, Postalis.

Em troca desses negócios haveria uma partilha de dinheiro para pessoas desses dois partidos. Haveria uma comissão de 10% sobre os acordos, R$ 5 milhões. A denunciante é contadora de Youssef, Meire Poza.

Emprego, inflação e consumo

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O dia não foi de boas notícias econômicas, embora a criação de empregos formais (com carteira assinada) tenha chegado a 101,4 mil vagas em agosto, segundo o Ministério do Trabalho com dados do Caged. Foi um número bem superior ao de julho – 11,8 mil postos – mas 20% menor do que o de agosto de 2013.

O que confirma outros números e indica uma desaceleração forte do mercado de trabalho no Brasil: de janeiro a agosto, foram geradas 751,5 mil vagas formais no país. Nesse mesmo período no ano passado, havia sido gerado 1,1 milhão de novos postos. Quem puxou o Caged para cima foi o setor de serviços. O grande nó está no emprego industrial, o de melhor qualidade.

O “Estado de S. Paulo” registra que a divulgação dos dados do Caged foi antecipada pelo Ministério do Trabalho para apagar os dados negativos de julho. E possíveis números desagradáveis também do IBGE, embora, por causa da greve por lá, os dados da instituição mais consistentes sobre o desemprego só devam ser conhecidos depois do segundo turno.

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O ministro Manoel Dias nega que essa antecipação tenha tido motivação eleitoral, porém ela saiu a tempo de ontem mesmo a presidente Dilma comemorar os resultados em entrevista coletiva no Palácio da Alvorada.

Do Banco Central veio a notícia mais preocupante, contanto não seja nenhuma surpresa: a inflação, segundo a análise escrita na Ata da reunião do Copom da semana passada, só descerá para a meta de 4,5% em 2016. Ou seja: o Brasil terá de conviver com preços elevados, próximos dos 6%, por pelo menos dois anos ainda.

Muitos economistas consideram a meta de 4,5% muito elevada. Eduardo Campos chegou a propor, em mais de uma ocasião, a redução desse número para 3,5% numa primeira fase. A posição dos tucanos de Aécio Neves não é conhecida, mas conhecendo-se o ministro da Fazenda que ele já nomeou caso se eleja, Armínio Fraga, a possibilidade é, no médio prazo, que a taxa de inflação a ser perseguida pelo Banco Central deles também seja também diminuída.

Quanto à presidente Dilma Rousseff isto é muito improvável. O discurso de ataque a Marina embute críticas que indicam a adversária prepara uma política recessiva. E Dilma sempre foi defensora – sem confessar, é claro – que é favorável a um pouco mais de inflação com mais crescimento. Portanto, a presidente não deve forçar a redução da meta inflacionária. O próprio BC, dizem alguns analistas, dá sinais de que está conformado com a situação.

O BC, na Ata de ontem, jogou a tolha também em relação do déficit público: retirou o item das notas anteriores em que dizia contar com a política fiscal no combate à inflação.

Sobre as posições de Dilma é interessante ler o comentário de Cláudia Safatle no “Valor” de hoje: aponta as dificuldades que Dilma poderá ter para recompor as pontes que está dinamitando na campanha (caso dos empresários) e para recompor instituições abaladas do governo: Ministério da Fazenda e Banco Central.

A terceira má notícia do dia foi do desempenho das vendas do comércio restrito: elas caem vêem caindo há dois meses e, no ritmo atual, deve-se fechar o ano com o pior resultado desde 2003 (queda de 3,7%). Pelos cálculos de economistas, o varejo deve crescer neste ano, mas no máximo 4%, abaixo dos 4,5% de 2013.

De janeiro a julho, as vendas subiram 3,5% diante do mesmo período de 2013. Em 12 meses, acumulam alta de 4,3%. De junho para julho, as vendas caíram 1,1%, mais baixo resultado mensal desde outubro de 2008, pico da crise global. As projeções do analistas eram majoritariamente de alto do comércio.

A queda do varejo, porém, não foi generalizada e se concentrou especialmente nos setores de supermercados e produtos alimentícios e de móveis e eletrodomésticos.

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