Pessimista ou realista? Santander vê Ibovespa em 56 mil pontos no fim de 2014

Estrategista da corretora ainda vê oportunidades pontuais na Bovespa, mas reforça necessidade do investidor buscar "alternativas" no mercado, como operações na ponta vendedora

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SÃO PAULO – Já chegamos em fevereiro, mas parece que o ano de 2013 não terminou no mercado brasileiro de ações: o sentimento pessimista que pairava nos investidores da Bovespa nos últimos meses do ano passado não só persiste neste início de 2014 como parece até ter piorado, sobretudo após as notícias pessimistas envolvendo outras economias emergentes, levando o Ibovespa – principal índice de ações da Bovespa – aos seus menores patamares em 5 meses. Embora o cenário atual ainda tenha proporcionado boas oportunidade para quem conseguiu garimpar ações com eficiência, o investidor pessoa física precisa estar cada vez mais disposto e preparado para montar operações contra a tendência natural do mercado, afirma Leonardo Milane, estrategista da Santander Corretora.

Em entrevista ao InfoMoney, Milane afirma que 2014 será um ano de oportunidades pontuais em determinados setores – o famoso “stock picking”, que consiste na escolhe de uma ação específica ao invés de uma exposição setorial. No entanto, ele demonstra ceticismo com a performance do mercado como um todo, principalmente pelo mau momento vivido pelas principais blue chips da Bolsa – como Petrobras (PETR3, PETR4) e Vale (VALE3, VALE5). “Como a economia não está brilhante, o jeito é fazer um bom stock picking”, diz o estrategista.

O Santander projeta que o Ibovespa deve fechar 2014 em 56 mil pontos, o que garante um potencial de alta de 8,72% em relação ao fechamento do ano passado (51.507 pontos), algo bastante modesto se levarmos em conta que a Selic – balizador para o rendimento do CDI (Certificado de Deposito Interbancário), que é a principal referência no mercado de renda fixa – encontra-se em 10,5% ao ano e pode subir ainda mais até dezembro. A estimativa da corretora do banco ainda é bem menor se compararmos com as projeções de outras casas de análise, como BB Investimentos, Credit Suisse e Planner Corretora, que trabalham com um “target” de 65.000, 63.000 e 59.500 pontos, respectivamente.

Bolsa não é só para comprar
Com uma relação “risco X retorno” pouco atrativa para o Ibovespa, Milane acredita que esse é o momento para o investidor buscar alternativas dentro da Bolsa para se beneficiar de possíveis quedas do índice ou simplesmente para proteger o capital investido. Uma das possibilidades de “hedge” (proteção) levantadas pelo estrategista consiste em montar posições na ponta vendedora – ou ficar “short” -, buscando lucrar com a queda nos preços de uma ação. Neste tipo de operação, o investidor entra em contato com a corretora em que opera e pede para tomar alugado um determinado papel; após a locação, ele vende este ativo na Bovespa; caso a expectativa de queda no preço se concretize, ele compra esta ação de volta e devolver ao locatário, lucrando com a diferença entre o preço de compra e de venda do ativo.

Para operações deste tipo, o estrategista do Santander recomenda ficar short com Sabesp (SBSP3), Souza Cruz (CRUZ3), Vale (VALE5) e Embraer (EMBR3).

Milane também cita uma estratégia que consiste em comprar um ativo e vender outro, buscando assim limitar as perdas – embora reduza o potencial de lucro do investimento. Dessa forma, o investidor fica “long” (comprado) em uma ação com bom potencial de alta e “short” em BOVA11, a cota do fundo que acompanha o Ibovespa e que é negociado livremente da Bolsa. Para ficar “short”, o investidor precisa tomar alugada estas cotas de BOVA11 para depois vendê-las ao mercado; quando quiser zerar a posição, ele compra estas BOVA11 no mercado e devolve ao locatário. Embora possa reduzir os ganhos obtidos com uma eventual valorização da ação, essa estratégia protege a carteira do investidor de uma eventual queda generalizada.

Além de ficar “short” ou travar seu capital, Milane lembra que o investidor também pode encontrar no mercado de opções uma forma de se beneficiar das quedas da Bovespa, comprando “puts” (opções de venda). Ao adquirir uma opção de venda, o investidor está comprando o direito de vender determinada ação até uma data pré-estabelecida por um preço já firmado. Exemplo: quem comprar uma opção PETRO16 tem o direito de vender ações da Petrobras ao preço de R$ 16,00 até março (mês de vencimento das puts com a letra O). Dessa forma, as quedas de preço das ações não terão impacto negativo em sua carteira, já que ele garantiu uma venda a um preço fixo. É importante ressaltar que o mercado de “puts” possui baixa liquidez para a maioria das ações, o que acaba concentrando boa parte das operações em Petrobras e Vale.

