Colunista InfoMoney: o cobertor cada vez mais curto

Estado do bem estar social europeu está intimamente ligado à crise fiscal; "não há saída, o custo será alto nas urnas ou no bolso"

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No ano passado, dois economistas de Harvard, Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, escreveram o livro “This time is different: Eight centuries of Financial Folly”, que já virou um best-seller. O argumento central gira em torno das malignas consequências de uma crise financeira, dentre as quais se destaca uma crise de endividamento soberano.

Poderíamos imaginar que o problema cairia no colo de Washington, afinal, o epicentro da crise de 2008/2009 foram os Estados Unidos. Mas foi na Europa que os prêmios pelo excesso de endividamento começaram a ser cobrados. Primeiro na Grécia, depois em Portugal, Espanha, Irlanda, etc. Cunharam o termo PIIGS para os países com alto déficit fiscal e excesso de endividamento. Resultado dos tempos de vacas gordas, em que o risco do país não acompanhava sua capacidade de geração de receita e produtividade dos seus insumos econômicos.

O resultado do desmembramento da crise do subprime, nos países do Velho Mundo, é um necessário ajuste fiscal, que deve acarretar um bloco econômico de baixo crescimento por muitos anos. Nada disso é novidade. Mas a agenda europeia não para por aí.

“Haverá um custo
alto, seja no bolso
ou nas urnas”

Uma dimensão dos problemas europeus é pouco debatido, talvez por ser considerado um ganho secular ou uma característica estrutural da região – que é o estado de bem estar social extremamente benevolente dos países europeus – e que criou estados inchados, estados gastadores, estados pouco eficientes e de difícil comando nos momentos de maior estresse, como ficou claro nesse início de 2010.

O estado de bem estar social foi primeiramente desenvolvido na Europa pós-1929 com o intuito de garantir os serviços públicos e proteger a população. Após a Guerra, com o fim dos governos totalitários, a ideia ganhou contornos na Europa. Hoje, porcentagem relevante dos orçamentos dos países da região são gastos com o bem estar social, excluindo os gastos com educação, como, por exemplo, a França e Alemanha, com 28% do PIB, a Itália, com 25%, a Grécia, com 24%, e Portugal e Espanha, com 20%. Para efeitos de comparação, os EUA gastam 15%, o Japão 17%, e a Coreia do Sul, 6%.

As evidências empíricas sugerem que é possível que o estado de bem estar social tenha um efeito sobre o grau de pobreza absoluta. Porém, o que podemos dizer sobre a produtividade das famílias e empresas de cada país? Pela divergência observada no dinamismo entre os dois principais blocos econômicos (EUA e Europa) do mundo, fica claro que uma legislação mais liberal possui impactos de curto, médio e longo prazo. É o que podemos chamar de cultura econômica. A sociedade europeia se acostumou às benesses do Estado e, para retirá-las em um momento de ajuste, eleva o custo político de forma elevada.

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O resultado está refletido na velha imagem dos cursos de Economia, o cobertor curto. Se os governos forem eficazes nos ajustes fiscais, perdem popularidade, pela incompreensão dos agentes econômicos de que precisam colaborar com a austeridade. Por outro lado, se o político falar mais alto, e o populismo sobressair à racionalidade, o mercado cobrará o preço pelos anos de soberba de estados mal planejados. Assim, não há saída. Haverá um custo alto, seja no bolso ou nas urnas. Cabe a cada político escolher.

Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br