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Caiu como uma bomba boa potência política, que nem o governo nem a campanha da reeleição esperavam receber nesta altura da disputa eleitoral, o relatório do FMI classificando o Brasil no grupo dos mercados emergentes mais vulneráveis. É água no moínho da campanha oposicionista, dá fôlego às suas críticas à politica econômica.
Segundo o Fundo, o Brasil deve ser um dos países mais afetados se prevalecer um quadro adverso na economia global. No dia anterior, o FMI já havia reduzido suas estimativa para o PIB brasileiro este ano de 1,8% para 1,3%.
O relatório vem cair no momento em que o governo faz todo o esforço para rebater a onda de “pessimismo inadmissível” em relação à economia nacional conforme expressão da presidente Dilma Rousseff em coletiva na segunda-feira, em que procurou mostrar que o Brasil não vai tão mal como os números mostram e que a oposição já começa a explorar na campanha.
Para exorcizar o fantasma, o ministro Guido Mantega foi retirado do estranho mutismo que o havia acometido nas últimas semanas, para dizer que o documento “não faz sentido” e deve ter sido elaborado “por um escalão inferior” (uma espécie de “sub do sub do sub”, como Lula uma vez classificou o secretário americano Roberto Zoelick).
O discurso sobre a vulnerabilidade da economia brasileira e seu baixo crescimento é o que o comando de campanha da presidente Dilma Rousseff mais teme. Há uma equipe de funcionários em diversas pastas escalados para municiar a presidente com informações para rebater o “pessimismo”.
Um graduado funcionário do Ministério da Fazenda, o secretário de Política Econômica, Marcio Holland, foi escalado para participar de debates sobre economia com oposicionistas. No domingo ele participou de um desses debates na GloboNews (programa Miriam Leitão) com Eduardo Gianetti (da equipe de Eduardo Campos) e Samuel Pessôa (Aécio Neves).
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Será bem esclarecedor acompanhar a sabatina da presidente Dilma Rousseff hoje na CNI para se sentir melhor os rumos que ela pretende dar a um mandato Dilma II. Em horários diferentes serão sabatinados também os candidatos do PSDB e do PSB. Mas não se espere nada contundente. As perguntas deverão ser mais técnicas e as respostas bem genéricas.
Caso Santander: um lance do xadrez eleitoral
A presidente Dilma Rousseff conseguiu o que queria na crise (artificial) criada pela divulgação de uma análise negativa para sua candidatura em estratos para clientes de alta renda do Banco Satander: as desculpas da instituição financeira em carta, declarações públicas do próprio presidente mundial do Banco se explicando, e, por fim, a demissão da analista (nome não divulgado) responsável pela análise.
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A consultoria Empiricus também foi obrigada pelo TSE, em ação movida pelo PT, a retirar de seu site duas análises consideradas prejudiciais à campanha da presidente Dilma Rousseff. O ministro do TSE, Admar Gonzaga que ordenou a retirada dos dois textos disse ao “Valor Econômico” que as consultorias não podem usar adjetivações em suas análises ao falar dos candidatos em outubro.
O barulho foi desproporcional ao tamanho do fato. A reação da presidente e do PT parece bem calculada a partir de um bom pretexto dado involuntariamente pelo Santander: vai servir naturalmente ao arsenal de marketing da campanha petista. Mostrar para determinado público que ela não é a candidata das elites e reage às pressões do mundo financeiro, é capaz de contrariar o interesse dos bancos.
Lula já aplicou o esquema em evento da CUT segunda-feira em Osasco, ao qual a presidente comparecerá amanhã, num de seus dois compromissos de campanha no dia no Estado.
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Um bom estandarte para agitar para as “massas”, acredita-se em alguns meios políticos: um banco e ainda por cima estrangeiro.
Porém, a moeda tem o outro lado que pode ser desgastante para o governo: a pressão sobre o banco foi muito mal recebida não apenas no dito “mercado”, mas entre os empresários de um modo geral, por reconfirmar, mais uma vez, o viés intervencionista da presidente e sua pouca tolerância às críticas e às divergências.
Reportagem do jornal “O Globo” sobre o assunto registra que o mercado ficou assustado com as reações do governo ao comunicado do Santander. E diz que bancos e consultores vêem uso político do caso. As instituições, ainda de acordo com a matéria, temem sofrer represálias do governo, uma vez que mantém relações de negócios com o BNDES, o BB e a CEF (manchete: “Bancos farão análises mais conservadoras”).
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Estão em jogo nesse episódio alguns princípios básico da convivência democrática: tais como censura, liberdade de expressão, liberdade de opinar e controle da informação.
São Paulo vale mais do que uma missa
Baixou uma espécie de “centralismo democrático” no PMDB: Michel Temer, vice-presidente da República e presidente nacional do partido, telefonou e mandou mensagens diretamente para o candidato da legenda ao Palácio dos Bandeirantes, Paulo Skaff, para lembrá-lo que o candidato peemedebista ao Palácio do Planalto é a petista Dilma Rousseff.
E que o partido tem de obrigação de fazer campanha para ela.
Fala-se até numa possível intervenção na campanha de Skaff. Temer, que é o patrocinador da candidatura de Skaff, até agora com muito melhor desempenho nas pesquisas que o petista Alexandre Padilha, foi “enquadrado” por Brasília e pelo PT. Ele, segundo várias fontes, ameaçou abandonar o empresário.
