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SÃO PAULO – Um 2011 melhor do que foi 2010. Essa é a expectativa dos analistas para as siderúrgicas brasileiras que, ao contrário de suas contrapartes, as mineradoras, não levam boas lembranças deste ano.
Em 2010, algumas mudanças acabaram pressionando o setor por aqui. Entre elas, o real valorizado, que impulsionou as importações de aço e, consequentemente, aumentou a concorrência para as siderúrgicas domésticas, que se viram obrigadas a praticar descontos para segurar sua fatia de mercado. Isso, contudo, corroeu as margens – tendência que foi acentuada pelo avanço dos custos, decorrência da alta dos preços das matérias-primas.
Isso, segundo Pedro Galdi, da SLW, é uma anomalia na cadeia. “A margem de siderurgia foi para a mineração”, explica. Segundo ele, apesar da tendência para o minério de ferro ainda ser positiva, essa situação não se sustenta no longo prazo. “É difícil dizer até quando a siderurgia aguenta isso – ou o preço do aço sobe ou o dos insumos cai”, resume o analista.
A demanda externa irregular e o crescimento dos estoques na cadeia produtiva também não ajudaram, e as siderúrgicas despencaram na bolsa brasileira. Confira acima um gráfico de um relatório do BTG Pactual sobre o setor, comparando o desempenho do índice ao dos principais papéis do segmento listados no Ibovespa.
Aço de mais, recuperação de menos
Além disso, o excesso de oferta de aço no mundo também pesou no desempenho das companhias, assim como uma recuperação bastante lenta nos mercados desenvolvidos, aos quais algumas empresas – em especial a Gerdau – têm bastante exposição.
Essa capacidade em excesso deve seguir atrapalhando o desempenho das siderúrgicas em 2011. “Continuamos cautelosos com as recomendações do setor, já que a recuperação dos preços internacionais ainda é frágil devido ao excesso de capacidade no mundo e fatores diferenciais para os preços entre as regiões”, escrevem os analistas Edmo Chagas, Antonio Heluany e Humberto Meireles, do BTG Pactual.
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No mesmo sentido, Andrew Snowdowne, do UBS, aponta que a capacidade em excesso da indústria do aço e fracos mercados de construção nos países desenvolvidos devem ser um fator de preocupação-chave, “ao lado da demanda em desaceleração na China”. “Com a expectativa de aumento da produção, para 2011 não acreditamos em mudança do atual panorama de sobreoferta de aço”, completa Rodrigo Fernandes, da Fator Corretora, em relatório.
Do lado da demanda, a Link espera uma retomada do consumo de aço, que se mantém fraco desde o final de 2008. A recuperação, contudo, depende da melhora da economia mundial, em especial dos mercados desenvolvidos. Essa alta da demanda, explica a corretora, poderia abrir espaço para uma elevação dos preços internacionais do aço e, consequentemente, dos preços no mercado brasileiro. A Fator lembra que a Worldsteel Association prevê crescimento de 5,3% na demanda global de aço em 2011, revelando cautela com a recuperação.
O UBS, contudo, argumenta que altas nos preços do aço seriam decorrentes não de uma demanda maior, mas sim de uma pressão de custos de matéria-prima, com o minério de ferro devendo permanecer em patamares elevados.
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O fator China
Assim como na mineração, a China também aparece como fator-chave na siderurgia. “Como o país é responsável por quase metade do consumo e da produção mundial de aço, as perspectivas de produção e consumo são importantes para o restante do mundo”, resume Fernandes, da Fator, em relatório.
A produção de aço no país deve voltar a crescer depois de um recuo no final de 2010, ocasionado por racionamentos de energia impostos pelo governo. “Acreditamos que a queda recente na produção de aço bruto é temporária, e a capacidade antiga ou ineficiente deve ser substituída por fábricas mais verdes”, escrevem Leonardo Correa e Renato Antunes, do Barclays.
Eles lembram também que a economia chinesa deve gradualmente fazer a transição de uma economia baseada em investimentos para uma baseada em consumo – o que, combinado com a desigualdade regional entre o consumo de aço, deve fazer com que a curva de intensidade de uso de aço evolua, podendo atingir seu pico somente em 2020.
