Expectativa do mercado é que prévia do PIB dos EUA seja revisada para baixo

Balança comercial e estoques são fatores negativos apontados por bancos; projeções giram em torno de crescimento 1 p.p. menor

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SÃO PAULO – Enquanto os dados na Europa mostram avanço, nos Estados Unidos há “uma contínua corrente de surpresas negativas” no campo dos indicadores econômicos, conforme apontou o JPMorgan em seu relatório diário sobre os Estados Unidos. Com o mercado imobiliário em declínio e sinais não muito melhores do mercado de trabalho, voltam as menções a uma possível recessão em dupla queda, ou double-dip.

Para Charles Evans, presidente do Fed regional de Chicago, as chances de um novo mergulho da economia norte-americana aumentaram nos últimos seis meses, em função da recuperação frágil dos dois segmentos citados. Ainda assim, Evans considera que “um double dip não é o desdobramento mais provável”, mas se disse preocupado com a força da recuperação. 

Revisão do PIB
Por causa desse cenário, a revisão do PIB (Produto Interno Bruto) para o segundo trimestre da maior economia global na sexta-feira (27) concentrará as atenções globais. O primeiro número, divulgado em 30 de julho, ficou em 2,4% na taxa anualizada, levemente abaixo da estimativa do mercado. O indicador, no entanto, já mostrava quem será o vilão da revisão da expansão do produto da economia dos EUA: o déficit na balança comercial. 

O Bank of America Merrill Lynch, que prevê enxugamento de quase 1 ponto percentual no crescimento da economia dos EUA no período, para 1,5%, acredita que o déficit comercial ainda maior do que inicialmente previsto será o principal responsável por essa revisão. A estimativa do banco é de que as exportações líquidas tenham sido responsáveis por retirar do PIB 3,2 pontos percentuais na variação total, em confronto com os 2,8 pontos percentuais medidos anteriormente. 

O banco não deixa de notar que essa mesma tendência não é esperada para o terceiro trimestre. “Com o déficit comercial diminuindo lentamente, é possível que esse ponto colabore com crescimento no segundo semestre e no próximo ano”, avaliou o BofA. Voltando à revisão do número para o trimestre anterior, a contribuição dos estoques também deve ser revisada para baixo. 

Não há razão para pânico…
Apontando os mesmos motivos, o Santander se alinha ao consenso de mercado, de acordo com estimativa do site Briefing.com, e prevê revisão do PIB para crescimento anualizado de 1,4% na passagem do primeiro para o segundo trimestre. O banco lembra que, se confirmado esse número, o crescimento teria registrado forte redução, já que nos últimos três meses de 2009 a economia do país cresceu 5,6%. Ainda assim, o Santander declara que não vê razão para pânico, pois isso “é resultado da retirada gradual dos impulsos fiscais associada à não-retomada da demanda privada na intensidade esperada”. 

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… mas um ciclo vicioso está em curso
O que se nota, diz o Santander, é que o consumo das famílias segue fraco. Para o banco Natixis, esse é um dos fatores que compõe um ciclo vicioso que pressiona a economia norte-americana. Por um lado, as famílias continuam insolventes após a crise e, na tentativa de diminuir o endividamento, a demanda é fraca. 

Por outro, as companhias buscam grandes lucros, o que colabora para a depressão de salários e para que a meta seja o aumento da produtividade. Assim, o mercado de trabalho continua fraco e a companhias geram um excesso de recursos que superam a necessidade de investimentos (em parte, porque a demanda e o consumo continuam se arrastando). E esse é um ciclo que se retro alimenta, a não ser que haja medida para elevar os salários. 

JPMorgan revisa perspectivas
Comentando esse fator, o JPMorgan avalia que, até agora, o ritmo mais lento de contratações e consumo era visto como uma resposta temporária a uma série de choques, e a tendência era de moderação com o passar do tempo. No entanto, os dados econômicos fracos referentes ao mês de julho e nova expansão dos pedidos de auxílio-desemprego em meados de agosto levaram o banco a revisar, novamente, suas projeções para o próximo semestre. A perspectiva agora é de que, no terceiro trimestre, o PIB cresça 1,5%, com expansão subsequente de 2% no quarto trimestre. 

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Por outro lado, uma pesquisa do Wall Street Journal com mais de 50 instituições aponta para crescimento, nesse trimestre, de 2,8% da economia dos EUA. Mesmo que revisado para baixo, a LCA não vê alta muito inferior a 2%, “um ritmo fraco, mas distante do que normalmente se classifica como o prenúncio de nova recessão”. 

Fed também entra em foco
Por outro lado, é indubitável que a recuperação perdeu momentum, conforme aponta o JPMorgan. Por isso, além da revisão do PIB, existe outro fator que chama atenção nessa sexta. A expectativa do banco é de que as chances aumentaram para uma expansão do balanço do Fed no próximo ano, com uma retomada de compras de títulos do Tesouro com prazos mais alongados. 

No entanto, o tamanho ou o momento em que isso será implementado, na concepção do JPMorgan, permanecem em aberto. Por isso, atenção também para o discurso do presidente da autoridade monetária dos EUA, Ben Bernanke, no simpósio anual do Fed de Kansas, conhecido como Jackson Hole. Embora o tema seja desafios macroeconômicos para a próxima década, a expectativa do BofA é de que Bernanke aborde também o curto prazo.