Primeiras leituras: BC e Fazenda no ritmo das urnas

O pacote de ontem para destravar o crédito só terá efeitos no médio e longo prazo. Mas Dilma ganhar um discurso para rebater Aécio e Marina. Cada vez mais as eleições condicionam as decisões da economia.

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O ministro da Fazenda, Guido Mantega, nega peremptoriamente. Mas a interpretação generalizada, tanto nos meios políticos quanto econômicos, é a de que o pacote de incentivos à economia, lançado ontem pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central, visa exatamente dar um discurso à presidente Dilma Rousseff contra as cobranças dos adversários a respeito do baixo crescimento da economia nacional.

Segundo os analistas, ele não vai causar nenhum efeito de curto prazo, portanto, não mexeria no PIB, talvez um pouco apenas no ânimo do consumidor. Acredita-se também que é equivocado: a questão principal, neste momento, não é falta de crédito e outras facilidades. É o temor, a falta de confiança do consumidor em relação à sua renda e ao seu emprego, o que o leva a pisar no freio.

Para alguns especialistas, é um alívio também para os bancos públicos.

As medidas, que parecem visam principalmente os dois setores onde o consumo mais tem caído nos últimos meses, a indústria automobilística e a construção civil, vem uma semana antes de o IBGE – está previsto inicialmente para o dia 29 – anunciar o PIB do segundo trimestre – e portanto, provocar ruídos eleitorais.

E a notícia, já se sabe, não vem boa: o desempenho deverá ser negativo, com reflexos no do primeiro trimestre, que já foi baixo, porém ligeiramente positivo, e deverá virar para negativo. Dois trimestres negativos significam tecnicamente recessão.

É apenas uma convenção. Mas a termo faz barulho: mesmo sendo rima pobre, em época de eleição recessão é palavrão.

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Prato cheio para os oposicionistas Marina Silva e Aécio Neves. Mesmo sem os números oficiais do IBGE nas mãos, pois surgirão apenas dois dias depois, a recessão será um dos temas que eles certamente explorarão no primeiro dos grandes debates dos presidenciáveis no primeiro turno, quarta-feira na TV Bandeirantes.

Dilma tem agora este pacote para rebater a acusação de que o governo não faz nada para reanimar a economia.

Outro será pegar o discurso do ministro Guido Mantega ontem no anúncio do pacote e que ela já ensaiou na sabatina de segunda-feira no Jornal Nacional: a economia já está se recuperando, a inflação esta caindo, os investimentos externos continuam chegando, o desemprego permanece baixo, quase pleno emprego. É o que apontam, segundo Dilma para William Bonner, os chamados indicadores antecedentes – aliás, expressão que mais de 90% dos telespectadores nem de longe imaginam o que queira dizer.

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Há razões para esta preocupação com a economia. O ambiente econômico no qual Dilma foi eleita em 2010 era infinitamente mais aliviado do que o de hoje. Lá a economia cresceu 7,5%, hoje ficará abaixo de 1%. A inflação foi de 5,91%, hoje deve ficar perto do limite superior da meta, de 6,5%.

Só um número é hoje favorável a ela, número importante, sem dúvida: o emprego, que estava acima de 6% no último ano do governo Lula e agora está em torno de 5%. Mesmo aí pode haver sinal negativo (ver nota sobre o emprego industrial em “Outros destaques, abaixo)

O fato é que o ambiente eleitoral está contaminando as decisões econômicas. Dilma, contrariando o Tesouro Nacional e o próprio ministro Guido Mantega, confirmou que o IPI das cervejas e refrigerantes não será elevado mais em setembro, como estava estabelecido. Para não incomodar a inflação. Gasolina, já se sabe, só em novembro. Este pacote pode não ser o último. Deve vir por aí coisa novas para o “Minha Casa Minha Vida”.

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Nem tudo são

flores para Marina

Em seu primeiro ato eleitoral para valer, na confirmação de sua indicação como candidata a presidente no lugar de Eduardo Campos, Marina Silva foi firme para tomar as rédeas da campanha, que o PSB pretendia manter em suas mãos.

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De uma só tacada colocou dois homens de sua inteira confiança nos postos mais importantes: Walter Feldman na coordenadoria geral e Bazileu Margarido na Tesouraria. Com Campos ainda vivo, em tese todos os postos eram formados por comandos duplos – PSB-Rede – e com decisões partilhadas. Na prática, porém, quem mandava era o PSB.

Agora, com razão, Marina pretende que seja tudo dela, mantendo a aparência de duplo comando. Isso já se criou o primeiro atrito: Carlos Siqueira, coordenador de inteira confiança de Campos, saiu da reunião que selou os acordos com Marina antes do fim. E não há sinais de que ele possa ficar no novo esquema.

Isto pode prejudicar a campanha, pois Marina vai precisar da estrutura do PSB. Aliás, é uma dependência de mão dupla, o que deve provocar alguma acomodação, com pontos de tensão permanente.