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Além disso, 2011 deve trazer o anúncio do novo plano quinquenal da economia chinesa – o que, na visão do UBS, deve ser positivo para a indústria do aço. O JPMorgan acredita que o plano vai enfatizar novamente o compromisso chinês com a urbanização e com o desenvolvimento da infraestrutura por lá.
Já a Fator vê como negativo o desaquecimento econômico planejado por lá, que deve impactar o consumo de aço. “O investidor deve monitorar o comportamento da produção siderúrgica e também o processo de consolidação do setor naquele país, que por ora está lento, mas será importante para maior disciplina da oferta no futuro”, diz a corretora em relatório.
Brasil: demanda em alta, mas pressões permanecem
Por aqui, o cenário ainda se mostra complexo. Mesmo a Link, que tem a perspectiva mais positiva sobre o setor, reconhece que “a maior parte do lucro da cadeia do aço continuará com as mineradoras de minério de ferro e de carvão”. De modo geral, as expectativas apontam para uma alta da demanda no mercado doméstico, em meio a investimentos em infraestrutura e construção civil e bom desempenho do segmento automotivo, por exemplo.
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A competição, contudo, deve seguir atrapalhando os resultados. “Acreditamos que os preços no mercado brasileiro devem continuar contidos pelas importações e uma demanda sazonalmente menor no início de 2011”, escreve o BTG, que inseriu em seu relatório sobre o setor um gráfico sobre o ganho de market share do aço importado no País. “As importações para o Brasil vieram para ficar”, corrobora o JPMorgan. Também nesse sentido, o real valorizado frente a algumas das principais divisas do mundo não deve ajudar.
A Fator faz projeção semelhante para o efeito dos importados no País. “A concorrência com produtos importados não deve crescer, porém os preços devem permanecer nos níveis atuais nos mercados internacionais e a chance de as empresas recuperarem níveis elevados de prêmio sobre o produto importado é pequena”.
A corretora classifica o cenário para a siderurgia doméstica como “incerto”. “O forte aumento das importações atrapalhou a estratégia das empresas de aumentar as vendas no mercado interno e essa condição pode mudar lentamente”, explica a Fator. Apesar de um posicionamento do governo em favor de coibir práticas anticompetitivas, a corretora avalia que a abrangência das medidas não é clara.
Mais otimista, a Link projeta uma redução das importações, resultando em ganho de market share pela siderurgia local e retomada da possibilidade de aumento de preços, o que deverá ajudar as companhias a recuperar margem operacional.
Preços estáveis, foco nos custos
Nem mesmo a alta nos preços internacionais deve trazer alívio às siderúrgicas. Para o Barclays, as empresas brasileiras do setor devem seguir isoladas de variações nos preços, em meio a uma situação de estoques desfavorável e baixo poder de precificação.
Esse cenário, para o banco britânico, deve se normalizar apenas em maio de 2011 – até lá, a expectativa é que já haja uma correção nos preços globais do aço, trazendo um “timing desfavorável” para eliminar os descontos concedidos por aqui. “Por enquanto, não esperamos nenhuma alta nos preços domésticos de aço em 2011, mas vemos uma chance maior de uma elevação de 5% no segundo trimestre”.
O foco da siderurgia nacional deve, então, se voltar para o controle de custos – ponto que já vem sido frisado pelo setor –, melhores mix de vendas e acesso às matérias-primas, com investimentos em novas expansões da produção de aço sendo deixados de lado em detrimento de investimentos em logística, por exemplo. Apesar disso, a Link espera que sejam anunciados novos investimentos em capacidades de aço no Brasil em 2011.
Expectativas em baixa
Entre tantos fatores negativos, a recuperação do setor pode demorar. “Esperamos dois trimestres bastante fracos à frente, possivelmente abaixo das expectativas”, aposta o Barclays.