Ainda há boas compras na Bovespa…
Mesmo que o mar não esteja para peixe na Bovespa, Milane acredita que aqueles que conseguirem fazer uma seleção mais criteriosa poderá encontrar boas oportunidades de compra neste ano. Para ele, classificar o potencial do mercado brasileiro olhando apenas o “alvo” do Ibovespa para o final do ano é raso. “[A projeção de 56 mil pontos] não é uma grande oportunidade porque o Ibovespa está concentrado em ações com fundamentos ruins”, afirma o estrategista do Santander. O ano de 2013 colabora para a visão de Milane: a despeito da queda de 15,5% do índice no acumulado dos 12 meses, ações como Kroton (KROT3), Braskem (BRKM5), TIM Participações (TIMP3), JBS (JBSS3) e Cielo (CIEL3) apresentaram valorização entre 40% e 75%.

Dentre as oportunidades pontuais na Bolsa, Milane cita a Ser Educacional (SEER3) como uma boa opção – a ação da companhia estreou na Bovespa no final de outubro e de lá pra cá já subiu mais de 20%. O estrategista também gosta de papéis expostos ao setor financeiro, como bancos, empresas de serviços financeiros e seguradoras. As autopeças Marcopolo (POMO4) e Randon (RAPT4) também entram na lista pois, segundo Milane, são boas empresas a um preço atrativo. As ações da Randon, por sinal, atingiram nesta semana seu menor patamar desde agosto de 2012 e tiveram a recomendação elevada de venda para neutra pelo Deutsche Bank, justificando essa mudança ao recente “sell-off” dos investidores estrangeiros.

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Milane não deixa de citar também as exportadoras, que tendem a se beneficiar da tendência de alta do dólar, que atualmente encontra-se acima de R$ 2,40 e tem potencial para subir ainda mais diante da recente fuga dos investidores estrangeiros nas economias emergentes e da já muito conhecida retirada gradual de estímulos do banco central norte-americano, o que pode fazer com que os investimentos migrem para a maior economia do mundo. O estrategista coloca Iochpe Maxion (MYPK3) e BRF (BRFS3) como indicações mais conservadoras. Já para investidores mais receptíveis a posições de risco, ele sugere Suzano Papel (SUZB5) e Usiminas (USIM5).

… Mas evite varejistas e blue chips
Como já mencionou anteriormente, o baixo potencial de alta do Ibovespa deve-se muito às expectativas desfavoráveis para duas grandes estrelas da carteira do índice: Petrobras e Vale. Juntas, as ações ordinárias e preferenciais das duas empresas respondem por mais de 20% de participação no benchmark, sendo as maiores fatias individuais. 

No caso da Petrobras – que viu a ação preferencial fechar na última semana em seu menor patamar desde 2008, o pessimismo se justifica pelo já conhecido modelo desfavorável da companhia, que não consegue repassar a alta dos preços do petróleo internacional no mercado doméstico devido aos temores do governo sobre o impacto que isso traria na tão resiliente inflação, o que acaba gerando prejuízo operacional para a empresa à medida que ela precisa importar a commodity para atender a demanda interna – o que é péssimo em se tratando da companhia mais endividada do mundo, segundo estudo feito pelo Bank of America Merrill Lynch.

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Já a Vale vem sofrendo com os sinais cada vez evidentes de desaceleração do seu principal cliente mundial, a China. Milane lembra que na última semana saiu o resultado de dezembro do PMI, que funciona como uma espécie de uma cesta de diversos indicadores de atividade da economia do país e que pela primeira vez desde julho mostrou um resultado abaixo de 50 – na leitura do indicador, qualquer número acima de 50 indica crescimento na atividade; abaixo de 50, retração. Contudo, o estrategista reforça que a mineradora ainda possui diferenciais favoráveis em relação à estatal. “Estamos menos pessimistas com Vale do que com Petrobras”, afirma.

Fechando a lista do que ser evitado, Milane cita o setor varejista. Diferente de outros anos, é possível encontrar algumas ações “baratas”, mas o cenário macroeconômico mostra-se extremamente desfavorável para estas companhias – o mix de expectativa de PIB (Produto Interno Bruto) abaixo de 2% para 2014, inflação insistentemente próximo do teto da meta de 6,5%, Selic em trajetória de alta e risco-País crescente é um prato cheio para quem quer fugir das ações do setor de varejo, conclui o estrategista.

Thiago Salomão

Idealizador e apresentador do canal Stock Pickers