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SÃO PAULO – Recentemente, as tensões acerca da política cambial da China ocuparam novamente as manchetes internacionais, com as pressões crescentes de outros países para a valorização do yuan.
Segundo o governo norte-americano, as ações dos chineses para enfraquecer a moeda local e favorecer as exportações são as grandes responsáveis pelo forte déficit comercial dos Estados Unidos no comércio com o país asiático. No dia 15 de abril, o Tesouro dos EUA divulgará um relatório que avaliará se a China está ou não manipulando sua taxa de câmbio para conseguir vantagens comerciais.
Lá o Senado apresentou uma legislação que deverá impor novas penalidades para a China, caso o gigante asiático insista em manter uma política de desvalorização de sua moeda corrente.
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Em resposta, a China afirmou que está apenas adotando medidas para manter estável a sua moeda e não prejudicar as suas exportadoras – posição que deve ser mantida. Apesar das constantes negações de que suas ações influenciem a balança comercial com os Estados Unidos, a forte pressão surtiu efeito: recentemente, a China iniciou testes de estresse para avaliar as consequências em caso de uma valorização do yuan frente ao dólar.
Além disso, nesta manhã o governo informou que o vice-ministro de Comércio chinês, Zhong Shan, fará uma visita aos Estados Unidos entre os dias 24 e 26 deste mês para deliberar sobre o comércio entre os dois países; uma forma de tentar amenizar as crescentes tensões entre ambos.
Pressão crescente
As reclamações acerca da posição chinesa não partem somente dos norte-americanos. “A China deverá ter uma pressão crescente sobre este assunto, já que uma parcela considerável de sua competitividade no mercado externo decorre da artificialização da paridade da sua moeda com a moeda americana”, explica Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO, ressaltando que essa situação enseja uma concorrência desleal.
E o Brasil não fica de fora da questão. No início do mês, o ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, afirmou que o regime cambial chinês prejudica os demais países. “Hoje enfrentamos uma concorrência desleal com a Ásia. A China só pensa em si própria”, afirmou.
É possível uma desvalorização?
Olhando para a situação, a percepção de que a China está cedendo às pressões é grande. De acordo com relatório trimestral do Barclays Capital, o governo do país deve voltar a valorizar o yuan em torno de 5% ao ano, conforme foi visto entre 2005 e 2008. Os mercados de câmbio futuro do país também precificam fortalecimento da moeda: de cerca de 2,5% nos próximos 12 meses.
Porém, o assunto dá o que pensar. A ideia do teste de estresse, por exemplo, é vista por Sidnei Nehme como um movimento político. “A impressão que tenho a respeito é que este é mais um movimento político do que efetivo em direção a uma flexibilização. Em 2005 a China tentou flexionar e várias empresas exportadoras ficaram em dificuldades financeiras e perderam competitividade no mercado internacional”, explica.
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Por outro lado, a posição da China mostra que ao menos há um diálogo – ou seja, as posições radicais parecem ter uma probabilidade menor de acontecerem. “O grande medo são os radicalismos”, afirma a BGC Liquidez, exemplificando essas atitudes com uma desvalorização do yuan por parte da China e uma imposição de maiores tarifas de importação aos produtos chineses por parte dos Estados Unidos.
Impactos no Brasil?
Toda essa discussão chega ao Brasil como um assunto secundário. Na taxa de câmbio entre dólar e real, os impactos são relativamente insignificantes. “Se for uma coisa gradual, como foi entre 2005 e 2008, com altas de 5% ao ano, o efeito é pequeno. Agora, se for uma coisa brusca, então ajudaria a valorizar o real. Só que isso é muito improvável”, comenta a equipe da Liquidez.
Na visão da NGO, o impacto no câmbio também será mínimo. “Não consigo vislumbrar, neste momento, impactos. Até porque o real não é uma moeda conversível, ou seja, não tem a sua cotação formada pelo mercado internacional, estando muito ainda identificada com o ambiente interno no País e ainda muito influenciada pelo mercado de derivativos”, argumenta Sidnei Nehme.
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No entanto, caso a China optasse por deixar o yuan fortalecer, há alguns reflexos favoráveis ao Brasil, especialmente no que se refere ao comércio exterior. Nehme explica que, nesse caso, “a China perderia competitividade relativa com seus produtos – que ficariam mais caros – e isto, em linha, beneficiaria o Brasil”.