O JP Morgan, por sua vez, destaca que é possível que as projeções de lucros sejam revisadas para baixo e as recomendações cortadas, “com a indústria se estabilizando em um normal mais baixo, em meio à lenta recuperação da demanda e margens mais fracas”. “Esperamos que os preços sigam se deteriorando na margem, o consenso deve continuar a ser revisado para baixo, e os múltiplos não estão atrativos considerando-se a expectativa de recuperação lenta dos ganhos”, resume o BTG – que, contudo, aponta um possível ponto de entrada no setor.
Cabe lembrar que nem mesmo o setor se mostra otimista. Em reunião recente da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais), Osvaldo Schirmer, vice-presidente executivo de Finanças, Controladoria e Relações com Investidores da Gerdau disse que não há otimismo para as margens do setor no curto prazo, afirmando que os custos de estoque devem pressionar os resultados no quarto trimestre e no primeiro trimestre de 2011. Wilson Brumer, presidente da Usiminas, também traçou um panorama difícil para 2011. “O setor não vai mais oferecer margens como antes”, destacou.
CSN
Apesar da visão unânime de um cenário difícil para o setor, diversos bancos e casas de research têm recomendações de compra para companhias como CSN (CSNA3). A Link, por exemplo, destaca a produção de aço integrada com a mina Casa de Pedra, o crescimento previsto para a mineração e o possível IPO (Initial Public Offering) dos ativos desse segmento como pontos positivos para a empresa.
| Confira as projeções para as principais empresas do setor | ||||
|---|---|---|---|---|
| Instituição | Empresa | Ticker | Recomendação | Preço-alvo* |
| Ágora | CSN | CSNA3 | Compra | R$ 42,00 |
| Gerdau | GGBR4 | Compra | R$ 39,00 | |
| Usiminas | USIM5 | Compra | R$ 33,50 | |
| Barclays | CSN | CSNA3 | Equalweight | R$ 36,00 |
| Usiminas | USIM5 | Equalweight | R$ 26,50 | |
| Bradesco | CSN | CSNA3 | Outperform | R$ 42,00 |
| Gerdau | GGBR4 | Outperform | R$ 39,00 | |
| Usiminas | USIM5 | Outperform | R$ 33,50 | |
| BTG | CSN | CSNA3 | Neutra | – |
| Gerdau | GGBR4 | Compra | R$ 27,00 | |
| Usiminas | USIM5 | Neutra | – | |
| Fator | CSN | CSNA3 | Manutenção | R$ 30,00 |
| Gerdau | GGBR4 | Manutenção | R$ 30,00 | |
| Met. Gerdau | GOAU4 | Manutenção | R$ 40,00 | |
| Usiminas | USIM5 | Manutenção | R$ 23,00 | |
| HSBC | CSN | CSNA3 | Overweight | R$ 36,50 |
| Gerdau | GGBR4 | Neutra | R$ 23,50 | |
| Usiminas | USIM5 | Overweight | R$ 25,00 | |
| JPMorgan | Usiminas | USIM5 | Underweight | R$ 26,00 |
| Link | CSN | CSNA3 | Outperform | R$ 39,00 |
| Gerdau | GGBR4 | Outperform | R$ 30,00 | |
| Usiminas | USIM5 | Outperform | R$ 28,00 | |
| *Para dezembro de 2011 | ||||
“Acreditamos que esse IPO poderia destrancar valor para a CSN, mas ouvimos essa história há cinco anos, e há diversos obstáculos para que um IPO possa ser feito”, pontua o HSBC, que recentemente iniciou a cobertura da empresa, colocando-a com o perfil de crescimento mais atrativo entre as companhias brasileiras do setor, já que é autossuficiente em minério de ferro e transporte.
Para o banco, o valuation razoável e as margens superiores da companhia lhe dão ainda mais vantagens. “Pedimos aos investidores que se foquem no que importa (…) Acreditamos que o preço das ações será impulsionado pela demanda doméstica por aço, pelos projetos de minério da Casa de Pedra e Namisa e preços do minério de ferro e aço”.
A exposição ao minério de ferro também faz com que o Barclays coloque a siderúrgica como brasileira preferida no setor, apesar de ressaltar que a empresa tem consistentemente decepcionado em execuções de projetos, como capacidade adicional de portos.
