Descoberto o motivo da queda de até 15% da Eletropaulo em 2 dias, ações viram para alta

Nos bastidores do mercado, um fundo da GWI precisou se desfazer rapidamente de posição a termo na elétrica após bolsa mudar regra nesse tipo de operação; papéis desabam 15% em 2 pregões

Paula Barra

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SÃO PAULO – Mais uma ação foi vítima da GWI Asset Management. Nos últimos dois dias, as ações da Eletropaulo (ELPL4) derreteram até 19% (considerando a mínima desta sessão) após o fundo – que tem o histórico de operar extremamente alavancado – precisar se desfazer às pressas de operações a termo (que trata de contrato de compra e venda de ações para liquidação em uma determinada data futura com acréscimo de juros) com os papéis da elétrica. 

Não se sabe quanto a gestora possuía em ações a termo da Eletropaulo – ou seja, quanto dessa posição já foi desfeita e quanto ele ainda precisará vender do papel. O único dado público é sua posição à vista na empresa, que até o dia 5 de setembro correspondia a 6,92% do capital social da empresa, ou 11,58 milhões de ações ELPL4. Pelos dados da B3, o fundo da GWI só perdia para a BNDESPar (18,73%), AES Holding  (16,84%) e União Federal (7,97%). 

Segundo um operador do mercado que preferiu não se identificar mas que tem conhecimento sobre o assunto, além da posição à vista, o fundo sempre ia comprando ações da companhia a termo e se alavancando, mas com uma mudança na regra da B3 – parece que limitaram o tamanho da exposição ou aumentaram a margem para esse tipo de operação – eles ficaram sem ter como cobrir a posição e precisaram sair à força, comentou a fonte. Uma vez que não se sabe o tamanho do fundo nesse tipo de operação, pode ser que as vendas continuem, disse um gestor que também pediu anonimato. 

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Procurada pelo InfoMoney, a assessoria de imprensa da B3 ainda não esclareceu qual foi a mudança anunciada (e quando foi feita) para esse tipo de operação a termo. 

Após caírem até 9,32%, a R$ 12,35, na mínima do dia, as ações da Eletropaulo viraram para alta. Às 14h24 (horário de Brasília), os papéis da elétrica subiam 3,45%, a R$ 14,09, em mais um dia de forte volume financeiro, que atingia R$ 94,8 milhões, contra média diária de R$ 37,6 milhões nos últimos 21 pregões. Nas últimas duas sessões, a queda acumulada dos papéis (considerando a mínima alcançada hoje) chegou a 19%. 

Pelos dados do Profit Chart, é possível observar que nesse dois últimos dias a Planner Corretora liderou as maiores vendas dos papéis. As vendas líquidas intermediadas pela corretora no papel atingem R$ 8,2 milhões no período, na frente da Modal (- R$ 6,5 milhões) e Bradesco (- R$ 4,7 milhões). De acordo com um outro operador de mercado que pediu anonimato, a Planner é a corretora que o GWI usa para operar na bolsa.  

Veja abaixo o gráfico da ação EPL4:

Mais uma ação vítima do GWI
Vale menção que esse não foi um caso isolado com o GWI. Em agosto de 2011, um fundo da gestora perdeu 70% do valor da sua cota com investimentos alavancados em Marfrig (MRFG3). 

Naquele ano, a BM&FBovespa identificou que os fundos fizeram operações acima do limite permitido com ações da companhia no mercado a termo.

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A bolsa alertou a gestora solicitando que regularizasse a situação, mas os fundos ficaram desenquadrados por seis meses. O limite de concentração do fundo em papéis de uma mesma empresa era de 70% de seu patrimônio, mas um deles, o GWI Leverage FIA, alcançou 90%.

A GWI, em sua defesa, alegou à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que o desenquadramento havia sido passivo, fruto de uma crise internacional e nacional que afetava os negócios à época. Disse também que o regulamento do fundo alertava os cotistas sobre o risco da concentração excessiva em poucos emissores.

Em maio de 2017, a CVM multou em R$ 7,6 milhões a gestora de recursos e suspendeu, por cinco anos, a autorização para administração profissional de carteira de valores mobiliários o seu dono, o investidor coreano Mu Hak You.

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Vale menção ainda que, em 2016, Mu Hak You se envolveu em uma briga societária com o herdeiro da Saraiva, o presidente Jorge Saraiva Neto (veja aqui). A companhia acusava o gestor de violação de deveres fiduciários, abuso de direito de acionista e outras infrações pelos acionistas integrantes da GWI. Alguns dos fatos citados à época incluíam invasão à sede da empresa durante o feriado de Corpus Christi para mexer em documentos nas salas dos diretores, convocação de uma assembleia descessária e a realização de negócios suspeitos no mercado de capitais. Em julho daquele ano, o conselho de administração da companhia aprovou a retirada do gestor do cargo de conselheiro da empresa.