A resistência de Skaff, que até ironiza a insistência do PT de usar o seu palanque, criou uma crise entre o PT e o PMDB que já extrapola os muros de São Paulo e está desgastando Temer na campanha de Dilma. O mau exemplo paulista, teme-se, pode contaminar outros Estados onde PT e PMDB estão se estranhando também.
O episódio demonstra a preocupação da presidente e de seus assessores com a situação de São Paulo. Situação dela, Dilma. Não há preocupação com Alexandre Padilha, nesta altura. São Paulo, com o maior eleitorado do país, é visto hoje como decisivo na disputa presidencial. E é onde Dilma encontra a maior resistência: 49% na capital, 47% no Estado contra 35% na média nacional (DataFolha). Sua vantagem para Aécio é pequena e numa simulação de segundo turno perderia tanto para o tucano quanto para Eduardo Campos.
A ordem da campanha é todo o esforço em São Paulo. Não por acaso, Dilma inicia sua campanha de rua (por ora em recintos fechados) na região metropolitana paulista, amanhã: primeiro vai a um encontro nacional da CUT e depois participa da “missa” inaugural do novo templo da Igreja Universal do Reino de Deus no Brás.
O setor elétrico, um desafio para 2015
Não são nada animadoras as notícias envolvendo o setor elétrico. Como anunciado ontem, o governo não conseguiu fechar o novo pacote de R$ 6,5 bilhões para as companhias pagarem a conta de consumo extra de maio e para formar um colchão e garantir os novos gastos extras previstos até o fim do ano.
O problema é a resistência dos banco privados em participar do novo socorro. A saída está sendo apelar para os bancos públicos: o BNDES (já estava nos planos) entrará com R$ 3 bi e a Caixa Econômica (R$ 2,5 bi) e o Banco do Brasil completarão o que faltar na parte dos bancos particulares.
Os empréstimos serão quitados a partir de 2015, com os recursos arrecadados com aumentos nas contas de luz para os consumidores no ano que vem e em 2016. Segundo a Aneel esses reajustes terão um efeito de 8 pontos percentuais nas tarifas. Pelos cálculos, a conta do consumidor subiria entre 10% e 17% em 2015, além dos reajustes anuais normais.
Um dos desafios do próximo presidente será o de reorganizar todo o sistema, em dificuldades desde o fim de 2012, quando a presidente Dilma baixou a MP 579, com o intuito de reduzir, em média, em 20% as contas de luz. Desde então o setor ficou confuso. E a redução já foi quase toda perdida.
Outros destaques do dia
– Auditória interna da Petrobrás conclui que houve irregularidade na compra de uma sonda de perfuração de R$ 1,8 bilhão.
– Diminui o número de eleitores brasileiros de até 17 anos (voto facultativo) e cresce o número de idosos e de mulheres. O Brasil está com 142,8 milhões de eleitores. Entre os jovens há menos 1,6 milhão de eleitores em relação a 2010. A faixa de eleitores que mais cresceu foi a de 45 a 59 anos. Pela primeira vez, o número de eleitores com ensino superior ultrapassou o número dos analfabetos. Essas mudanças podem ter reflexos em outubro, com tendência do voto mais reflexivo e conservador. Interessante acompanhar também o que pensam os jovens brasileiros numa pesquisa sobre os seus ídolos divulgada hoje no “Valor” (em “Leituras).
– Bancos privados argentinos estão em Nova York para oferecerem garantias aos credores e evitarem que o país entre em default. A expectativa do governo brasileiro é que se evite o problema, pois se o calote vier vai respingar, por vias indiretas, na economia nacional. O tema Argentina dominou a reunião do Mercosul em Caracas.
– O caso da refinaria da Petrobrás em Pasadena ainda pode render barulho: (1) o ministro da Justiça admite que esteve também no TCU pedindo o adiamento do julgamento; (2) o relator do processo, ministro José Jorge, admite que pode rever o acórdão do julgamento para incluir entre os diretores responsáveis, a atual presidente da companhia, Graça Foster – ela na época ocupava a diretoria de óleo e gás. Difícil a Petrobrás não subir aos palanques das campanhas. Ela tinha entrado no lugar de Ildo Sauer, que está, portanto, incorretamente citado no relatório do tribunal.
– Índices de expectativas: (1) avaliação dos empresários industriais cai pelo sétimo mês consecutivo (FGV); (2) varejo em São Paulo tem o maior descontentamento em três anos. Do ponto de vista político é importante acompanhar essas tendências porque é o ambiente social que vai determinar o caminho da maioria dos votos.
LEITURAS SUGERIDAS
1. Delfim Neto – “Desconfiança” – Folha
2. José Marcio Mendonça – “O caso Santander e a eleição” – Diário do Comércio
3. Alexandre Schwartsman – “Que venga el toro!” – Folha
4. Editorial – “Cacoete autoritário limita análises econômicas” – Globo
5. Editorial – “Mau humor na economia” – Estadão
6. Reportagem – “Um calote argentino vai passar calote aos exportadores brasileiros” – El Pais
7. Cristiano Romero – “O labirinto do Banco Central” – Valor
8. Fernando Exman – “A primeira presidente e o voto das mulheres” – Valor
9. Reportagem – “Ídolos da nova geração de brasileiros” – Valor