Retomada dos EUA pode drenar liquidez e derrubar bolsas de emergentes?

Reversão de estímulos levaria a estouro de bolha prenunciada por Roubini; analistas e gestores contestam visão apocalíptica

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SÃO PAULO – Com a perspectiva de recuperação mais vigorosa dos Estados Unidos, bem como projeções de alta com dois dígitos para os índices de ações em Wall Street, fica a dúvida: qual o risco de uma reversão no fluxo de investimentos aos países emergentes?

Por pior que tenha sido o ano de 2010 para o Ibovespa ou o índice Shanghai Composite, da bolsa de Xangai, o “zero a zero” ocorreu em um cenário de grande liquidez internacional por conta dos programas de alívio quantitativo promovidos por autoridades monetárias como Federal Reserve, BCE (Banco Central Europeu) e BoE (Bank of England), também responsável por boa parte do rali de 2009.

“Estrategistas globais falam sobre a compra de blue chips americanas, como um meio de captura da recuperação dos EUA, algo que poderia implicar um fluxo positivo de dólares em relação ao país e fortalecer a moeda”, afirmaram em relatório os analistas Diego Mendes e Paula Kovarsky, da Itaú BBA.

Mãe de todas as bolhas
Em busca de retornos maiores que os obtidos nos países desenvolvidos, os recursos injetados migraram em direção aos mercados emergentes, cujas elevadas taxas de crescimento e juro representavam uma possibilidade maior de rendimentos, em um movimento de carry trade global. 

Na visão dos analistas da Itaú BBA, os preços de commodities como o petróleo deverão encontrar suporte enquanto as medidas de política fiscal e monetária nos EUA prevenirem uma apreciação do dólar. Depois disto, devem passar a ser regidas com maior força pela relação entre oferta e demanda.

Referência quando o tópico é o pessimismo, o economista Nouriel Roubini afirmava ainda em 2009 que os mercados vivenciavam a “mãe de todas as bolhas”, apontando para as bolsas dos países emergentes e nos mercados de petróleo, cujos ganhos não são justificados pelos fundamentos. Ele também chamou a atenção para o fortalecimento de algumas moedas de países desenvolvidos, considerado “excessivo”.

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Não implica queda
Francisco Dantas, gestor de renda variável da Meta Asset Management, é direto. Questionado se acredita em uma queda nos mercados de ações emergentes por conta da recuperação dos EUA, a resposta é simples: “não”.

“O principal fator é que os EUA passou os últimos anos sem demandar capital, o nível de investimento do setor privado foi baixo”, comentou o analista, que vê a grande liquidez nos mercados acentuada após a crise de 2008, mas presente desde meados de 2003, quando Alan Greenspan ainda comandava o Fed.

Em sua visão, a retomada da economia norte-americana provocará um aumento da necessidade de recursos. “Empresas voltarão a demandar capital. Levando em conta que é recurso escasso, deve afetar o ‘preço’ do dinheiro”, explica.

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Entretanto, traçar uma projeção de queda para as bolsas com base no movimento parece exagero. “Se vai detonar uma reversão, um descolamento com performance positiva nos EUA em detrimento de emergentes, acho que não”.

Fundamentos presentes
Um dos maiores argumentos para os que acreditam na queda das bolsas tem base na avaliação de que os preços de commodities e ações estão descolados dos fundamentos, inflados pelo dinheiro impresso nos países desenvolvidos.

Mas a visão está longe de ser um consenso. “Não é o movimento principal, a economia americana e a global melhoraram muito”, contesta Guilherme Russo, analista-chefe da Fundamento Asset Management, que ressalta a influência da recuperação da demanda para a alta dos ativos de risco.

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Em sua visão, a recente melhora nos indicadores de confiança e a recuperação do mercado de trabalho nos EUA são favoráveis ao mundo no longo prazo. “Pode haver uma queda pontual, mas um movimento com um prazo maior seria de valorização”, diz o analista.

Despertar o apetite
Também é preciso considerar que boa parte da liquidez encontra-se empoçada em ativos de renda fixa. “Nós acreditamos que o grande fluxo de capitais em direção a fundos de renda fixa nos últimos dois anos deverá ser revertido quando o Fed começar a elevar as taxas de juro”, afirma Greggory Warren, analista da casa de equity research Morningstar.

O argumento parece contrariar a idéia de que juros maiores – ou seja, retorno maior com menor risco – são prejudiciais à renda variável. Entretanto, uma reversão nos estímulos do Fed estaria acompanhada de outros fatores, decorrentes de uma recuperação sólida da economia dos EUA, como a redução da aversão ao risco e do trauma associado à falência do Lehman Brothers, cujo sintoma é a busca pela preservação de capital.