Gerdau e Metalúrgica Gerdau
Assim como no caso das demais siderúrgicas, a Gerdau (GGBR4) não é unanimidade entre os analistas. Rodrigo Fernandes, da Fator, por exemplo, recomenda em relatório manutenção aos papéis da empresa, apesar de ser sua preferida no setor.
“Para o investidor que deseja se posicionar no setor siderúrgico, nossa preferência é Gerdau, em função do foco em eficiência produtiva e da expectativa de recuperação gradual do consumo no mercado norte-americano”, escreve o analista. A projeção é de uma eventual melhoria das margens operacionais, com investimentos em eficiência produtiva e em queda dos custos de produção.
O HSBC também tem recomendação neutra para os papéis – esperando, ao contrário da Fator, pouca melhora na demanda norte-americana. “Quase 40% da capacidade de aço bruto da Gerdau está na América do Norte, onde acreditamos que a demanda seguirá fraca em 2011”, aponta o banco.
Além disso, o HSBC vê possíveis pressões de preços para a empresa no próximo ano, classificando o prêmio do aço nacional insustentável. O banco ainda avaliou a compra do restante da Gerdau Ameristeel como cara, e apontou riscos nas operações na Venezuela, onde a onda de nacionalizações podem afetar a empresa. Contudo, a equipe do HSBC reconhece que a companhia está bem posicionada para se aproveitar de um aumento da demanda nos EUA, e que as atividades na Venezuela são bastante pequenas.
A Link, por sua vez, tem recomendação outperform para os papéis da Gerdau, com uma expectativa de crescimento da demanda por aços longos no mercado doméstico.
No caso da Metalúrgica Gerdau (GOAU4), holding que controla a Gerdau, a Fator destaca em relatório que a Gerdau é negociada também sob a forma de ADRs (American Depositary Receipts), o que atrai mais investidores estrangeiros e proporciona maior liquidez às ações. “Em 30 de setembro deste ano, o desconto entre os valores de mercado da Metalúrgica Gerdau e Gerdau, proporcionalmente à sua participação, era de 24,4%, comparativamente à média de 18,5% a partir de 31 de março de 2008”, explica a corretora.
Usiminas
A Usiminas (USIM3, USIM5) também ganhou cobertura do HSBC no último mês, em uma recomendação “fora de consenso”. Na visão do banco, os papéis, que têm performado mal no ano, já precificaram a maior parte dos problemas da empresa.
Além disso, o HSBC destaca que as medidas de corte de custos sendo implementadas pela Usiminas são a estratégia certa, e devem adicionar valor no médio prazo. Apesar disso, o banco afirma que uma avaliação a fundo dos custos da Usiminas foi confusa. “Energia, minério de ferro, custos trabalhistas e com outras matérias-primas aumentaram mais de 100% desde o início de 2004 (…) Elevar a produção de minério de ferro ajuda, mas estamos preocupados com outros custos, mais controláveis. Acreditamos que a Usiminas vai conseguir reduzir os gastos, mas que será um processo lento e não agirá como um driver de curto prazo para as ações”.
Ainda entre os pontos positivos, o HSBC destaca o bom posicionamento da companhia para se aproveitar de uma alta nos preços do aço no mercado doméstico e o fato de que, com o acordo com a LLX (LLXL3), a Usiminas resolveu seu problema de falta de acesso a portos.
O otimismo com a empresa, contudo, se restringe ao HSBC. A Fator Corretora, por exemplo, vê perspectivas “não favoráveis” para a companhia, com importações elevadas e preços do aço estáveis. Mesmo assim, o analista Rodrigo Fernandes afirma em relatório que, no médio prazo, a empresa tem alguns pontos positivos, como produtos específicos para infraestrutura e o negócio de equipamentos (Usiminas Mecânica).
O JPMorgan também se diz especialmente cauteloso com a Usiminas, apontando-a como a mais exposta ao cenário de deterioração dos preços e alta dos custos de matéria-prima, “que não devem ceder substancialmente até 2014”.