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SÃO PAULO – Mantendo a posição sustentada desde o começo de que as acusações de falta de transparência da JBS são infundadas, o Grupo Cremonini agora espera a decisão de instâncias italianas e internacionais sobre as denúncias apresentadas pela sócia brasileira, para só então decidir o futuro da Inalca JBS.
Em entrevista à InfoMoney, o responsável pela comunicação do Cremonini, Luca Macario, defendeu a posição da empresa, negando qualquer veto ao acesso às informações financeiras da Inalca e confirmando que, desde que a brasileira adquiriu a Bertin, tem agido como concorrente da joint venture que ambos têm em conjunto na Itália.
Ao mesmo tempo, Macario lembra cláusulas do contrato com a JBS que impõem um novo pagamento com base em resultados da Inalca, além de uma opção de venda de sua fatia para a brasileira. “Porém, antes de qualquer negociação, temos todo o interesse em fazer valer os nossos argumentos nas instâncias competentes”, declarou o porta-voz. Confira a entrevista:
InfoMoney: O Grupo Cremonini sustenta que Paolo Boni é o Presidente do Conselho de Administração da Inalca, enquanto a JBS afirma que Marco Bicchieri ainda exerce esse cargo. Como as duas possuem 50% da sociedade, como este problema pode ser resolvido?
Luca Macario: Não é o Cremonini que sustenta a exoneração que aconteceu, mas as leis e as instituições italianas, em particular o Ministero degli Affari Esteri [equivalente ao Ministério de Relações Exteriores do Brasil] e o Registro das Empresas [da Câmara de Comércio Italiana]. Qualquer recurso judicial somente poderá confirmar tal definição.
O Grupo Cremonini acusou a JBS de querer desacreditar a Inalca. Quais seriam os motivos da JBS para agir assim, dado que a Inalca já faz parte do próprio grupo brasileiro?
Deve ser dito que, sobretudo depois da aquisição da Bertin, a JBS pôs em prática várias ações em clara violação do pacto de não concorrência previsto na joint venture, considerando a Inalca como um concorrente. Além disso, parece que a JBS tenta de todo modo rescindir o contrato para não cumprir todas as condições acordadas.
De fato, lembramos que para este ano é previsto um pagamento adicional ao Cremonini (um ajustamento de preço, earn-out) de € 65 milhões em função do valor do Ebitda da Inalca JBS em 2010 igual ou superior a € 90 milhões, resultado que colocamos como meta e estamos conseguindo. Deveriam reconhecer que a empresa está indo bem, em vez disso protestam, é paradoxal.
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Por outro lado, a JBS afirma que o Grupo Cremonini vetou o acesso às informações financeiras. É verdade? Quais as razões do Cremonini para este veto?
Não há nada de mais falso. Como é facilmente verificável consultando os balanços da JBS de 2008 e 2009, estão amplamente reportados os números da Inalca JBS com os cumprimentos pelos brilhantes resultados obtidos pela joint venture, resultados não apenas aprovados formalmente pela JBS, mas também obviamente certificados oficialmente pela empresa Ernst&Young.
À luz desses fatos, a questão da falta de transparência é um absurdo colossal: nunca vetamos o acesso aos dados, como demonstra o fato de que a JBS nunca reclamou de qualquer obstáculo até o primeiro trimestre deste ano. Somente no início de 2010, tendo em vista os resultados positivos da sociedade que, repetimos, ativarão a cláusula do earn-out, que a JBS levantou instrumentalmente problemas de falta de acesso às informações. Além do mais, primeiro a JBS pediu uma auditoria completa da parte dos revisores e depois, quando o Cremonini imediatamente aceitou o pedido, fez de tudo para impedir, preocupada com os resultados positivos que teria evidenciado.
Por que o Conselho da Inalca decidiu pela exoneração dos três conselheiros brasileiros apontado pela JBS? E por que interromperam o processo de obtenção do visto do CFO apontado pela JBS, Ricardo Meira?
A interrupção do processo pela concessão do visto foi um ato devido, considerando que Meira operou ilegalmente e contra o interesse da Inalca JBS demitindo, sem qualquer poder pessoal, funcionários da empresa com experiência de 20 anos. O mesmo Meira depois foi responsável por comportamentos que são hoje objeto de investigação pelas autoridades judiciárias italianas, configurando a hipótese de crimes graves contra a sociedade. Sobre a exoneração, já respondemos no início. O Cremonini simplesmente cumpriu normas e decisões de organismos públicos italianos.
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Nesta semana, dois casos policiais vieram a público – um da parte de Bicchieri (irregularidades na Inalca), outro da parte do Grupo Cremonini (invasão do sistema de informática). O Grupo Cremonini falou em nota à imprensa de uma possível conexão entre os dois. O senhor pode explicar melhor essa afirmação?
O Bicchieri denunciou supostas irregularidades da Inalca JBS resultantes de uma documentação interna não muito bem definida que ele recebeu. Estranhamente no mesmo período a polícia italiana encontrou repetidos acessos ilegais ao sistema de informática da Inalca JBS com manipulação de dados sensíveis. A conexão entre os dois eventos é bastante intuitiva. No entanto, serão os órgãos judiciários que estão investigando que irão determinar eventuais responsabilidades.
Estes problemas prejudicaram a reputação da Inalca e suas operações?
Os ótimos resultados econômicos que a Inalca JBS está conseguindo, não obstante os ataques “internos” operados pela JBS, são a melhor resposta a esta pergunta. A JBS deverá ser responsabilizada por estes atos pelos quais foi denunciada, enquanto isso registramos a plena solidariedade dos nossos clientes. Na realidade, a reputação de uma empresa com mais de 50 anos de história e que soube merecer a confiança dos clientes internacionais não pode ser facilmente demolida, como demonstram os atestados de confiança que a Inalca recebeu de todos os seus principais clientes.
Recentemente, o Grupo Cremonini confirmou o interesse de readquirir 50% da Inalca. Esta é uma conclusão ainda possível? Quais são as outras alternativas?
Em resumo, deve-se recordar que no contrato da joint venture o Cremonini, e apenas o Cremonini, garantiu uma opção put: nós podemos decidir vender, e nesse caso eles seriam obrigados a adquirir a nossa parte, enquanto não é possível o contrário. A opção prevê que a obrigação de aquisição por parte da JBS seja baseada em um múltiplos do Ebitda da Inalca JBS. Porém, antes de qualquer negociação, temos todo o interesse em fazer valer os nossos argumentos nas instâncias competentes, primeiro na arbitragem da Câmara de Comércio de Paris. Somente depois avaliaremos uma possível oferta nossa. O que é certo é que com eles nós não continuaremos.