O primeiro round foi vencido por Marina, porém, há outras pedras no meio do caminho que a ex-ministra do Meio Amibente terá de contornar:

1. A recusa dela de assumir os acordos regionais feitos por Eduardo Campos em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina não caiu bem nos diretórios regionais do PSB. No lugar dela (antes Campos participaria diretamente de eventos) vai o vice, Beto Albuquerque. Não é a mesma coisa, vice é decoração.

2. Ainda não ficaram acertados os termos da “Carta de Compromisso” que o PSB quer que Marina assuma. Os marinistas não querem ouvir falar nisto, o PSB insiste.

3. Apoiadores em alguns Estados estão cobrando uma definição mais clara da candidata em relação às suas posições sobre o agronegócio para se envolveram na campanha. Os PMDBs do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso do Sul já se pronunciaram, querem que Marina renegue posições anteriores, abandone restrições a certos tipos de atividade, esqueça seu “fundamentalismo” ambiental. O candidato do PSB de Mato Grosso, Lúdio Cabral foi mais longe: já declarou que fará campanha para o tucano Aécio Neves.

4. Em suspenso os financiamentos de campanha. Marina tem restrições a vários setores. O estatuto do Rede Solidariedade proíbe expressamente receber doações do setores industriais de defensivos agrícolas, fabricantes de armas, bebidas alcoólicas, tabacos. Como fica: o Rede não aceita, mas a coligação aceita? O vice Beto Albuquerque recebeu ajuda em sua última eleição para deputado de todos esses grupos.

5. Entre os compromissos que o PSB quer que Marina assuma é o de que não abandonará o partido se eleita. Seus dirigentes temem que Marina insista na criação do Rede, uma das exigências que fez para apoiar Campos, e esvazie o PSB. Como diz um deles será “ganhar sem levar”.

Com a força do Palácio do Planalto por trás, ela criará sua legenda em dois tempos e atrairá não só gente do PSB, mas de uma série de outros partidos, pelo poder gravitacional do Palácio do Planalto.

E é nisto que Marina parece apostar, ao confrontar abertamente legendas como o PMDB, o PSDB e o PT. Parece uma boa estratégia eleitoral: fica com o “novo” contra o “velho” e depois coopta parlamentares de todas as legendas para formar um bloco de sustentação no Congresso com peso.

6. Começam a aparecer nos jornais comentários sobre as divergências de posições (e princípios) entre a candidata e seu vice Beto Albuqueque. Isso vai ser explorado pelos adversários, embora vice não conte muito.

Marina, que com aquele seu jeitinho cândido não tem nada de ingênua, já começa a ajustar seu discurso para determinados públicos. Ontem, garantiu que é favor do tripé macroeconômico dos tempos de FHC e reprisado por Lula em seu primeiro mandato.

Disse também que defende a autonomia do Banco Central, como Eduardo Campos. Só não sabe ainda se economia formal, em lei, ou apenas concedida. Nem tudo são palavras fáceis para os “sonháticos” clássicos.

Mais interessante em sua fala de ontem foi a crítica que fez à política energética dos governos Lula e Dilma. Ela considerou inadmissível o país estar com problemas no setor, utilizando a plena capacidade o recurso das termelétricas, sujando a matriz energética nacional, tendo sido comandado por mais dez anos, por uma especialista no assunto (Dilma, que não foi citada nominalmente).

A ex-senadora pode ter dado uma arma a Dilma: o governo – aliás, este foi o motivo das constantes divergências de Marina e Silva quando ministras de Lula – poderá dizer que um dos responsáveis pelo atraso no aumento da produção de energia foi o ativismo ambiental de Marina no Ministério do Meio Ambiente.

Um dos pontos da estratégia do PT é exatamente contrapor o élan “desenvolvimentista” da presidente ao “conservadorismo ultrapassado” de Marina.

De todo modo, a campanha de Marina é um entusiasmo só. Informações divulgadas por seus assessores dizem que pesquisas internas indicam que ela já subiu um pouco mais nas intenções de votos e já estaria com 25%. A conferir na pesquisa Ibope da semana que vem. Fato ou não, a realidade é que os adversários dela estão apreensivos. Especialmente Aécio Neves.

Os tucanos em ritmo

de emergência

Embora, de público, continuem a tocar a vida como se nada tivesse mudado substancialmente – nem ao menos alteraram o planejamento inicial dos programas eleitorais – a ficha Marina Silva caiu para o PSDB e Aécio Neves.

E ontem, convocada pelo candidato, ocorreu uma reunião de emergência em São Paulo, para discutir a situação e ver como reagir. Com direto à presença do grande staff: além do próprio candidato, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do governador Geraldo Alckmin, do candidato a vice Aoisio Nunes e até do prefeito de Salvador, ACM Neto, do DEM.

Tucanos e parceiros temem os estragos que Marina pode fazer em Aécio em Minas e no Rio, onde ela teve boa votação em 2010, no Nordeste, onde Aécio precisa crescer, entre o eleitorado mais jovem e nas grandes cidades. A estratégia é espicaçar Marina, mas com cuidado, para não parecer que está se batendo demais e transformá-la em vítima.

É esta sintonia fina que os tucanos estão procurando. No debate Aécio deve tentar mostrar as diferenças entre ele e Marina nas propostas econômicas e na experiência administrativa. São muito coincidentes as linhas básicas do programa de Aécio e do de Marina (dito por Eduardo Giannetti). O “Valor Econômico tem interessante matéria apontando esses pontos comuns.

O PT também está preocupado – e muito. Contudo, está na espera, apostando que Marina e Aécio se trucidarão e ele não precisará “sujar” as mãos. Lula por agora parece apenas apostar na estratégia do medo, como já mostrou no rádio e na televisão: por que correr o risco de mudar o que está bom?, tem sido seu recado.

Para PT o um aborrecimento: a informação de que Graça Foster e Nestor Cerveró transferiram imóveis de sua propriedade para parentes, aparentemente para fugir um possível congelamento de seus bens pelo TCU, jogou de novo luz sobre os negócios da refinaria de Pasadena e sobre a Petrobrás. Temas que o partido, Lula e Dilma gostariam de deixar esquecidos pelo seu potencial de desgaste eleitoral. Outras notícias dos jornais do dia

– CONTAS PÚBLICAS – Segundo o “Estadão” e o “Valor”, o Banco Central prepara medida para sustar uma das “pedaladas” que o Tesouro Nacional faz (grosso modo, atraso no pagamento aos bancos de desembolsos de programas do governo) para maquiar as contas públicas: o banco planeja incorporar às estatísticas das contas da União os créditos carregados pelos bancos públicos e privados em operações de financiamento com recursos do Tesouro.

Outra “pedalada” comum é contabilizar num mês a despesa feita no último dia do mês anterior: o gasto é liberado no último dia útil, depois do expediente, portanto só é registrado no mês posterior. Isso tem sido muito utilizado, por exemplo, nas transferências obrigatórias para Estados e municípios.

De acordo com o “Valor”, a dívida acumulada pelo Tesouro com subsídios não pagos atinge R$ 11 bilhões

Ainda no “Estadão”: prévia indica que a arrecadação normal de tributos federal caiu 3% em julho depois de ter ensaiado uma recuperação em junho. A perda pode ter sido compensada por receita extraordinária com o Refis. –

LEILÃO DE 4 G – O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, anunciou que o BNDES vai financiar as outorgas de 700 Mhz para o serviço celular de quarta geração. O leilão, inicialmente previsto para setembro, esteve ameaçado: o edital ainda não foi publicado, por restrições do TCU, só ontem revogadas.

Também as empresas de telefonia resistem a participar agora da disputa e empatar capital de giro num negócio que somente deverá estar totalmente disponível para ser oferecido ao consumidor depois do 2015.

Mas o governo tem pressa, pois conta com os R$ 8 bilhões que pretende arrecadar para ajudar o Tesouro a fechar o superávit primário do ano. Por isso, botou o BNDES no negócio para ver se as teles se animam com um dinheiro barato e mais fácil de conseguir. Normalmente o BNDES não financiar outorgas, apenas investimentos. Se o leilão não sair em setembro, não dá para entrar no caixa até o fim do ano. O governo prevê que apronta tudo até o fim do mês quem. –

A SITUAÇÃO DA INDÚSTRIA – Informa no “Valor”, com dados da CNI, que a produção industrial no país ficou em 48,8 pontos em julho, ante 39,6 pontos em junho.. Em julho do ano passado, esse índice ficou em 52,1 pontos. O indicador varia de zero a cem pontos, sendo que valores abaixo de 50 representam queda na produção em relação ao mês anterior. Sendo assim, a produção na indústria caiu menos em julho do que em junho.

Já o indicador de nível de emprego na indústria foi de 45 pontos no último mês, ante 45,2 pontos em junho e 48,5 pontos em julho de 2013. A CNI considera esse desempenho “uma manutenção no ritmo de queda”.

Já o “Estadão” diz que a Fiesp está prevendo uma diminuição de 100 mil empregos no setor este ano. Se o resultado for confirmado, em três anos, 2012/2013/2014, a indústria paulista terá fechado 200 mil postos de trabalho.

LEITURAS SUGERIDAS

1. Kenneth Maxwell – “Uma virada no jogo” – Folha

2. Roberto Macedo – PIB – 26 países superam Brasil na AL e no Caribe – Estadão

3. Editorial – “O vice e a vida real” – Estadão

4. Celso Ming – “Pouco mais do mesmo” – Estadão

5. Adriano Pires e Abel Holtz – “Quanto vai ser a conta de luz” – Globo

6. Miriam Leitão – “Estímulo fora de hoje” – Globo

7. Ribamar Oliveira – “A questão é saber se houve crime fiscal” – Valor

8. Editorial – “Elevação dos juros pelo FED mais próxima” – Valor